Brasil avança em pesquisas sobre biocombustíveis e biomassa, mas precisa dar ênfase ao desenvolvimento

publicado 18/05/2011 16h17, última modificação 18/05/2011 16h17
Daniela Rocha
São Paulo - Parcerias entre universidades e empresas são fundamentais para que ocorram programas-piloto e testes industriais, afirma Sergio Bajay, professor da Unicamp.
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O Brasil tem apresentado uma evolução positiva nas pesquisas relacionadas a energia, sobretudo nos campos dos biocombustíves e da geração de energia elétrica a partir da biomassa. O desafio agora, para que se torne um grande player global, está no desenvolvimento, que consiste na implementação de programas-piloto e testes industriais. A análise é de Sergio Valdir Bajay, professor do Departamento de Energia (DE) da Faculdade de Engenharia Mecânica e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Universidade estadual de Campinas (Unicamp). 

“Em relação a pesquisa e desenvolvimento (P&D), verificamos que aumentaram os investimentos em pesquisas, o número de teses cresceu, mas o grande desafio está no ‘D’ de desenvolvimento. Para isso, são necessárias mais parcerias entre universidades e o meio empresarial para testar novas tecnologias, arranjos organizacionais, processos e plantas industriais em uma certa escala. Boa parte das pesquisas morre com seus relatórios. No Brasil, há um gargalo entre os projetos de pesquisas e as aplicações práticas”, explicou Bajav, que participou nesta terça-feira (18/05) do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo.

Ele criticou a ausência de políticas consistentes de longo prazo para o setor energético no País, o que é negativo em termos de competitividade no cenário internacional. “Sem dúvida, o governo conseguiu aperfeiçoar o planejamento, mas está mais centrado nos aspectos conjunturais do curto prazo. O País está mal nas políticas de longo prazo. Falta visão de futuro.”

Etanol de segunda geração

O etanol de celulose somente entrará no mercado no longo prazo, segundo o professor da Unicamp. Também conhecido como etanol de segunda geração, o biocombustível é resultante de hidrólise enzimática, processo químico de quebra de moléculas de matérias-primas que contêm celulose, como bagaço da cana de açúcar, aparas de madeira ou sabugo de milho, entre outras substâncias.

“Isso não depende somente das pesquisas e da produção das enzimas necessárias, algo a que a opinião pública tem dado tanta ênfase, numa ideia de que logo estará disponível. É preciso ter um processo industrial minimamente competitivo.”

Conforme o professor, deve-se investir bastante também em estudos de plantas industriais de demonstração e em pesquisas relacionadas ao pré-tratamento de materiais para que as enzimas tenham maior eficiência de atuação.  Atualmente, as enzimas são muito caras, a exemplo das que já estão disponíveis para a Petrobras por parceiras em biotecnologia. Entretanto, busca-se também se atingir fórmulas menos dispendiosas.

Sergio Bajay acredita que o etanol de celulose assumirá um papel complementar ao etanol produzido tradicionalmente através da fermantação da sacarose, o de primeira geração. 

Biomassa

A participação da biomassa na matriz de energia elétrica brasileira tende a crescer nos próximos anos. Atualmente, cerca de um terço das usinas de cana de açúcar comercializa o excedente de energia, sendo que a maioria já implentou a cogeração a partir do aproveitamento do bagaço e da palha da cana de açúcar.

Apesar de o mercado de etanol proporcionar taxas de retorno de aproximadamente 15%, maiores que as da comercialização de energia elétrica, na faixa de 10%, cresce a consciência de que essa segunda opção é de longo prazo, com contratos que proporcionam ganhos certos por um período extenso, sem oscilações de preço. O movimento de fusões e aquisições também vem impulsionando a cogeração, conforme Bajay.

Até 2019, a expansão contratada mais a planejada de energia elétrica a partir da biomassa será de 14,6 mil megawatts (MW), apontou o professor com base no levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao ministério de Minas e Energia. Para se ter uma base comparativa, um grande projeto, como a usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, acrescentará 11 mil MW.