Protecionismo cresce nos EUA e abre espaço para o Brasil se aproximar da Aliança do Pacífico

publicado 22/05/2017 10h00, última modificação 01/06/2017 10h20
Para consultora americana Kellie Hock, México e Chile estariam mais receptivos ao Mercosul
Kellie Hock

Kellie Hock, do McLarty Associates: protecionismo americano vai contra os interesses do próprio país

Depois de quase quatro meses de governo, o presidente americano Donald Trump tem demonstrado que pretende cumprir a promessa de campanha de restringir o mercado americano para o comércio internacional e privilegiar a indústria local. Se a escalada do protecionismo americano se firmar, México e Chile (dois dos países que integram a Aliança do Pacífico) estarão mais abertos a acordos comerciais com o Brasil, via Mercosul, afirma Kellie Meiman Hock, sócia-gerente da consultoria de comércio exterior McLarty Associates.

“As negociações entre México e Brasil fazem parte de uma dinâmica interessante. Os mexicanos estão sendo inteligentes, pois não sabem o que vai acontecer com o Nafta (sigla em inglês para Tratado de Livre Comércio da América do Norte) e querem diversificar suas opções”, disse Hock, no Seminário Amcham/ CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) que aconteceu sexta-feira (19/5) na Amcham – São Paulo. Pablo Bentes, diretor de comércio internacional e investimentos da advocacia Steptoe & Johnson LLP, também participou do debate.

E o Chile tem sido receptivo a um entendimento com o Mercosul, segundo Hock. “Eles estão trabalhando para saber como o Mercosul se relacionaria com a Aliança do Pacífico (bloco em que o Chile formou na América Latina com México, Peru, Colômbia e Costa Rica), dentro de um contexto de integração com uma nova versão da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês).” Antes de Trump abandonar o TPP em janeiro, o bloco era formado pelos EUA e mais 11 países ricos e emergentes banhados pelo Oceano Pacífico.

 

Protecionismo nos EUA

Em paralelo, Hock revela que o ambiente comercial americano está ficando mais restrito para outros países. Em fevereiro, Trump manifestou a intenção de renegociar o Nafta e torná-lo mais "justo" para os Estados Unidos. Na ocasião, o líder americano disse que o acordo é injusto com os trabalhadores e empresas americanas, e que não descarta abandoná-lo se novas condições não forem alcançadas.

A notícia surpreendeu a todos no primeiro momento, mas uma articulação do setor privado acalmou os ânimos, lembra Hock. “A única coisa positiva foi que a comunidade de comércio exterior que defende o Nafta ligou para a Casa Branca e conseguiu suavizar a posição do governo. Isso mostra que o setor privado está pronto para se comunicar com a administração Trump e defender o que considerar favorável ao país.”

Além da discussão sobre o Nafta, Trump tem publicado medidas de incentivo à produção local.  Em abril, o presidente assinou uma ordem executiva chamada de "Buy American, Hire American", que muda as prioridades para vistos de trabalho e compras governamentais. O documento restringe ainda mais os critérios de concessão de vistos para imigrantes qualificados e orienta as estatais a darem preferência a compras de bens fabricados pelos EUA.

Para Hock, o fechamento do mercado americano vai contra os interesses do próprio país. “No dia seguinte a um eventual fim do Nafta, haverá retaliação dos mexicanos. Eles saberão como atingir pontos sensíveis da economia americana. Outra preocupação é que a restrição de talentos pela política do Hire American vai afetar a produtividade do país. Hoje, estima-se que é preciso 300 mil trabalhadores qualificados nas fábricas americanas.”

Oportunidades para o Brasil

De acordo com Bentes, a guinada protecionista dos Estados Unidos vai trazer benefícios ao Brasil, mas de uma forma não convencional. “Seriam oportunidades geradas por desvio de comércio. Trump tem baixado medidas para restringir a compra de biodiesel e etanol da Argentina e Indonésia. Em caso de o mercado americano se fechar para eles, o Brasil poderia ocupar essa posição”, detalha.

No setor aeroespacial, os Estados Unidos contestam na Organização Mundial do Comércio (OMC) supostos subsídios que o governo do Canadá tem dado à fabricante de aviões Bombardier. “São as mesmas queixas que o Brasil tem feito. E isso pode beneficiar a Embraer”, segundo Bentes.

Mas se os Estados Unidos aumentarem o protecionismo, o Brasil será afetado, assim como o resto do mundo. “É por isso que precisamos ficar de olho e nos defender, quando necessário”, defende o especialista.