Condições são favoráveis ao fortalecimento da relação Brasil-EUA no governo Dilma Rousseff

por daniela publicado 07/12/2010 17h36, última modificação 07/12/2010 17h36
Daniela Rocha
São Paulo- Esta é a visão de integrantes de governos e empresariado de ambos os países que participaram da XXIX plenária do Cebeu.
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O cenário é positivo para a intensificação da relação Brasil-Estados Unidos no governo da presidente Dilma Rousseff. Esta visão foi compartilhada por representantes de governos e empresariado dos dois países reunidos na XXIX Planária do Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos (Cebeu) realizada nesta terça-feira (7/12) na Amcham-São Paulo.

“Vejo oportunidades de o governo Dilma Rousseff prosseguir com ações que já vêm sendo desenvolvidas e engajar novas lideranças no Brasil e nos Estados Unidos na discussão da agenda bilateral e em temas globais em que ambos têm muito a contribuir”, destacou Anthony Harrington, copresidente da seção americana do Cebeu.

“Nos últimos anos, tivemos alta velocidade de interlocução e agora é o momento de formalizar, consolidar essa agenda estratégica, sobretudo com uma abordagem consistente em investimentos. Há muita confiança na maior aproximação entre os países no próximo governo”, acrescentou Henrique Rzezinski, presidente da seção brasileira do conselho.

Clima otimista

Na reunião, o clima de otimismo envolvendo a parceria teve como um dos fatores motivadores a recente entrevista da presidente brasileira eleita ao jornal americano Washington Post, publicada no domingo (5/12). Dilma Rousseff declarou que considera o relacionamento com os EUA importante, que se empenhará para estreitar esses laços e teceu também elogios ao presidente americano, Barack Obama.

Para Welber Barral, secretário de Comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio exterior (MDIC), a nova presidente terá apoio do Congresso para dar encaminhamento a diversos temas da pauta bilateral. “Há coalizão e os parlamentares que acompanham essa matéria possuem boa experiência”, afirmou.

O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, por sua vez, acrescenta que as recentes eleições no Poder Legislativo americano - que levaram o Partido Democrata de Obama a perder a maioria na Câmara e também cadeiras no Senado, embora lá ainda detenha maioria - não significarão um empecilho para o andamento das questões envolvendo os dois países.

“Certamente, o foco estará muito voltado às políticas de ajustes fiscais dos Estados Unidos, mas o Congresso americano terá de lidar também com assuntos relevantes de suas relações comerciais, incluindo o Brasil, que considera um mercado imortante”, disse Shannon. O governo americano trabalha com a meta de duplicar suas exportações em cinco anos.

“Existem algumas visões díspares, mas posso afirmar que vejo muito mais convergência no diálogo bilateral e na busca de soluções para problemas globais”, enfatizou Roberto Abdenur, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos e tem atuado como consultor da Amcham.

Segundo Abdenur, o processo de maior integração do Brasil com o Mersocul e demais países da América do Sul tem sido fundamental aos negócios e ao desenvolvimento da região e não deve ser analisado de forma negativa pela diplomacia, como uma atitude que exclui os Estados Unidos. “Até mesmo documentos oficiais do governo americano divulgados em 2005 já citavam a aglutinação do Mercosul como um caminho importante. É preciso considerar que união não afasta de forma nenhuma a interação com os EUA.”

De acordo com Roberto Abdenur, pela primeira vez na história da parceria, os Estados Unidos estão enfrentando dificuldades financeiras e o Brasil vive uma fase pujante, tendo se tornado credor e aparecendo como player na busca de soluções à crise que foi gerada na economia americana. “Isso leva a um amadurecimento da relação sem precedentes”, enfatizou.

Conquistas e pontos a avançar

O Brasil e os Estados Unidos criaram, em oito anos, 24 mecanismos de cooperação, volume considerado expressivo por Carlos Henrique Moojen de Abreu e Silva, diretor do Departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Ministério das Relações Exteriores. Entre os destaques, estão o memorando assinado pelo pelos presidentes Lula e George W. Bush relativo a biocombustíveis e os documentos de diálogo contínuo e troca de experiências entre MDIC e Departamento de Comércio americano; Itamaraty e Departamento de Estado dos EUA e representante comercial americano (USTR).

A iniciativa privada, ao longo desse período, passou a interagir de forma mais estruturada e oficializada com os governos de ambos os países através do CEO Fórum Brasil-Estados Unidos, entre outras ações, enfatizando as necessidades para potencializar os negócios.

“Conforme nos envolvemos, nossa relação vai se tornando cada vez mais inovadora, contemplando também a área social com memorandos contra a discriminação racial e de gênero, em defesa da mulher e debates sobre como endereçar as mudanças climáticas. Ou seja, não são apenas assuntos entre governos, mas entre sociedades no mundo globalizado”, completou o embaixador Shannon. 

Dentre as prioridades na agenda nos próximos anos, todos os especialistas que participaram da plenária do Cebeu foram unânimes em destacar:
 

  • Necessidade de um tratado para evitar a bitributação;
  • Aprofundamento do intercâmbio ligado à inovação;
  • Maior facilitação comercial, logística e no desembaraço aduaneiro;
  • Continuidade das atividades para tornar o etanol uma commodity e estabelecimento de outros tipos de cooperação na área energética;
  • Esforços conjuntos pela melhoria da segurança hemisférica;
  • Investimentos e infraestrutura.


Competitividade

A Amcham, dentro de seu projeto "Competitividade Brasil – Custos de Transação", elaborou neste ano um conjunto de propostas a serem encaminhadas ao próximo governo eliminar os principais gargalos que comprometem a maior competitividade brasileira: déficit de mão de obra técnica, deficiências de infraestrutura, excesso de burocracia e baixa eficiência do Estado.

Na reunião do Cebeu, Gabriel Rico,  CEO da entidade, afirmou que a iniciativa será acoplada aos esforços de maior integração do eixo Brasil-Estados Unidos. “Precisamos buscar saídas para derrubar os obstáculos que inibem a atração de companhias americanas e investimentos provenientes daquele país. Além disso, hoje as empresas brasileiras também estão investindo nos Estados Unidos e o ambiente tem de ser mais favorável”, explicou Rico.

O CEO da Amcham destaca que o Brasil necessita de mais recursos especialmente para a infraestrutura e pode se beneficiar de uma parceria mais consistente com os EUA, opinião compartilhada por Welber Barral, do MDIC.

“Duplicamos as exportações brasileiras de US$ 100 bilhões para a casa dos US$ 200 bilhões entre 2005 e 2008 com o mesmo sistema portuário. Isso não pode continuar. A questão da logística é crucial”, afirmou o secretário.

Barral enfatizou que, recentemente, Brasil e Estados Unidos deram um passo importante ao assinar o Acordo de Cooperação Comercial e Econômica (Teca, na sigla em inglês), um tratado guarda-chuva, que cria um mecanismo permanente de diálogo para os dois governos resolverem, por exemplo, controvérsias como barreiras a investimentos e ao comércio, garantindo maior agilidade às negociações. 

Apesar dos avanços, é consenso que ainda há muito a avançar, como destaca o  presidente da International Paper na América Latina, Jean Michel Ribieras. Ele acredita que os dois países ainda têm muito a trabalhar no caminho de um acordo de investimentos. “Precisamos de compromisso e regras estáveis para que os investimentos de longo prazo sejam ampliados”, indicou Ribieras.

Comércio

As exportações brasileiras aos Estados Unidos estão em ritmo de recuperação, mas ainda não atingiram o patamar pré-crise financeira mundial, de 2008. Neste ano, as vendas ao mercado americano de janeiro a novembro cresceram quase 19%, alcançando US$ 17,1 bilhões, conforme levantamento do MDIC. Segundo o secretário Welber Barral, a previsão é que fechem 2010 entre US$ 18,5 e US$ 19 bilhões,  o que representará uma expansão de 20%.

O diretor-executivo da CNI, José Augusto Fernandes, aproveitou o encontro na Amcham para destacar o potencial do mercado americano como destino de produtos brasileiros manufaturados e semimanufaturados, de maior valor agregado. “Precisamos prestar muita atenção e reverter a tendência atual. A participação dos manufaturados brasileiros nas exportações aos Estados Unidos passou de 32% em 2003 para 13% hoje, uma queda expressiva.”

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