Após incerteza econômica, Brasil pode aprender com exemplos do passado e de outros países

publicado 01/08/2013 11h23, última modificação 01/08/2013 11h23
São Paulo – Professor da USP defende modelo de governança política, em seminário sobre impacto dos protestos na economia
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Para entender o momento atual do Brasil, é necessário ter uma perspectiva histórica e do panorama internacional. Foi o que disse o professor da USP, Jacques Marcovitch, durante o Seminário “Momento Político Atual: Impacto no Negócio”, realizado na terça-feira (30/07), na Amcham-São Paulo. “Estamos em um tempo que exige o reposicionamento das empresas e novos modelos de governança, com dirigentes mais sensíveis às mudanças externas”, diz.

Como ponto de partida, ele explica a importância de analisar o contexto histórico nacional. “São Paulo também testemunhou manifestações de anarquistas italianos em 1920 e o Governo abriu um espaço de negociação com os grevistas”, lembra Marcovitch. Segundo ele, é importante que o espaço para o diálogo aconteça novamente, levando em conta as mudanças do país e o crescimento demográfico. “De 1900 até hoje, a população passou de 17 milhões para 197 milhões de habitantes. Isso não aconteceu em nenhum outro lugar do mundo”, conta.

Ele foi um dos palestrantes do evento, que ainda recebeu o economista e ex-ministro Delfim Netto; o economista-chefe do banco Credit Suisse, Nilson Teixeira; o presidente e membro do Conselho de Empresas e Entidades, Pedro Wongtschowski; além do CEO da Amcham Brasil, Gabriel Rico.

Modelo estrangeiro
Diante dos problemas estruturais do Brasil, Jacques Marcovitch orienta ter como base o modelo externo de iniciativas inspiradas naquilo que deu certo em outros países. Por isso, ele relacionou duas listas: “dos países onde todas as pessoas gostariam de nascer e morar” e “das nações com as 100 melhores universidades do mundo”. Após cruzar os dois rankings, apenas nove países constavam nas duas pesquisas: Suíça, Austrália, Suécia, Cingapura, Canadá, Hong Kong, Holanda, Taiwan e Israel.

“São países que não estão no topo da pirâmide, representam um total de 126 milhões de habitantes e detêm as 25 melhores universidades do mundo”, detalha Marcovitch. Segundo o teórico, é possível aprender muito com esses países, que chegaram a um nível muito satisfatório de educação e qualidade de vida. “A primeira lição que podemos tirar é o chamado ‘Estado estratégico”, afirma o palestrante, ao definir esse conceito como o poder de dirigentes que conseguem apreender tendências, mudanças e dar um rápido feedback em relação às demandas da população.

Além disso, ele destaca a influência das entidades setoriais e de uma verdadeira “governança política”. “Os ministros resolvem e entendem a cultura daqueles que exigem mudanças”, comenta o professor ao mencionar o exemplo da Suíça, que promove diversos referendos para saber a opinião de todos sobre novos projetos do Governo. “Uma estrutura de baixo para cima”, ele define.

Reposicionamento
Uma estratégia importante para mudanças efetivas, segundo Marcovitch, seria o convívio maior entre o eleitor e o político eleito. Como o discurso, na maioria das vezes, não se alinha à prática, é importante priorizar um contato baseado em “promessas que podem ser cumpridas”. Por isso, ele indica que seria válido ter empresários no poder público e, ao mesmo tempo, pessoas que já passaram pela política com trajetórias dignas dentro de entidades setoriais e grandes companhias.

O processo de reposicionamento se organizaria, principalmente, pela reestruturação de quatro campos principais: a análise da crise econômica (com indicadores de expectativas para o futuro); a melhoria na governança pública (que, em meio aos protestos, se mostrou incapaz de responder rapidamente às mudanças externas e internas); a qualidade da infraestrutura e do transporte público; e a gestão dos eventos internacionais que vão acontecer no Brasil.

Realidades regionais
Cada região brasileira tem sua especificidade e é importante valorizar o investimento direcionado para algumas regiões econômicas com o objetivo de trazer um impacto positivo nas lacunas existentes em todo o país. “Existem realidades diferentes na Zona Franca de Manaus, no Nordeste, na Região Sul/Sudeste e nas novas fronteiras do Centro-Oeste”, elenca o palestrante. A partir disso, muitos setores poderiam se desenvolver no país, como foco de investimentos futuros. “Entre eles, está o setor de saúde e tudo que envolve a questão ambiental, tratamento de água e TI”, aponta.