Apoiar pesquisas e formação de recursos humanos é chave para competitividade, diz presidente do CNPq

por marcel_gugoni — publicado 30/10/2012 13h03, última modificação 30/10/2012 13h03
São Paulo – Glaucius Oliva afirma que a produção científica do Brasil cresceu cerca de 18 vezes em três décadas, mas ainda é preciso unir mais empresa e universidade para transformar inovação em patentes.
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A pesquisa é essencial para inovar, e a inovação leva a uma maior competitividade. A avaliação de Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), é de que o Brasil ainda é um País jovem que tem enorme potencial para qualificar sua mão de obra e avançar nessa direção. “Apoiar pesquisas e formação de recursos humanos é a chave para a preparação do futuro da nação”, diz.

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Ele participou nesta segunda-feira (29/10) da força-tarefa Ciência Sem Fronteiras da Amcham-São Paulo para debater como a experiência internacional pode ajudar a enriquecer o conhecimento acadêmico e prático e fomentar a inovação, preparando profissionais mais capacitados para os desafios das empresas no País.

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A produção científica brasileira deu um salto nos últimos anos. “De 1981 a 2011, a ciência mundial aumentou em cerca de três vezes o número total de artigos científicos publicados em revistas indexadas e revisadas por pares internacionais. Neste mesmo período, a ciência brasileira cresceu cerca de 18 vezes”, compara.

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“A produção científica está crescendo, e o Brasil precisa inovar para ser competitivo”, afirma, ressaltando que é hora de unir mais empresa e universidade para transformar o conhecimento e a inovação em produtos, serviços e patentes. Veja abaixo os principais trechos da entrevista que o presidente do CNPq concedeu ao site, sobre as principais oportunidades do intercâmbio educacional ao País:

Amcham: Desde a criação do CNPq, o que mudou na formação de mão de obra e na qualificação de profissionais, a partir do ponto de vista de um programa como o Ciência Sem Fronteiras (CSF)?

Glaucius Oliva: Esse é um ponto importante. O Brasil é o que é hoje porque teve a capacidade de investir na formação de pessoas nos anos recentes. O CNPq foi criado em 1951, e o País sofreu uma enorme mudança desde então graças aos engenheiros, médicos, físicos, químicos e biólogos formados em instituições com o apoio de pesquisas financiadas pelo CNPq. O Brasil é muito jovem no campo das ciências. Em 1951, quando fomos criados, tínhamos poucos estudantes, faltava cultura de inovação, 85% da população estavam no campo.  Hoje temos quase 3% de todo o conhecimento do mundo sendo produzidos no Brasil, e formamos 40 mil mestres e 12 mil doutores por ano. É um enorme potencial. Apoiar pesquisas e formação de recursos humanos é a chave para a preparação do futuro da nação.

Amcham: O sr. diz que a produção de pesquisa científica no Brasil cresceu cinco vezes mais do que no mundo, mas ainda assim estamos muito atrás na criação de patentes. Por que isso ocorre?

Glaucius Oliva: O dado sobre produção científica mostra que, nos 30 anos de 1981 a 2011, a ciência mundial aumentou em cerca de três vezes o número total de artigos científicos publicados em revistas indexadas e revisadas por pares internacionais. Essa é a métrica que usamos para essa produção de conhecimento. Neste mesmo período de 30 anos, a ciência brasileira cresceu cerca de 18 vezes na mesma relação. Estamos crescendo mais do que cinco vezes a média mundial na produção de artigos científicos. A produção científica está aumentando, e o Brasil precisa inovar para ser competitivo. Quanto a patentes, é importante destacar que, ao olhar os Estados Unidos, por exemplo, de todas as patentes depositadas ano a ano no USPTO [Escritório de Patentes dos EUA], menos de 5% são depositadas por universidades e a esmagadora maioria é depositada por empresas. No Brasil, o maior depositante de patentes ainda é uma universidade, a Unicamp. Isso mostra que nosso grande desafio está em conseguir que as empresas se engajem na inovação e que tenhamos recursos humanos formados pelas universidades prontos para irem às empresas fazer inovação, porque é lá que as patentes acabam, de fato, sendo geradas porque são o local que concentra a demanda pela solução de um problema, a busca por melhorias visando à competição diante de concorrentes, a consolidação de conhecimento para agregar em um produto. As ideias continuarão sendo geradas nas universidades, assim como as inovações de produtos e processos, mas traduzir isso em algo que possa ser patenteado tem que ser feito nas empresas.

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Amcham: A maior parte dos doutores formados no Brasil ainda está nas universidades. O que as empresas precisam fazer para atrair esses doutores?

Glaucius Oliva: Isso tudo é parte de um processo histórico que incentivava o Brasil a expandir seu sistema de educação superior com qualidade, daí a demanda por doutores nas universidades. Hoje estamos em um novo momento histórico em que esses doutores que estão sendo formados devem ser estimulados a ter um emprego em uma empresa. Temos que empurrar esta questão tanto pelo lado da universidade quanto das empresas, para que essa integração seja natural. O Ciência Sem Fronteiras visa exatamente isso: expor nossos talentos a um ambiente nas universidades americanas, por exemplo, em que estes dois atores, empresa e escola, já estão intrinsecamente relacionados. Nas universidades americanas, é comum encontrar os colegas pensando em como fundar uma empresa, desenvolver um produto ou serviço inovador para ganhar dinheiro, ao mesmo tempo em que pesquisadores de empresas passeiam por laboratórios procurando por trabalhadores. Se não investirmos na capacitação das pessoas, não conseguiremos fazer do Brasil um país decididamente desenvolvido. É fundamental abrir as portas das universidades para o Brasil e para o mundo.

Amcham: Então o intercâmbio é uma experiência de inovação por si só?

Glaucius Oliva: Exatamente. E é uma ferramenta de inovação rápida. Não precisamos esperar décadas para criar esse ambiente aqui no Brasil. Ao decidir pegar um número expressivo – 100 mil – de brasileiros talentosos ligados a cursos de graduação e de pós e expor esses jovens a um ambiente em que possam aprender rapidamente como fazer e se motivarem, ao retornar esperamos que eles causem impactos de melhora na competitividade.

Amcham: Entre as áreas principais focadas pelo CSF, estão a ciências exatas, biológicas e tecnológicas. Esses são os setores inovadores por excelência?

Glaucius Oliva: Todas as áreas do conhecimento são importantes para as novas tecnologias. Quando digo ciência e tecnologia, estou pensando na química, na física, na biologia, na matemática, na computação, na engenharia, que trata de todas as variantes desde a ciência dos materiais à engenharia química, na biotecnologia, que envolve as áreas de biomedicina e inovação farmacêutica, na saúde, na agronomia. Todas essas áreas estão diretamente envolvidas [no CSF]. As áreas que não estão particularmente motivadas [no País] neste momento são as humanidades. Atualmente, mais de 50% das matriculas de graduação no Brasil estão concentrados em quatro grandes cursos: direito, administração, pedagogia e letras. Queremos dar um sinal de que precisamos de engenheiros. Em humanas, há exceções, como a área da indústria criativa, que é extremamente importante à economia mundial hoje. Ela está contemplada, com estudantes de cinema e de multimídia que têm ido ao exterior nesta área da indústria que é extremamente pujante no mundo inteiro e que, enfim, tem muita relação com inovação.

Amcham: Poderia falar mais sobre o Ciência Inovadora Brasil?

Glaucius Oliva: É um programa voltado para jovens. Ele tem várias linhas. Uma delas é a formação de mestres e doutores para a indústria. Outra é aproveitar o grande contingente de jovens pesquisadores que foram contratados recentemente nas universidades – dobramos o número de professores com doutorado nas universidades brasileiras. Os 80% que citei agora estão incorporados nas universidades, muitos deles jovens, com cinco ou seis anos de doutorado. Queremos agora pegar esses jovens e dar recursos para que façam pesquisas que sejam aplicadas e contem com parcerias, seja com empresas ou órgãos públicos. São 5000 projetos a serem apoiados nesta área, são 18 mil novas bolsas de mestrado e doutorado para que sejam dissertações e teses feitas em parceria com as empresas. Estamos desenvolvendo em parceria com a CNI um programa para trainees, ou seja, dar bolsa a jovens que estão na fase final de formação de seus cursos para que possam ir para projetos de P&D [pesquisa e desenvolvimento] nas empresas. E estamos pensando em um programa para dar bolsas para start-ups. A ideia é que, para quem está no último ano de graduação, mestrado ou doutorado e tem uma ideia na cabeça, a bolsa serve para que possa se sustentar e fazer essa ideia acontecer. Essas são algumas ideias de apoio à formação de recursos humanos. O programa deve ser lançado em breve. Estamos delineando a questão orçamentária, mas temos a expectativa de que logo no começo do ano consigamos fazê-lo acontecer.

Amcham: Qual a mensagem que fica para os empresários a partir de um programa como o CSF?

Glaucius Oliva: Vamos ser parceiros nesta iniciativa. Este programa só terá sucesso se as empresas embarcarem. O mais importante não são os recursos. Não estamos aqui pedindo dinheiro. Estamos pedindo parcerias para que as empresas possam abrir o seu espaço e expor os jovens à experiência internacional, trazendo-os de volta para que mostrem seu talento. Se forem talentosos, contratem e vamos inovar aqui no Brasil.