Custo Brasil coloca barreiras à internacionalização de empresas brasileiras

por andre_inohara — publicado 29/01/2013 16h56, última modificação 29/01/2013 16h56
São Paulo – Alta carga tributária, falta de acordos internacionais contra bitributação e restrição ao crédito estão entre principais motivos.
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A internacionalização de empresas é positiva para a economia brasileira e poderia ter atingido mais companhias, não fossem entraves tributários e financeiros.

Os obstáculos mencionados fazem parte do Custo Brasil, uma série de barreiras estruturais das quais o País ainda não se desvencilhou, e que sufocam a capacidade do empreendedor de competir.

“A busca da competitividade é o principal motivo da internacionalização”, comenta Luis Afonso Lima, diretor presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e Globalização Econômica (Sobeet). Lima participou do comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (29/01).

“Para avançar na internacionalização, é preciso cobrir três frentes: fechar tratados para eliminar a bitributação, estabelecer acordos internacionais de investimento e tornar o acesso ao crédito mais democrático para as empresas de menor porte”, afirma o representante da Sobeet.

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As empresas brasileiras que se internacionalizaram nos últimos anos ficaram mais competitivas e, com isso, deram um passo importante para ficar adiante da concorrência. Elas se beneficiaram com receitas maiores de exportação, redução de custos, abertura de novos mercados e atualização de conhecimentos de gestão e processos.

Limitações tributárias

As afirmações de Lima foram extraídas de pesquisa Sobeet/Valor sobre internacionalização de empresas brasileiras realizada em 2012. As barreiras internas que os empreendedores brasileiros encontram têm a ver com o complexo sistema tributário. O Brasil tem pouquíssimos tratados contra bitributação, o que obriga os empreendedores a arrecadarem impostos tanto aqui como no exterior.

Citando a Unctad (sigla em inglês para Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento), Lima disse que o Brasil fez menos de 15 acordos dessa natureza nos últimos dez anos. “Se pegarmos uma lista de 170 países, o Brasil está entre os dez últimos”, lamenta.

A alta carga tributária impõe amarras aos exportadores. “Além da tributação sobre o IRPJ [Imposto de Renda Pessoa Jurídica] e o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços], ela também incide sobre a exportação e a repatriação de recursos”, detalha Lima.

Os empreendedores brasileiros reclamam igualmente da insegurança jurídica nos países em que atuam ou pretendem atuar. “A resposta a isso seriam acordos para proteger os investimentos brasileiros já feitos e evitar episódios ocorridos com companhias brasileiras na América do Sul”, comenta o executivo da Sobeet.

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Crédito restrito e dinâmica da internacionalização brasileira

Outra limitação apontada pela pesquisa foi a dificuldade que as empresas nacionais têm de contrair financiamento produtivo. De acordo com a Sobeet, mais da metade das companhias (50,1%) investe no exterior com capital próprio.

A segunda principal forma de financiamento é via dívidas no exterior (23,8%), seguida por crédito do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com 14%. “Nenhuma empresa alegou bancos nacionais como fonte de recursos”, observa Lima.

Em compensação, o financiamento via bancos internacionais foi uma escolha de 12% das companhias brasileiras. O percentual de crédito via BNDES foi considerado baixo, mas justificável. “Nosso diagnóstico é que o banco até tem linhas para financiamento de atividades no exterior, mas elas são concentradas em grandes grupos. A representatividade acaba se reduzindo”, explica ele.

As médias e pequenas empresas que querem exportar também deveriam ter linhas facilitadas de crédito produtivo, defende Lima. É por isso que, devido ao ambiente de negócios difícil no Brasil, algumas empresas escolhem o caminho da internacionalização.

Há casos de empresas brasileiras que só conseguem competir em mercados desenvolvidos, como os EUA, por meio de operação própria em outra localidade. “A Marcopolo [fabricante de carrocerias] exporta para os EUA de sua filial na África do Sul, e sabemos de empresas que só conseguem vender na Europa porque têm unidades fora do Brasil”, segundo Lima.

Conforme a pesquisa, os principais motivos que levam a abertura de operações no exterior são busca por competitividade internacional/acesso a novos mercados (31%), diminuição da dependência do mercado doméstico (25%) e necessidade de adquirir economia de escala (16,3%).

Empresas de serviços liderando a internacionalização em 2013

Lima acredita que o movimento de internacionalização de companhias brasileiras deverá ser liderado por empresas de médio porte neste ano, vindas do setor de serviços. “O setor de serviços está ficando mais representativo no nosso PIB [Produto Interno Bruto] e vem se extravasando para o exterior também”, comenta ele.

As operações devem ser caracterizadas pela instalação de unidades produtivas. “As empresas começaram com pequenos escritórios, que no inicio eram voltados à exportação. Hoje temos crescente participação de unidades produtivas, avançando para o terceiro estágio da internacionalização, o de pesquisa e desenvolvimento”, afirma Lima.

Metalfrio

A Metalfrio Solutions, empresa de refrigeração comercial, decidiu expandir os negócios para o exterior em 2006, após concluir uma reestruturação administrativa. “Temos clientes globais e nossa motivação foi ganhar competitividade no mercado internacional”, revelou Luiz Eduardo Moreira Caio, presidente e diretor de Relações com Investidores da Metalfrio Solutions.

Com os recursos levantados pela abertura de capital em 2007, a Metalfrio Solutions montou uma operação mundial com quatro fábricas (Brasil, México, Turquia e Rússia) para atender a clientes nos segmentos de bebidas alcoólicas, não alcoólicas e sorvetes.

O modelo de negócios da Metalfrio não é só comercializar freezers, mas oferecer serviços. As equipes da empresa podem fazer a manutenção dos equipamentos em pouco espaço de tempo após serem chamadas, comenta o executivo.

Através de tecnologia, a Metalfrio Solutions é capaz de monitorar à distância a temperatura de seus equipamentos. Isso é muito útil para produtos que exigem refrigeração a temperaturas muito baixas e que não podem sofrer grande variação, como vacinas.

“Os chineses podem até fazer refrigeradores mais baratos do que os nossos, mas não conseguem prestar o mesmo serviço”, avalia Caio.

 

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