Relacionamento do Brasil com os EUA melhora no governo Dilma, diz embaixador Rubens Ricupero

por andre_inohara — publicado 10/04/2012 13h43, última modificação 10/04/2012 13h43
São Paulo – Embaixador nos EUA entre 1991 e 1993, Ricupero vê na inovação e na educação as mais frutíferas áreas para parceria entre os dois países.
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A principal mudança da política externa brasileira está focada em melhorar as relações do País com os Estados Unidos, maior economia do mundo e principal parceiro comercial do Brasil. A avaliação do diplomata Rubens Ricupero, que foi embaixador nos Estados Unidos entre 1991 e 1993, é de que há uma clara reaproximação entre os dois gigantes das Américas.

“A principal mudança da política externa da atual presidente tem sido a melhoria do relacionamento com os EUA”, destacou, em entrevista ao site da Amcham. “No governo anterior [do presidente Luiz Inácio Lula da Silva], as relações [com os EUA] não eram das melhores”, afirma. As polêmicas giravam em torno das posições da política externa brasileira em relação à proximidade com países do Oriente Médio, com o Irã e com governos latino-americanos como o do venezuelano Hugo Chávez, crítico dos EUA.

Para o embaixador, faltava uma oportunidade para os dois países se reaproximarem. “Houve um momento positivo, durante a visita do presidente George W. Bush ao Brasil e depois com a ida do presidente Lula aos EUA, mas, ao final, essa melhoria não se manteve”, lembra.

“A tentativa de obter um acordo sobre o enriquecimento de urânio com o Irã, por exemplo, embora bem intencionada, foi mal conduzida e acabou deixando ressentimento. Ao final de seu governo, o próprio presidente Lula fez várias observações negativas sobre a secretaria de Estado Hillary Clinton e sobre o presidente [Barack] Obama.”

Comércio em alta

Na avaliação de Ricupero, o comércio bilateral e os projetos de intercâmbio educacional e tecnológico são o impulso que faltava. “Essa oportunidade [da visita da presidente Dilma Rousseff a Washington] ocorre em um bom momento, em que a situação americana vem dando sinais positivos de recuperação econômica”, destaca.

Nos primeiros dois meses deste ano, as exportações brasileiras para os EUA melhoraram. Pelos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, os EUA voltaram a ser, em janeiro deste ano, o maior comprador dos produtos brasileiros após quase três anos de liderança chinesa.

“Houve gestos dos dois lados como, por exemplo, as medidas que abrandaram os problemas do contencioso comercial da questão do etanol, do suco de laranja, do acordo sobre o algodão”, analisa, referindo-se ao fim dos subsídios e outras barreiras à entrada de produtos brasileiros no mercado americano.

“E houve também esse gesto de flexibilizar os requisitos para vistos de turistas brasileiros. Só nos primeiros meses deste ano, o numero de brasileiros que recebeu visto de entrada para os EUA, aumentou mais de 60%, com mais de 100 mil brasileiros. Esse dado fala por si.”

Crise interna

Na época em que esteve em Washington, Ricupero diz que o Brasil “estava mal”. “Foi o período tanto do agravamento da hiperinflação como o período do impeachment do presidente [Fernando] Collor [1990-1992]. O Brasil tinha poucas condições de aproveitar de uma colaboração com os EUA”, lembra.

A prioridade da política brasileira estava dentro do próprio país, e os desafios iam desde a estabilização da moeda até a resolução da crise política que havia se instalado. “Na época, a tarefa era mais de redução dos danos. A crise brasileira era muito grave, tanto que provocou a saída de um presidente”, ressalta. “Naquele tempo, a percepção que os EUA tinham do Brasil era de um país altamente problemático. O País era considerado pior do que o Chile, o México, a Argentina. Havia uma visão de um país retardatário.”

“Hoje esses problemas desapareceram. O Brasil tem condições muito mais fortes, principalmente porque não precisa mais de ajuda em questões econômicas”, explica Ricupero. “Os EUA reconhecem o avanço da economia brasileira.”

Para o embaixador, o interesse de brasileiros em viajar para os EUA, “ainda que seja por turismo ou para fazer compras, é um fator importante que mostra o apreço e o interesse que existe pelas coisas americanas”.

Educação em alta

A questão de inovação e educação com concessão de bolsas é o caminho de parceria mais frutífera para o Brasil, anota Ricupero. “Eu vejo o maior futuro desse relacionamento, porque o Brasil tem aí nesse setor [educação e inovação] um ponto débil. A própria presidente tem consciência disso”, enfatiza.

“Há um espaço enorme de crescimento, não só nas bolsas diretas, mas nessa tendência mais recente de parcerias com universidades americanas que cada vez mais estão presentes aqui, e possibilidade de parcerias com laboratórios e pesquisas”, afirma. “O Brasil tem de 10 mil a 12 mil estudantes no exterior. Isso é pouco se comparado aos mais de 75 mil da China, ou aos 60 mil para a Índia.”

Um acordo com 14 faculdades americanas foi fechado nesta segunda-feira (09/04), durante a visita de Dilma à Casa branca, em Washington. As parcerias fazem parte do programa Ciência Sem Fronteiras, que pretende conceder ao menos 100 mil bolsas de estudo de graduação e de pós para brasileiros. Em torno de 20% das oportunidades são para pesquisa e estudos em escolas americanas.

“Esse tipo de acordo pode ser facilitado pelos governos, mas que terá que se concretizar, sobretudo, entre universidades e no setor privado”, reflete o diplomata. “Nos EUA, o governo interfere relativamente pouco nessa área. Mas ele pode ajudar algumas instituições como academias de ciências e universidades americanas, instituições de amparo à pesquisa como a nossa Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior] e outros, isso eu acho que poderia dar um enorme impulso à colaboração.”

Ele enfatiza que a educação e o estímulo à pesquisa são as melhores formas de tornar uma economia competitiva. Segundo Ricupero, há necessidade de pesquisa desde elementos específicos e técnicos do mercado de serviços na área de petróleo e gás, ainda dependente de empresas estrangeiras, como no amplo agronegócio. 

“No caso das universidades, eu estou convencido de que se poderia ampliar muito mais o número de pessoas que poderiam estudar nos EUA se do lado brasileiros fossem simplificadas as exigências burocráticas para reconhecer cursos”, critica. “Uma pessoa que decida fazer um curso inteiro universitário nos EUA, do nível de graduação, terá dificuldades gigantescas para conseguir a equiparação. Isso é muito grave.”

O impasse impede que muitos estudantes que poderiam estudar fora e teriam recursos próprios para se bancar fiquem no País devido á insegurança jurídica e educacional envolvendo os currículos do ensino superior. “Seria mais fácil ter cursos de universidades americanas aqui, não cursos que viessem competir inteiramente com universidades brasileiras, mas que fossem feitos na base da colaboração entre universidades.”

Em uma frase: “o Brasil tem que simplificar seu sistema de ensino”, diz ele, para permitir maior cooperação além da simples concessão de bolsas. “Quem já teve que ir atrás de reconhecimento de diplomas sabe que de fato esse é um verdadeiro pesadelo.”

Competitividade

Ricupero desconversa quando o assunto é o avanço internacional do Brasil. “Ser a sexta economia do mundo não significa muita coisa, principalmente porque temos uma população enorme. Para ter uma visão significativa basta olhar a renda per capita e a produtividade. Nisso nós estamos muito atrasados”, critica.

Para ele, o Brasil tem que buscar “o que falta”. Entenda-se melhor produtividade e maior competitividade de seu mercado interno. “O custo de produzir no País é alto. O Brasil tem um problema parecido com o que os EUA tinham antes da crise: tem um consumo muito alto, e isso conduz a economia; mas ao mesmo tempo a poupança e o investimento são baixos.”

O especialista exemplifica o caso com o etanol. “No caso do etanol, eu não vejo muitas perspectivas no curto prazo, porque o Brasil não tem tido excedentes de exportação, ao contrário, tem até importado etanol dos EUA.” Para ele, o Brasil lutou pelo fim dos subsídios, mas investiu pouco para ampliar sua produção e atender a demanda interna.

“Os nossos avanços ainda estão longe de estar consolidados”, destaca. “Há ainda muitos problemas, como se viu recentemente com a questão da indústria, que ainda não estão resolvidos.”

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