Exportadores de manufaturados são os mais atingidos por carga tributária cumulativa

por andre_inohara — publicado 30/05/2011 11h13, última modificação 30/05/2011 11h13
André Inohara
São Paulo – Soluções passam por reduzir peso ou quantidade de impostos, e diminuir burocracia na cobrança e fiscalização, avalia Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior.
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As dificuldades enfrentadas pela cadeia exportadora brasileira foram discutidas durante o Café de Comércio Exterior realizado na Amcham-São Paulo na última quinta-feira (26/05), com moderação de Welber Barral, presidente do Comitê de Comércio Exterior da Amcham e ex-secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).

No encontro, presidentes de empresas da cadeia de comércio exterior expuseram suas opiniões sobre as barreiras ao comércio internacional.

Barral disse que, embora o aumento do volume de comércio exterior tenha crescido nos últimos anos, poucas iniciativas em infraestrutura logística e simplificação tributária foram adotadas para eliminar as restrições às trocas internacionais brasileiras. Para ele, a complexidade dos impostos - que se acumulam ao longo da cadeia produtiva - impacta sobretudo a indústria de manufaturados.

Veja a entrevista de Barral ao site da Amcham:

Amcham: A pesquisa Amcham divulgada no café indicou que os empresários de comércio exterior estão mais preocupados com os gargalos logísticos do que com o câmbio. O que explica essa mudança de prioridades?

Welber Barral: Existem problemas que se agravaram nos últimos anos, como a valorização do câmbio e as limitações de infraestrutura logística. O fato de o comércio exterior ter aumentado com a mesma infraestrutura provoca ainda mais gargalos, e essa preocupação se refletiu na pesquisa. O operador de comércio exterior está muito preocupado com os custos decorrentes da falta de investimento em infraestrutura, por isso está voltando sua atenção a como aumentar sua eficiência operacional. O controle dos custos de produção e transporte, por exemplo, é muito importante. A questão cambial ter recebido menos reclamações na sondagem em relação ao ano passado provavelmente se deve a uma acomodação sobre um determinado nível de câmbio.

Amcham: O Brasil é um grande exportador de commodities. Como se pode incentivar a maior exportação de produtos e serviços acabados?

Welber Barral: As empresas têm de criar produtos e serviços diferenciados para conquistar mercados no comércio exterior. Um setor muito interessante é o de Tecnologia de Informação (TI). Se não fossem os custos elevados de mão de obra, teríamos um grande poder de expansão desse segmento.

Amcham: E como os gargalos estruturais da economia brasileira afetam as empresas de produtos e serviços de maior valor agregado?

Welber Barral: O sistema tributário brasileiro é punitivo para os exportadores e, principalmente, para a indústria de manufaturados. Produtos e serviços de valor agregado acabam sendo afetados pela alta incidência de impostos que se acumulam ao longo da cadeia. Isso não ocorre com os produtos básicos, as commodities. Uma solução é diminuir a carga tributária, que é a mais difícil. Outra saída é reduzir o número de impostos que geram muitos custos para as empresas. A terceira questão é a forma burocrática como os impostos são cobrados e fiscalizados. As empresas brasileiras gastam milhares de horas por ano só para conseguir pagar os impostos.

Amcham: Qual a influência do câmbio nas exportações brasileiras?

Welber Barral: O câmbio valorizado é ruim para todos os setores. É o caso da indústria de manufaturados, que tem o preço do produto final afetado não só pelo câmbio, mas também devido ao elevado custo de mão de obra.

Amcham: Que reflexos os gargalos estruturais podem trazer à economia brasileira?

Welber Barral: As empresas muito consolidadas no Brasil podem acabar indo para o mercado internacional como forma de aumentar a escala de produção e o alcance de consumidores. Evidentemente, tem havido saída de empresas que preferem produzir lá fora porque têm um custo operacional muito alto, deixando no Brasil apenas uma estrutura de distribuição.

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