Iedi: Medidas de incentivo à competitividade devem levar de três a quatro anos para surtir efeito

por andre_inohara — publicado 24/10/2012 17h24, última modificação 24/10/2012 17h24
São Paulo – Diretor do instituto acredita que desoneração tributária e política de conteúdo nacional em compras governamentais vão ajudar a reduzir custos estruturais da economia brasileira até 2016.
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À medida que as políticas para acelerar a competitividade industrial brasileira anunciadas nos últimos meses começarem a surtir efeito, devem contribuir para baixar a carga tributária e ampliar produtividade, atacando os principais custos estruturais com que as empresas têm que arcar. Mas os resultados só devem ser visíveis após alguns anos, estima Júlio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Economica do Ministério da Fazenda e assessor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

“Nossa competitividade ainda está muito baixa, e vamos ter uns três ou quatro para nos readaptar ao processo [de redução dos custos estruturais da economia] e para que a indústria também faça seu dever de casa e aumente a produtividade”, disse Almeida, durante o comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (24/10).

De imediato, as desonerações tributárias no setor produtivo que estavam previstas no Plano Brasil Maior, lançado pelo governo em agosto de 2011, já estão contribuído para baixar custos em alguns segmentos da indústria. E as últimas medidas anunciadas, como o programa de concessão de rodovias e ferrovias e o pacote de redução da tarifa de energia, deverão vigorar a partir de 2013.

A primeira versão do plano trazia foco em medidas de estímulo a investimento e inovação, comércio exterior e defesa da indústria e do mercado interno. Em abril, o governo estendeu medidas de desoneração a diversos segmentos da economia e criou um novo regime automotivo para incentivar as vendas de uma indústria que influencia várias outras.

Segundo Almeida, o Plano Brasil Maior está “na direção correta”, mas precisa ser mais abrangente. “Embora haja alguns setores saudáveis, a crise na indústria é generalizada”, argumenta o diretor do Iedi.

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Almeida disse que a indústria nacional de transformação foi um dos setores que mais perderam participação na economia após a crise financeira global de 2008. Na comparação entre o terceiro trimestre de 2012 e o de 2008, o setor encolheu 6%.

Um dos méritos do Programa Brasil Maior é definir que parte das compras governamentais tem que ser de bens nacionais, considera o representante do Iedi. “Até os Estados Unidos fazem isso. Se esse incentivo for usado com a devida competência, não prejudica ninguém”, defende.

Produção versus vendas

Na visão de Almeida, o Brasil precisava de medidas para incentivar a indústria, pois o desequilíbrio entre produção e vendas no mercado doméstico só tem aumentado.

Citando estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ele mostrou que a produção industrial sofreu uma queda durante os meses mais agudos da crise de 2008, voltando a se recuperar depois, e manteve, em 2011, os mesmos níveis pré-crise.

Por outro lado, o volume de vendas no varejo tem subido em ritmo crescente desde 2008. A lacuna crescente entre produção e vendas está sendo compensada com artigos do exterior.

“O importado está preenchendo um espaço que poderia ser do produto nacional. Ninguém é contra as importações, mas a diferença entre o ritmo de vendas e o de produção no Brasil é prejudicial à nossa economia”, ressalta Almeida.

Mas, se o desempenho brasileiro em bens acabados tem sido limitado, a situação se inverte quando se fala em commodities. “O que salva a balança comercial brasileira são esses produtos. É o que dá equilíbrio às nossas contas”, explica.

Para Almeida, depois da crise, a economia brasileira sofreu um choque de realidade. Havia – e há – mercado consumidor, mas a produção de bens e serviços é prejudicada pelos custos estruturais. “Podemos ser competitivos em qualquer setor, desde que o custo tributário e sistêmico (infraestrutura ineficiente e excesso de burocracia) seja menor”, acredita.

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Indústria têxtil em busca de mais agilidade

O setor têxtil brasileiro é um dos maiores do mundo e, mesmo pressionado pela concorrência externa – sobretudo a chinesa –, teria melhores condições de competir se o ambiente de negócios fosse mais favorável.

“Todos os dias decretam a morte de nosso setor. Ouço muito que nossa indústria ficou no passado”, brinca Fernando Pimentel, diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit). “A indústria têxtil é do presente e do futuro, desde que haja condições de competir”, acrescenta ele.

Pimentel disse que a indústria têxtil brasileira de vestuário é a quarta maior do mundo, atrás de China, Índia e Estados Unidos. “Em têxteis, somos a quinta maior, mas em nenhum outro país do Ocidente há uma indústria tão integrada da matéria-prima ao produto final como a nossa”, ressalta.

As medidas de incentivo produtivo do governo são bem vindas, mas Pimentel alerta que o descompasso entre produção e vendas em seu setor pode “nos arruinar em termos industriais”. “A cada dia, alguém incorpora – de forma legítima – produtos importados ao seu portfólio para sobreviver no negócio”, aponta o executivo da Abit, que também fez questão de frisar que não é contra as importações.

O reforço na defesa comercial, que diminui os prazos de processos antidumping, foi importante para o setor. Mas, para que recupere a competitividade, é preciso garantir que o câmbio oscile em um patamar que atraia exportadores e que os investimentos em inovação sejam mantidos.

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