Eleição como a dos EUA é sonho de qualquer democracia, afirma Gilberto Kassab

por marcel_gugoni — publicado 31/01/2012 14h25, última modificação 31/01/2012 14h25
Marcel Gugoni
São Paulo - Excesso de partidos como o visto no Brasil é ruim para o eleitor, na visão do prefeito.
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A democracia brasileira está cada vez mais sólida, mas os partidos ainda têm que amadurecer. É assim que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD-SP), avalia o atual cenário político brasileiro. A disputa entre democratas e republicanos nos Estados Unidos é tida por ele como um sistema eleitoral mais eficiente, porque o excesso de partidos é ruim para o eleitor e para a disputa.

Veja mais: Gilberto Kassab elege educação e transporte público como maiores desafios para a cidade de São Paulo

“É necessário que os partidos estejam cada vez mais maduros e que tenhamos uma concentração maior, um menor grau pulverização”, afirmou ele, ao participar de um almoço com empresários na Amcham-São Paulo nesta segunda-feira (30/01).

Para o prefeito, o Brasil ainda não está preparado para viver a atuação de partidos em sua plenitude como se vê nos Estados Unidos. “Esse exemplo é o sonho de qualquer democracia. A pluralidade de partidos nos enfraquece, porque sabemos que muitos são balcões de emprego”, analisa.

Veja os principais trechos da entrevista que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD-SP), concedeu ao site da Amcham:

Amcham: Desde 2010, a Amcham realiza o programa “Competitividade Brasil – Custos de Transação” que debate os maiores desafios à competitividade do País e soluções para enfrentá-los. O programa é focado em três grande áreas: qualificação de mão-de-obra, especialmente a técnica; deficiências de infraestrutura; e complexidade tributária. Olhando para trás na sua gestão, qual o balanço que o sr. faz da situação de São Paulo sob essas três óticas?

Gilberto Kassab: É um balanço bastante positivo. O que contribuiu para esse resultado foi a criação da Secretaria do Desenvolvimento Econômico, que nos deu a oportunidade de criar programas e políticas públicas voltadas à capacitação e a incentivos a regiões que puderam ou vão poder experimentar um desenvolvimento bastante expressivo, gerando bem estar, empregos e melhora da qualidade de vida, em especial às regiões carentes da cidade. É, portanto, a prefeitura se associando a uma demanda importante de crescimento que tinha e continuará a ter a cidade de São Paulo em geração de empregos para os milhões de pessoas que aqui moram.

Amcham: Como o sr. vê o desafio da formação de mão de obra?

Gilberto Kassab: Todos sabem da necessidade que temos de capacitar a mão de obra, em especial, uma mão de obra especializada, que possa trabalhar na indústria de ponta, fornecendo serviços de qualidade. A cidade de São Paulo é cada vez mais uma cidade voltada a serviços. E o consumidor é cada vez mais exigente por serviços de qualidade. Essa é uma demanda importante para prestar serviços de excelência. Temos uma classe média emergente exigente de serviços de qualidade. Em uma conta simples, dos 11 milhões de habitantes de São Paulo, temos 1,1 milhão de alunos na rede estadual e 1,1 milhão na municipal. São mais de 2 milhões de jovens que dependem de ensino público. Na saúde, mais de 7 milhões dependem da rede pública. Hoje, as classes B e C são muito expressivas, demandando qualidade. E não podemos aumentar a carga tributária porque estamos no limite. Então temos que aumentar os investimentos.

Amcham: E quanto aos primeiros passos do ensino, as creches?

Gilberto Kassab: Um dos maiores desafios são as creches. Temos que criar condições para novas vagas. Aqui em SP, encontramos a cidade com 58 mil vagas em creche. Vamos deixar [a gestão] com aproximadamente 120 mil. No meio do caminho foi mudada a legislação. O conceito creche de hoje é diferente do conceito creche de alguns anos atrás. Temos hoje conveniados com a prefeitura que cuidam de 190 mil crianças. Mas temos ainda 160 mil fora de creche porque a família não teve condições de colocar os filhos em redes porque não tem recursos próprios. Esse é um dos principais problemas na cidade. Fazer vaga de creche não é construir a creche, mas a manutenção. Na cidade, 31% do nosso orçamento vão para a educação. Nosso desafio é aproximar o Estado e a União do município, para que possa haver mais recurso para a educação infantil. Na cidade de SP, o poder público atende mais da metade [das crianças em idade de estar em creches]. Todos aqui hão de convir que as crianças que estão fora de creches são aquelas que têm mais chance de dar problemas no futuro. São aquelas crianças que ficam na rua porque o pai, a mãe ou ambos precisam sair para trabalhar.

Amcham: Quando se fala de problemas de infraestrutura, o trânsito é apontado como o pior gargalo da cidade. Qual é o melhor método de resolvê-lo?

Gilberto Kassab: Transporte público de massa, eficiente. O melhor desses é o transporte público sobre trilhos. Não podemos falar que o trânsito não melhorou na nossa gestão. Melhorou. Mas ainda continua muito ruim. Tiramos caminhão das vias [do centro expandido em horários de pico], tivemos algumas ações sobre os fretados [restrições a circulação nos corredores mais movimentados]. A solução, a única, é o metrô. Os corredores são importantes, mas são paliativos. No começo da minha gestão, quando o corredor de ônibus do Expresso Tiradentes foi colocado sobre a minha mesa, era um projeto de R$ 450 milhões que ligava o parque Dom Pedro II até a Cidade Tiradentes num corredor com 78 cruzamentos. Transformamos a solução do corredor em linha expressa, projeto mais caro e mais lento. Infelizmente, os prefeitos de um passado recente não se envolviam em projetos como esse porque eram caros e eles não inauguravam na gestão deles. Nós investimos mais de R$ 1 bilhão no corredor da Rebouças e vai ficar para a próxima gestão inaugurar. Muitos prefeririam pegar esse R$ 1 bilhão, inaugurar dez pontes de R$ 100 milhões cada uma e inaugurar.

Amcham: Que papel têm as PPPs (Parceria Público-Privada) nesses investimentos em educação básica e transportes?

Gilberto Kassab: PPP é evidente que é muito bem-vinda. No mundo de hoje, não há político que consiga governar sem PPP. No caso da saúde, estamos preparando uma PPP que vai permitir reformar toda a área da saúde e que, ao longo de sua vigência, vai alcançar mais de R$ 6 bilhões em investimentos. O transporte público sobre trilhos precisa ter uma participação do setor privado mais expressiva até porque os investimentos são pesados. Temos que pressionar o governo federal e o governo do Estado a investir mais em metrô na cidade de São Paulo. Nenhum presidente investe [no metrô em SP], mas no resto do Brasil sim – e a fundo perdido em muitos casos. São Paulo precisaria ter, no mínimo, 400 quilômetros de metrô. Mas temos 70 quilômetros. Aqui fazemos festa quando recebemos um trem. Essa é a dimensão no nosso metrô. Os problemas que a prefeitura quer enfrentar e não consegue são relacionados ao poder público. Os dois grandes desafios da cidade que dependem do governo municipal são as creches e o transporte público, com corredor ou metrô. Os políticos têm que passar a pensar no que é melhor para a cidade.

Amcham: Há pouco, na reunião, o sr. fez uma reflexão sobre a questão das eleições nos Estados Unidos. Qual é o exemplo de democracia que eles podem dar para o Brasil? O que funcionaria e o que não daria certo?

Gilberto Kassab: A democracia brasileira está cada vez mais sólida. E para que ela possa avançar com cada vez mais rapidez, é necessário que os partidos estejam cada vez mais maduros e que tenhamos uma concentração maior de partidos e menor grau de pulverização. Não estamos preparados para viver a atuação de partidos em sua plenitude como vemos nos Estados Unidos. Esse exemplo é o sonho de qualquer democracia. A pluralidade de partidos nos enfraquece, porque sabemos que muitos são balcões de emprego.

Amcham: Há espaço para o bipartidarismo no Brasil em sua avaliação?

Gilberto Kassab: Acho que a meta é diminuir o número de partidos, mas, se são dois ou três, é difícil dizer.

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