Banco Fator: ajuste das economias mundiais reduz investimentos e demanda por commodities

por andre_inohara — publicado 05/07/2013 16h26, última modificação 05/07/2013 16h26
São Paulo – Economista-chefe diz que recuperação dos EUA e Europa continua incerta
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A desaceleração da economia global é mais um fator por trás das projeções pessimistas para a economia brasileira. O alerta é do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. “Aquele mundo em que a China e todo mundo ia bem, e também as [exportações de] commodities, acabou. Estamos passando por um processo de ajuste global que não é e nem tem como ser suave”, disse Gonçalves, no comitê de Finanças da Amcham-São Paulo da quinta-feira (4/7).

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Nas últimas semanas, o índice de commodities CRB, referência do mercado mundial desses produtos, apresentou grande volatilidade em função da instabilidade crescente no Egito. O país africano se situa perto do Oriente Médio, a principal região produtora de petróleo.

“Em função disso tudo, as commodities assumiram um padrão de oscilação bem diferente do que conhecíamos antes”, segundo Gonçalves. Além das commodities, variáveis externas como as economias dos EUA, China e Japão influenciaram negativamente as projeções sobre a economia brasileira.

“Basta considerar a [alta da] taxa de juro futuro nas últimas três semanas e o efeito sobre tudo, câmbio e a revisão do PIB (Produto Interno Bruto) do ano”, de acordo com ele. A previsão do Banco Fator para o PIB vai mudar de 2,4% para 2,2%, segundo o economista.

O enfraquecimento da procura é generalizado e se refletiu na indústria brasileira, que passou a produzir menos. “Não dá pra recuperar a produção com o que está acontecendo no mundo e a (fraca) demanda doméstica”, destaca o economista.

Cenário externo: EUA

Os efeitos negativos da crise mundial de 2008 ainda são bastante evidentes. Não há sinais claros de que a recuperação dos Estados Unidos esteja consolidada, mas o Fed (Banco Central dos EUA) estaria dando indícios de que pretende mudar sua política monetária, focando mais no controle da inflação do que em injetar dinheiro na economia para estimular o consumo – o Quantitative Easing.

Mesmo com o estímulo, a economia americana não tem reagido como se esperava. “O que apavora o Fed é o índice de inflação PCE [sigla em inglês para preços dos gastos com consumo pessoal]. Ele está em 1,7% ao ano, o que [nesse nível] é pavoroso e a um passo da deflação”, segundo Gonçalves.

“Se há deflação, é porque o preço vai ser menor amanhã. O consumidor não compra hoje e o valor realmente cai, alimentando uma espiral pavorosa”, define o economista.

China

A desaceleração americana se refletiu na China, que procura incentivar o consumo via crédito facilitado, medida que objetiva compensar a queda das exportações e investimentos. “A média de crescimento do comércio chinês era de 20% antes da crise. Depois dela, está sendo a metade”, comenta ele.

O financiamento acessível criou bolhas de consumo, e agora o governo está restringindo o acesso. Mas o desequilíbrio entre oferta e demanda se acentuou, alimentando os temores de inflação.

“Visto pela taxa de juro overnight dos chineses, o governo está tendo sucesso na desaceleração. A inflação é relevante, pois o ano de 1989 mostra o que acontece quando os preços sobem [estudantes chineses protestaram contra o regime, pedindo abertura democrática].”

Europa e Japão

A crise na Europa está longe do fim, de acordo com Gonçalves. “É até chato ficar repetindo. A taxa de desemprego está muito alta, produção industrial em queda e o pior, inflação em nível extremamente baixo.”

No Japão, o plano do governo para estimular a economia – via injeção maciça de ienes e controle do câmbio para estimular as exportações – é recente e os efeitos não foram os esperados. “O valor do iene até caiu, mas nas últimas semanas voltou a valorizar cerca de 10%. Isso é um tremendo choque na economia”, opina o economias.

Investimentos em mercados emergentes

Diante da retração mundial, espera-se que os aportes de capitais estrangeiros para projetos nos mercados emergentes fiquem mais escassos. Países como México, Chile e Peru, que apresentam economias promissoras, não devem receber grandes fluxos de capitais.

O Brasil vai continuar recebendo a maior parte desses investimentos, só que em menor quantidade. “Até para o México vai piorar, apesar de eles serem vizinhos dos EUA [e destino potencial desses investimentos na América Latina]”, constata o economista.