“Estamos mergulhando em uma recessão sem paralelo desde os anos 30”, diz economista Jorge Jatobá

publicado 16/12/2015 10h36, última modificação 16/12/2015 10h36
Recife - Análise faz parte de estudo da Ceplan Consultoria Econômica apresentado no Business Round Up da Amcham, nesta terça (15/12)
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“Estamos mergulhando em uma recessão sem paralelo desde os anos 30”. A afirmação do economista e sócio-diretor da Ceplan Consultoria Econômica, Jorge Jatobá, demonstra a gravidade do quadro econômico brasileiro neste final de ano. Ela foi feita nesta terça-feira (15) durante o Business Round Up da Amcham Recife, que aconteceu no Amcham Business Center, e reuniu empresários para um balanço deste ano e aponta perspectivas para o próximo. No evento, Jatobá fez a apresentação da 10ª edição da Análise Ceplan.  

O economista embasa seu comentário na terceira queda consecutiva do nosso PIB trimestral em comparação com os mesmos trimestres do ano passado. “Saímos da desaceleração para a retração de atividade”, conclui Jatobá. A redução no consumo das famílias de janeiro a setembro de 2015, em relação ao mesmo período de 2014, chega a -3%, um indicativo ainda mais preocupante quando se observa a diminuição dos investimentos (-12,7%).  A importação de bens e serviços caiu 12,4% em decorrência da menor demanda interna e as exportações. apesar da desvalorização do real enfrentam queda nos preços das principais commodities exportadas pelo país.

A crise política desencadeada com o escândalo da Operação Lava Jato e a sequência de outras denúncias de corrupção no país, agravadas pela possibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousself, atrasou ainda mais as medidas de ajuste fiscal. Além disso o realinhamento de preços relativos, a desvalorização do real e fenômenos climáticos contribuiram para a inflação de 10,48%, nos últimos 12 meses - embora, na opinião de Jorge Jatobá, ela ainda não esteja fora do controle. Mas a má condução da política fiscal aumenta a dívida bruta do setor público e seus encargos em relação ao PIB.

Os problemas internos somam-se  aos do cenário internacional, aumentando a desvalorização do Real diante do dólar que pode ser ainda mais valorizado com o aumento próximo dos juros nos Estados Unidos. No entanto, a desvalorização do Real está trazendo um efeito positivo para a balança comercial brasileira. 

Para Jorge Jatobá, outro alento é que os investimentos externos não fugiram do país. Os Investimentos Diretos no País (IDP) , medidos pelo Banco Central do Brasil, devem chegar a US$ 65 bilhões em 2015, montante suficiente para cobrir, neste ano, o déficit em transações correntes de mesmo valor. “A despeito das dificuldades o país continua atraindo substanciais montantes de capitais produtivos para a sua economia. Todavia, a crise está drenando capitais especulativos e pode - se persistir- inibir o ingresso de novos investimentos produtivos”, avalia.

Pernambuco x Brasil

 Pernambuco, Estado que vinha, há alguns anos, crescendo acima da média nacional, perdeu menos que o Brasil. No primeiro semestre de 2015, em comparação com o primeiro semestre de 2014, o PIB a preços de mercado caiu -2,1% no país e -1,1% em Pernambuco. Na Indústria, a queda nacional foi de -4,1% e a pernambucana de -2,9%. No setor Agropecuário, enquanto o Brasil cresceu 3%, o Estado registrou 7,6% de aumento.

 No contexto regional, as economias pernambucana e cearense foram mais afetadas do que a da Bahia. No segundo trimestre deste ano, em relação ao segundo trimestre de 2014, Pernambuco teve redução de -3,5% no seu PIB, o Ceará de -5,3% e a Bahia, de -1,9%. Na produção da indústria, o impacto foi menor para Pernambuco (-3,4%) do que para o Ceará (-9,4%) e a Bahia (-6,4%). No Brasil, a retração da indústria chegou a -7,8% e a do Nordeste a -4,5%.

 A repercussão da crise econômica no comércio foi ainda mais significativa. Pernambuco, Estado com forte tradição no varejo, sofreu uma queda de -8,4% no acumulado de janeiro a setembro de 2015 em comparação com o mesmo período do ano anterior. No mesmo comparativo, a queda no varejo ampliado brasileiro foi de -7,4%. Entre os Estados nordestinos, o menor índice foi o do Rio Grande do Norte (-3,6%) e o maior, o da Paraíba (-12,9%).

 O desemprego também cresceu em Pernambuco. No terceiro trimestre do ano, em comparação ao mesmo período do ano anterior, a taxa de desocupação foi de 11,2% no Estado, superando a do Brasil, de 8,9% e a do Nordeste, de 10,8%. Em outubro passado, na comparação com outubro de 2014, o estoque de emprego ficou negativo em praticamente todos os Estados do Nordeste, com exceção de Alagoas que teve um aumento de 1,0% e do Piauí, de 0,4%. No Maranhão, a situação ficou estável mas Pernambuco teve queda de -3,7%, voltando a apresentar um resultado negativo maior do que o do Nordeste (-1,3%) e o do Brasil (-2,3%). “O Nordeste responde por 21,3% da queima (saldo negativo acumulado) de postos de trabalho no país e, Pernambuco, sozinho, participa com  9%. No total da região, o Estado contribui com 40,7%”, analisa Jorge Jatobá. O fim de grandes obras no Complexo Industrial e Portuário de Suape, como a refinaria Abreu e Lima, derrubou o emprego na construção civil, justificando o resultado pernambucano que apresentou uma variação negativa de 30% no saldo de empregos acumulado até outubro.

 A 10ª Análise Ceplan conclui que apesar dos indicadores macroeconômicos comprovarem  a retração no nível da atividade econômica em 2015, em 2016 a inflação tende a cair, puxando os juros para baixo. O país pode não voltar a crescer mas o PIB deverá cair menos.

 Para os empresários, a expectativa, a curto prazo, é negativa. Os níveis de confiança medidos pela Fundação Getúlio Vargas e a Confederação Nacional da Indústria, revelam que eles esperam tempo fechado, especialmente no comércio e na indústria. Para alterar o quadro, as esperanças são de mudanças na política, com a restauração da credibilidade da Presidência. Isso irá contribuir para a recuperação dos bons fundamentos macroeconômicos do país, especialmente para um ajuste fiscal realista capaz de gerar poupança (resultados primários positivos) destinada a pagar os juros da divida pública e estabilizar a relação Dívida/PIB. A queda nos juros e a retomada de investimentos em Parcerias Público Privadas (PPPs) aliadas às reformas fiscal, trabalhista, previdenciária e tributária também estão entre as prioridades apontadas pelos agentes econômicos.