Eleições americanas: o que muda na política externa e no comércio internacional com uma vitória de Biden ou Trump?

publicado 08/09/2020 12h50, última modificação 08/09/2020 12h50
Brasil - Ambos candidatos têm visões distintas em relação a função dos acordos comerciais, política externa e meio ambiente; entenda
“Enquanto os EUA reforçam que são os melhores, não estão observando os movimentos da China, querendo aprender e se tornando atuante na comunidade internacional”, diz Renata Amaral, Especialista em Comércio Internacional.jpg

“Enquanto os EUA reforçam que são os melhores, não estão observando os movimentos da China, querendo aprender e se tornando atuante na comunidade internacional”, diz Renata Amaral, Especialista em Comércio Internacional pela American University Washington College of Law

Passadas as convenções dos partidos Democrata e Republicano, Joe Biden continua à frente do atual presidente, Donald Trump, nas pesquisas, mas agora a vantagem caiu para sete pontos percentuais, de acordo o jornal USA Today. Tudo indica que a eleição americana será decidida por detalhes, mas são muitos os fatores que tornam a corrida presidencial imprevisível – a pandemia, os prováveis danos econômicos resultantes do isolamento social e a crise que expôs o racismo no país representam um grande obstáculo para quem chegar à Casa Branca.  

Se vencer a eleição presidencial, o candidato democrata terá como um de seus maiores desafios a reorganização dos interesses estratégicos da política externa americana, nas variadas frentes, e se comprometeu a ressuscitar o projeto da hegemonia global americana, por meio do uso de mecanismos multilaterais. Mas, para concretizar o plano, Biden não terá alternativa senão desfazer a política atual e se aliar a nações estratégicas, em particular os europeus.  

Por outro lado, Donald Trump defende uma retomada via uma agenda exclusivamente protecionista. Desde o início de seu mandato, o atual presidente mudou os paradigmas da inserção internacional dos EUA, criticando a China, as regras comerciais e a própria Organização Mundial do Comércio (OMC), iniciando uma retaliação contra o sistema multilateral e se afastando de aliados tradicionais. “Com Trump, devemos continuar vendo o que vemos hoje: os Estados Unidos sozinho, uma retorica nacionalista forte e conflitos com parceiros tradicionais. Isso tudo tem um impacto, nem que seja do ponto de vista retórico, no fluxo de comércio e na importância relativa do país na comunidade internacional”, afirma Ricardo Mendes, Sócio Diretor da Prospectiva, durante nosso webinar "Trump x Biden: política externa e comércio internacional", realizado no dia 02/09. 

Segundo Diego Bonomo, Gerente Executivo de Assuntos Internacionais da CNI, pela lógica dos acordos, nenhum dos dois candidatos pode ser considerado um plenamente 'pró-livre comércio’. Mas ambos parecem ter visões distintas em relação a função dos acordos comerciais. “Trump os usa com o propósito de atender a economia doméstica e proteger empregos no país. Há uma dose grande de proteção americana dentro das estruturas dos acordos. Já o Biden me dá a impressão que vai utilizá-los também como uma ferramenta mais significativa de política externa e dar continuidade ao movimento que o Obama começou, criando parceiros sólidos na Ásia e forçando a aliança atlântica com países europeus”, opina.  

 

AMÉRICA LATINA E QUESTÕES AMBIENTAIS 

A agenda do Trump para a América Latina é definida no Sul da Flórida, diz Ricardo Mendes, e é pautada nos interesses de uma comunidade expatriada de Cuba e mais recentemente da Venezuela. Se reeleito, o republicano pretende continuar com sua política contra a imigração de pessoas vindas de países da América Central e em questões comerciais e de fronteira com o México, além focar nos governos socialistas de Cuba e Venezuela. 

Porém, o Sócio Diretor da Prospectiva enxerga uma ligeira mudança caso o atual presidente vença sem a ajuda da Flórida. “O afastamento dessa agenda pode dar espaço, especialmente depois do meio do mandato, para uma agenda mais positiva para a América Latina, como um acordo com cubanos e venezuelanos na linha do que foi feito com a Coréia do Norte”, conta.   

Já a política externa de Biden, especificamente em relação à América Latina, guarda enorme correlação com a do governo Obama. A grande prioridade será conter a imigração proveniente da América Central por meio de um plano de desenvolvimento via cooperação internacional, que aumentará a segurança e capacidade dos governos de Honduras, Nicarágua e El Salvador. “Com uma vitória do Biden, veremos mais uso de mecanismos regionais e de cooperação, além de instrumentos de financiamento para indústria americana a fim de conter a influência geopolítica da China. O democrata também dará continuidade ao diálogo com Cuba e, quem sabe, Venezuela”, sugere Ricardo Mendes.  

Os especialistas não acreditam na tese que um mandato Trump seria mais benéfico para o Brasil por causa da proximidade com a família Bolsonaro. “O pacote comercial que está em negociação vai sair tanto em um governo Trump quanto Biden”, defende Bonomo. Mas alerta: se a agenda bilateral atual for concluída e a conversa se transformar em um alavancador para um acordo de livre comércio, a questão ambiental terá um grande peso, em particular no governo Biden.  

 

A QUESTÃO CHINESA 

O conflito chinês não irá desaparecer. Independentemente do presidente eleito, afirmam os especialistas, haverá disputas econômicas, comerciais e tecnológicas entre China e Estados Unidos. Mas, com Biden, além da preocupação de enaltecer a capacidade norte-americana em se manter como a potência, há também um cuidado com temas transversais ao comércio, como regras trabalhistas, meio ambiente e direitos humanos. A solução encontrada pelo democrata para diminuir o poder da China e reduzir a dependência dos chineses é focar em outros mercados asiáticos. 

Mas, com Trump, o cenário se torna ainda mais incerto. “Não está claro nem mesmo para Trump o que ele quer fazer com a China”, provoca Renata Amaral, Especialista em Comércio Internacional pela American University Washington College of Law. De acordo com ela, o desejo do atual presidente americano é modificar o sistema político e econômico chinês – o que é inviável. “Enquanto os EUA reforçam que são os melhores, não estão observando os movimentos da China, querendo aprender e se tornando atuante na comunidade internacional”, diz. 

 

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