Para cadeia de comércio exterior, gargalo da infraestrutura passa a preocupar mais que câmbio

por daniela publicado 26/05/2011 16h19, última modificação 26/05/2011 16h19
Daniela Rocha e André Inohara
São Paulo - Falta de investimentos em modais de transporte amplia custos das empresas, segundo especialistas que participaram do Café de Comércio Exterior da Amcham.
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As deficiências de infraestrutura e a consequente elevação dos custos logísticos no País passaram a preocupar mais do que o câmbio a partir deste ano, na visão da empresas da cadeia de comércio exterior, composta por empresas exportadoras e importadoras ou que são impactadas indiretamente por essas operações, como prestadoras de serviços, escritórios de advocacia e consultorias.

Em pesquisa realizada pela Amcham e divulgada nesta quinta-feira (26/05) no Café de Comércio Exterior, na sede da entidade em São Paulo, o câmbio foi indicado como o sexto fator limitador do comércio exterior, conforme a percepção de apenas 5% dos 103 entrevistados, ao passo que a infraestrutura e o alto custo logístico foram apontados por 24%.

“O câmbio teve um número inexpressivo de votos na pesquisa. O real valorizado não deixa de ser um problema, mas houve acomodação sobre esse assunto. Aumentaram os votos sobre o impacto negativo ligado à sobrecarga da infraestrutura, principalmente porque falta solução no curto prazo”, destacou Welber Barral, presidente do comitê de Comércio Exterior da Amcham e consultor na área.

Na avaliação de Hermeto Alcides Bermúdez, CEO da Tito Global Trade Services, empresa que realiza gerenciamento de transporte, documentação e processos alfandegários, o câmbio é um dado macroeconômico muito difícil de ser alterado e nem mesmo o Ministério da Fazenda tem sabido como lidar com a alta do real. “Acredito que a questão do câmbio não apareceu muito no levantamento porque o real está em patamar elevado, mas, de certa forma, estável. Câmbio ruim para operação de comércio internacional é câmbio instável. Hoje, sobressaem-se outras questões para a redução do custo que comprometem a produtividade, como a melhoria da infraestrutura”, apontou. 

Bermúdez ainda fez críticas à elevada carga tributária, ressaltando a grande incidência de impostos nos produtos que são exportados, sem que haja devolução dos créditos em tempo reduzido. Nessa linha, Antônio Pargana, presidente da Cisa Trading, defendeu uma reforma tributária com viés na ampliação da competitividade do País, embora, na percepção geral dos especialistas que participaram do evento da Amcham, não esteja prevista uma mudança ampla no curto prazo.  

No setor de serviços de Tecnologia da Informação (TI), por não sofrer com o gargalo de infraestrutura de transportes, os problemas com o câmbio e a falta de mão de obra qualificada no País são os que ficam mais em evidência, enfatizou César Gon, CEO da Ci&T. “O dólar é uma barreira porque grandes competidores estão baseados em países como a Índia, que tem mais engenheiros e uma relação de custo total do emprego melhor do que o Brasil.” Segundo ele, a infraestrutura de telecomunicações no Brasil é cara, mas eficiente, e não compromete tanto. 

Infraestrutura em xeque

Em 2010, os portos brasileiros movimentaram cinco milhões de contêineres, número que deverá ser superado neste ano, segundo Julian Thomas, presidente da Hamburg Sud, transportadora marítima. “Vivemos o preço do sucesso. Ninguém tem saudade de 2009, o ano da crise financeira internacional. Hoje, volume de contêineres no País ultrapassou o registrado em 2008”, comentou.

O fato de o ritmo de crescimento das importações ser maior do que o das exportações significa um fator de estresse adicional a toda a logística de transportes. De acordo com Thomas, as cargas que vêm de fora demoram mais para ser desamarradas pelas autoridades; por isso, ficam muito tempo ocupando espaço e causando filas de navios.

O presidente da Hamburg Sud elencou algumas medidas de médio prazo para diminuir o tempo de permanência das cargas nos portos, entre elas a melhora de processos das autoridades de governo, com separação do fluxo documental e físico, e a ampliação do programa Porto sem Papel da Secretaria Especial de Portos, um portal único eletrônico acessado pelos seis órgãos envolvidos - Receita Federal, Polícia Federal, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério de Agricultura e Abastecimento, Marinha e Autoridade Portuária. Além disso, o executivo defendeu que o funcionamento dos portos passe a ser de 24 horas/ dia.

O presidente da Cargill, Marcelo Martins, comentou que o Brasil está diante de uma janela de oportunidade para se tornar um abastecedor de alimentos do mundo, mas enfrenta sérias distorções na logística de transportes. “Em alimentos, o País tem elevada produtividade até a porteira das fazendas, principalmente por conta do clima e do solo. A partir daí, passa a perder essa vantagem até chegar nos portos”, afirmou.

Martins citou o exemplo dos três maiores produtores de soja do mundo. Argentina e Estados Unidos utilizam os modais de forma mais otimizada. As companhias argentinas percorrem em média 200 quilômetros até embarcar os grãos e derivados e, nesse caso, como os trechos são pequenos, 84% delas usam o modal rodoviário. Nos EUA, são mil quilômetros percorridos internamente; entretanto, 61% das empresas usam as hidrovias, que é o meio mais barato, seguido por ferrovias (23%) e rodovias (16%). Já no Brasil, as distâncias entre as fazendas e os portos também são de mil quilômetros, mas o modal rodoviário, o mais caro, é usado por 60%, seguido pelo ferroviário (33%) e pelo hidroviário (7%). “Há uma clara inversão da matriz de modais em termos de competitividade, o que precisa mudar”, disse.

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