Valor Econômico: EUA voltam a liderar compra de manufatura brasileira

publicado 24/10/2014 10h52, última modificação 24/10/2014 10h52
São Paulo – Diretora de Relações Governamentais da Amcham afirma que a tendência é que as exportações cresçam ainda mais
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Matéria do jornal Valor Econômico na sexta-feira (24/10) destaca a retomada dos Estados Unidos ao posto de principal comprador de manufatura brasileira.

A Diretora de Relações Governamentais da Amcham, Michelle Shayo,  afirma que a tendência é que as exportações cresçam ainda mais.

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EUA voltam a liderar compra de manufatura brasileira

Por Lucas Marchesini e Lorenna Rodrigues | De Brasília

Depois de cinco anos ocupando a vice-liderança, os Estados Unidos voltaram a ser o principal destino das manufaturas brasileiras no segundo semestre. A recuperação da economia americana ajudou, mas o fator decisivo para o novo cenário foi a crise da Argentina, que reduziu drasticamente importações, afetando bastante as exportações brasileiras de manufaturados.

Em setembro, as vendas de manufaturados caíram 7,59% em relação ao mesmo mês de 2013, em grande parte devido à queda nas compras argentinas. A Argentina era o principal destino de produtos industrializados do Brasil desde 2009,

Levantamento do Valor PRO, serviço de informação em tempo real do Valor, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, mostra que, até julho, as vendas de manufaturados para a Argentina ainda eram maiores que para os EUA, somando US$ 7,816 bilhões, contra US$ 7,805 bilhões dos EUA. Em agosto, a relação se inverteu, com os EUA absorvendo US$ 8,909 bilhões nos oito meses e a Argentina, US$ 8,862 bilhões

A diferença aumentou em setembro, segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Nos nove meses, as vendas de manufaturados para os EUA chegaram a US$ 9,990 bilhões ante US$ 9,804 bilhões para a Argentina. Como a exportação total de manufaturados brasileiros foi de US$ 60,480 bilhões no período, a participação americana chegou a 16,5% e argentina, 16,2%.

"A evolução é explicada por fatores domésticos. No fim de 2011, a Argentina intensificou as restrições às importações, procurando frear a perda de reservas. De outro lado, o ritmo da atividade econômica também começou a desacelerar" apontou a economista da Funcex, Daiane Santos. Para ela, esse cenário só deve mudar em 2016, após a eleição presidencial prevista para o ano que vem.

A venda de veículos, principal item da pauta exportadora brasileira para a Argentina, retrata o tamanho da crise. As exportações do produto foram de US$ 2 bilhões até setembro deste ano, uma redução de 42,75% ante os nove primeiros meses de 2013, quando as exportações da mesma mercadoria acumularam de US$ 3,57 bilhões. No segmento de partes e peças, a queda foi de 28,38% e, no de veículos de carga, chega a 33,8%.

O movimento encerrou o domínio argentino que vinha desde 2009, quando a crise reduziu em 42% as compras de manufaturados brasileiros por parte dos EUA, de US$ 16,321 bilhões em 2008 para US$ 9,462 bilhões no ano seguinte. A alta nas compras de produtos brasileiros, porém, ainda não foi suficiente para voltar ao patamar pré-crise. Nos últimos 12 meses encerrados em setembro, as exportações de manufaturados para os EUA somaram US$ 13,602 bilhões.

Na época, o impacto da crise foi menor na Argentina, cujas compras de industrializados brasileiros caíram 24%, de US$ 16,307 bilhões em 2008 para US$ 12,305 em 2009, colocando o sócio do Brasil no Mercosul na primeira posição.

"A tendência é que as exportações dos Estados Unidos cresçam ainda mais, eles estão em um momento exatamente oposto da Argentina, mostrando uma recuperação importante em índices como desemprego e consumo. E também devido à depreciação do real", acredita Michelle Shayo, a diretora de relações governamentais da Câmara Americana de Comércio (Amcham).

Para ela, além da recuperação geral, segmentos que não tinham tanta tradição nas exportações para os EUA estão aumentando as vendas, com o têxtil, calçados e maquinário. Pelos dados do Ministério do Desenvolvimento, houve crescimento de 13,54% na compra de geradores e motores elétricos, por exemplo.

Contribuíram ainda avanços na diplomacia entre os dois países nos últimos anos, que vão desde a assinatura de acordos para a troca de informações e a eliminação de tarifas pontuais até a resolução dos contenciosos do suco de laranja e do algodão, diz Michelle.

Mesmo com o crescimento nas exportações para os Estados Unidos, há uma diminuição no "market share" de manufaturados brasileiros nas importações americanas, aponta a Funcex. Ele foi de 0,87% em 2012 e passou para 0,8% em 2013. "A participação dos manufaturados nas importações americanas desses mesmos produtos declinou fortemente entre 2005 e 2010, passando de 1,31%. para 0,73%", disse Daiane.

Os resultados também são muito distantes dos observados antes da crise, quando a participação nesse mercado para os manufaturados brasileiros era de 1,31% em 2005, 1,24% em 2006 e 1,08% "Se esse patamar tivesse sido mantido, as exportações brasileiras de manufaturados para lá teriam sido de cerca de US$ 22,2 bilhões em vez de US$ 13,1 bilhões. Imagina o impacto positivo disso na balança do ano passado", afirma Daiane.

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