Aceleração digital, solidariedade e conexão público-privada: as lições dos EUA sobre o coronavírus

publicado 28/04/2020 11h23, última modificação 18/05/2020 10h47
Brasil – Em webinar, especialistas exploraram o que podemos aprender com os Estados Unidos para o combate à pandemia
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Paulo Sotero e Roberto Simon analisaram transformações no país que se tornou o epicentro da pandemia

Com números alarmantes de casos confirmados e óbitos causados pelo novo coronavírus, os Estados Unidos são considerados o epicentro global da pandemia. Diante do triste cenário, quais lições podemos tirar para que a situação não se repita no Brasil? No webinar 'Potências globais: EUA – impactos e aprendizados da Covid-19', transmitido na última sexta-feira (24/04), especialistas dividiram suas percepções acerca do tema. Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute no Woodrow Wilson International Center for Scholars, Washington D.C., e Roberto Simon, director for Policy and head of the Anti-Corruption Working Group na AS/COA.

“Embora a comunidade científica americana seja referência mundial, a resposta à disseminação da pandemia foi lenta e errática”, opinou Sotero. “No entanto, isso não tira o protagonismo que o país vai ter na busca da cura da doença, assim como o Brasil e a Índia, que têm muito a contribuir devido ao tamanho e eficácia das indústrias de vacina”, disse.

“Como acontece no Brasil, os governadores americanos estão mais na linha de frente na contenção do vírus, decretando o fechamento temporário do comércio entre outras medidas, enquanto o governo federal tem pensado mais na economia”, acrescentou Simon.

 

“HÁ DÉCADAS QUE NADA ACONTECE E HÁ SEMANAS QUE DÉCADAS ACONTECEM”

Na visão de Roberto Simon, a frase dita por Lênin na Revolução Russa nunca fez tanto sentido. Ele se referia à verdadeira máquina do tempo criada pela pandemia, que acelerou processos e pode mudar a ordem global. Veja alguns dos impactos:

- Aceleração digital: se antes as equipes se perguntavam como fazer mais atividades online, hoje isso é uma realidade: webinários e lives dos mais variados temas estão disponíveis diariamente na rede. Além disso, setores que não usavam muito a internet se reinventaram. “A Peloton é uma empresa que vende equipamentos de ginástica com um tablet acoplado, em que são veiculados os vídeos dos professores ensinando exercícios e tiveram uma alta nas vendas”, exemplificou Simon.

- Mundo corporativo: a transformação do modo de trabalho é inegável. Praticamente todas as empresas adotaram o modelo home office. Entretanto, para Simon, essa mudança escancara a desigualdade social. “Profissionais que não tiveram a oportunidade de ter uma formação ainda estão na rua e expostos ao vírus, como funcionários de supermercados, postos de gasolina, entre outros”, explicou.

- Nível global: os EUA continuam como a maior economia do mundo, mas têm dificuldade em puxar seus interesses para frente. A pandemia também ocasiona uma maior desigualdade entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, que têm ainda mais dificuldade em crescer.

 

O QUE ESPERAR DO FUTURO

Para Sotero, a primeira coisa que devemos pensar quando se fala em “voltar à normalidade” é que nada vai ser como antes. “As indústrias vão retomar suas atividades, mas alguns setores vão deixar de existir ou terão de se reinventar. Daqui para frente, os bens e serviços necessários serão diferentes. Haverá uma reformulação muito grande no setor de logística, por exemplo”, apontou o speaker. “Atualmente, a maior preocupação aqui nos Estados Unidos é reabrir o comércio de forma gradual e segura, para que o vírus não volte ainda mais forte, como aconteceu em Singapura”.

Entretanto, na visão do especialista, as pessoas vão estar receosas até a cura ser encontrada de fato. Para ele, a cooperação é a chave para mudarmos o placar do jogo contra a doença. “Só uma mudança comportamental vai nos fazer sair dessa. Os países vão ter que deixar as diferenças de lado e dar as mãos. O mundo vai ter que redescobrir e valorizar a solidariedade”, ressaltou Sotero.

 

CONEXÃO PÚBLICO-PRIVADA

“A capacidade e criatividade das indústrias e universidades americanas, bem como a interação entre elas, facilitam a busca de soluções efetivas para o combate à doença”, salientou Sotero. De acordo com ele, a conexão entre academia, empresariado e governo, justamente entre aqueles que pesquisam e descobrem novidades e aqueles que podem colocá-las em prática, é carente no Brasil.

Com o avanço da pandemia, empresas, instituições e até artistas e pessoas públicas se movimentaram para combater a Covid-19. “A filantropia é muito forte nos Estados Unidos. Não param de surgir exemplos, como a doação de bilhões de dólares da Fundação Gates para que, uma vez criada a vacina contra o vírus, ela seja universalizada”, destacou Simon.

Neste contexto, lançamos o movimento Soma, que pretende mobilizar o setor privado para atender as necessidades do setor público para o combate à pandemia por meio de doações e compras governamentais. Atuamos em três frentes: empresas + governo, empresas + empresas e empresas + sociedade. Clique aqui para saber mais sobre o projeto.

 

Assista abaixo alguns destaques do papo. 

 

 

O QUE SÃO OS WEBINÁRIOS?

São transmissões ao vivo de bate-papos e entrevistas, exclusivos e online, sobre diversos assuntos do mundo empresarial. Diante da atual situação com a Covid-19 no Brasil, transformamos os encontros presenciais em atividades digitais.

PARA QUEM SÃO E COMO FUNCIONAM?

Os webinários especiais sobre a Covid-19 são públicos, totalmente gratuitos e podem ser acessados aqui.