Novo cônsul geral dos EUA em São Paulo diz que Brasil já é país do futuro e estima que vistos emitidos em 2012 cheguem a 1,2 milhão

por andre_inohara — publicado 28/08/2012 16h25, última modificação 28/08/2012 16h25
São Paulo – Dennis Hankins retorna ao Brasil para assumir consulado americano em São Paulo. Veja entrevista.
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De volta ao Brasil para ser o titular do Consulado Geral dos Estados Unidos em São Paulo, o diplomata americano Dennis Hankins se disse impressionado com a mudança da economia nacional, que se tornou umas das mais dinâmicas do mundo no intervalo entre a década de 1980, quando atuou no País pela primeira vez, e agora.

“Vista de longe, a mudança é tão impressionante que, mesmo com problemas, a maioria dos países reza para ter a situação macroeconômica do Brasil. Os desafios de hoje [no País] são os do sucesso e como continuar com ele”, avalia o diplomata.

Para ele, o crescimento brasileiro se evidencia também na emissão de vistos de turismo aos EUA, que deve chegar a 1,2 milhão até o final de 2012, superando os 945 mil de 2011.

Na década de 1980, quando o diplomata serviu como vice-cônsul americano em Recife, encontrou um País que começava a se redemocratizar, mas sofria com a alta taxa de desemprego e a hiperinflação.

“Agora, o Brasil tem reputação como líder mundial; porém, naquela época, era considerado o país do futuro, e sempre o seria. Hoje o Brasil já é o país do futuro, e a ideia de que isso nunca chegaria encontrou um ponto final”, acrescenta Hankins, que fez sua primeira visita à Amcham-São Paulo nesta terça-feira (28/08).

Para o novo cônsul, a relação bilateral Brasil-EUA atingiu um nível de maturidade similar à que seu país mantém com nações europeias e asiáticas e se estende a diversos temas além do comércio, o que fez com que o leque de diálogo em assuntos internacionais se ampliasse.

Um exemplo de colaboração Brasil-EUA mencionado por Hankins são as parcerias em inovação, com o aumento de pesquisadores brasileiros em centros de pesquisa de empresas americanas instaladas no Brasil.

Entre os objetivos do diplomata para sua gestão, está manter a interlocução entre a iniciativa privada brasileira – sobretudo a paulista – e o governo americano, além de apoiar iniciativas socioambientais.

No que se refere ao turismo, Hankins disse que os EUA continuarão trabalhando para facilitar a entrada de visitantes brasileiros.

Leia abaixo a entrevista de Hankins ao site da Amcham:

Amcham: O sr. já esteve no Brasil atuando como vice-cônsul no Recife em 1985. Que lembranças conserva desse período, e que País espera encontrar agora?

Dennis Hankins: Para mim, essa ausência de 27 anos foi muito útil. Quando cheguei em 1985, a taxa de inflação era de mais de 1000% e o desemprego alto. Meu desembarque se deu no mesmo dia em que morreu o [presidente] Tancredo Neves [21/04/85], o que é um ponto de referência na história do Brasil. Agora, o Brasil tem reputação como líder mundial, mas, naquela época, era considerado o país do futuro, e sempre o seria. Hoje o Brasil já é o país do futuro, e essa ideia de que isso nunca chegaria encontrou um ponto final. É claro que existem desafios agora, como o de continuar fazendo a economia crescer. Vista de longe, a mudança é tão impressionante que, mesmo com problemas, a maioria dos países reza para ter a situação macroeconômica do Brasil. Os desafios de hoje [do País] são os do sucesso e de como continuar com ele.

Amcham: Como o sr. pretende trabalhar para estreitar as relações entre o Brasil e os EUA?

Dennis Hankins: A representação dos EUA é baseada em nossa embaixada em Brasília, que trata de intercâmbios com o governo brasileiro, mas também temos os consulados. Nosso papel em São Paulo está ligado a serviços consulares para a comunidade americana e também a brasileira. Isso foi foco de investimentos no ano passado, que agora podemos dizer que foram um sucesso.

Amcham: Quais foram os resultados mais significativos desses investimentos?

Dennis Hankins: Antes, tínhamos uma demora de cinco meses para agendar a entrevista de concessão de visto, e agora somente dois dias. Isso foi um investimento, somado ao planejamento de abrir mais dois consulados em Porto Alegre e Belo Horizonte, baseado na procura do visto americano pela comunidade brasileira, o que é um sinal do sucesso econômico do Brasil. Mas é claro que as relações econômicas com o Brasil são importantes para os Estados Unidos e, como São Paulo é foco da economia brasileira, esse relacionamento é, provavelmente, o mais importante para o consulado dos EUA em termos políticos.

Amcham: Em relação aos negócios bilaterais, como o sr. pretende fomentar mais essa relação?

Dennis Hankins: A Amcham é um parceiro importante nessa relação entre empresas americanas e brasileiras. Essa cooperação facilita a entrada de empresas americanas na economia brasileira porque, no contexto de diálogo com o governo brasileiro, é importante que os EUA saibam da posição industrial e financeira do Brasil sob o aspecto privado. Muitas ideias, preocupações e iniciativas do setor privado vêm de São Paulo, então nosso foco é comunicar nossa embaixada em Brasília e também Washington sobre as ideias e preocupações dessa comunidade. Fora das questões comerciais, temos ampla cooperação com o Brasil. Nossa relação já é bem adulta, como a com os países europeus e asiáticos. Quase todos os assuntos internacionais são base de conversa entre nós e, para o consulado, temos de analisar como podemos ajudar nesse sentido. A maioria dessas conversas é com o governo, mas também envolve a sociedade civil, políticos e regiões do Brasil. Sempre precisamos ver como podemos ajudar nesses diálogos entre os brasileiros e os EUA.

Amcham: A secretária de Segurança Interna dos EUA, Janet Napolitano, esteve no Brasil em julho para dar prosseguimento à agenda de trabalho rumo à facilitação de entrada de turistas brasileiros nos EUA, assim como tratar de assuntos de segurança e logística. O que podemos esperar na facilitação de vistos para turistas brasileiros?

Dennis Hankins: Em longo prazo, podemos imaginar que a necessidade de visto possa ser eliminada algum dia. Isso não é para os próximos dois anos, mas os investimentos do governo americano de facilitar o sistema (de concessão de vistos) têm sido um sucesso. É claro que um brasileiro que quiser passar as férias nos EUA terá que fazer uma escolha, porque certos países não exigem visto de entrada. Para nós, ele é necessário. Temos um diálogo com o governo brasileiro nesse sentido que envolve uma combinação de fatores que não apenas a taxa de aprovação de visto (em São Paulo, a média é de 95%). Há questões técnicas de passaporte, controle de fronteira e legislação.

Amcham: Qual a estimativa de emissão de vistos para este ano?

Dennis Hankins: Como já emitimos 1 milhão de vistos em todo Brasil até agora, pode-se pensar em um total de 1,25 milhão até o final do ano [em 2011, foram 945 mil]. No consulado de São Paulo, creio que esse número deva ficar entre 600 mil e 650 mil. São estimativas.

Amcham: Há algum investimento previsto em ampliação do atendimento?

Dennis Hankins: Agora, temos capacidade de até 3,5 mil entrevistas diárias no consulado em São Paulo e estamos programando um aumento para 6 mil diárias. Os consulados que vamos abrir em Porto Alegre e Belo Horizonte em 2013 vão criar mais opções. Também planejamos aumentar o consulado em Recife para aumentar essa capacidade. A demora na concessão de vistos virou história. Se essa procura continuar no ritmo de aumento de 20% ao ano, teremos que imaginar como poderemos enfrentar essa procura daqui a cinco anos – talvez com uma mudança de lei ou mais investimentos.

Amcham: O Brasil precisa ampliar sua estrutura logística nos próximos anos, e para isso necessita de muitos investimentos. Como o sr. tem visto o interesse das empresas americanas em participar desses projetos no Brasil? Quais deles chamam mais a atenção do empresariado americano?

Dennis Hankins: O interesse é imenso. Já existem delegações de negócios dos EUA que vêm todos os dias, organizadas pelo governo americano, e também há empresas que vêm diretamente para cá. A ideia de abrir o setor de transporte, rodovias e aeroportos para participação privada já desperta o interesse de parte da indústria americana. Para mim, também foi muito interessante e surpreendente, em visita a empresas americanas aqui que têm boa cooperação com o Brasil, observar o nível de pesquisa conjunta delas com o Brasil. Já existem empresas americanas com centros de inovação no Brasil que possuem peritos brasileiros. Isso faz crescer o nível da ciência e tecnologia no Brasil, o que também é bom para nós.

Amcham: O programa Ciência sem Fronteiras, do governo brasileiro, tem sido considerado um importante incentivo ao desenvolvimento da inovação no Brasil. A Amcham tem apoiado essa iniciativa, ajudando os bolsistas a encontrarem estágio no exterior. Em sua opinião, o que pode ser feito a mais para incentivar a busca de conhecimento?

Dennis Hankins: Para nós, é muito interessante ter esse movimento de os brasileiros conhecerem os EUA, nossa sociedade e forma de trabalho. Entendo que é mais uma iniciativa do governo brasileiro de continuar a acelerar o crescimento econômico do Brasil. Vocês já têm pleno emprego, a taxa de desemprego é de 6% e continuar crescendo não depende apenas de criar empregos. É preciso mais eficiência em termos de tecnologia e produção. Essa iniciativa de aumentar o nível de conhecimento de tecnologia através da experiência dos EUA, Europa e outros países faz todo sentido em termos de expansão futura do Brasil.

Amcham: Na próxima semana, teremos a visita do subscretário de Comércio Exterior dos EUA, Francisco Sanchez, ao Brasil, com passagem pela Amcham-São Paulo. O que podemos esperar dessa visita?

Dennis Hankins: A visita também tem o aspecto de intercâmbio educacional, não somente no âmbito do Ciência sem Fronteiras, mas com universidades e transferência de conhecimento entre os dois países. É fato que já há muitos brasileiros nos EUA e o interessante não é só o intercâmbio social, mas há os termos econômicos. É fato que eles [os estudantes brasileiros] também gastam e pagam para estudar, o que é importante para nós. É importante para o governo americano que a relação com o Brasil seja ampla o suficiente, que o papel do governo americano seja o de fazer as intervenções iniciais e, depois, que uma universidade brasileira possa trabalhar com uma americana sem que haja intermédio dos governos. A mesma coisa pode ser feita com companhias. Se houver boa relação, não é preciso os governos. Mas isso é um aspecto das relações comerciais, cujas companhias precisam de gente bem formada. A relação com as universidades americanas pode ajudar nesse sentido.

 

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