Brasil deve reduzir proteção a setores e abrir mais espaço para inovação e competição, afirma Miguel Jorge

por marcel_gugoni — publicado 26/04/2012 16h08, última modificação 26/04/2012 16h08
Marcel Gugoni
São Paulo – Precisamos ter coragem de não escolher as empresas que deveriam sobreviver, diz ex-ministro do Desenvolvimento.
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Subsidiar um setor que não tem capacidade competitiva, além de impedir que ele inove e cresça, ainda representa um gasto que não terá o retorno esperado. Para Miguel Jorge, consultor de comércio exterior e ex-ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o governo deveria reduzir o protecionismo e dar mais espaço à competição entre as empresas. 

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Ele, que também é presidente do comitê estratégico de Business Affairs Latam da Amcham-São Paulo, participou do “Seminário Oportunidades nas Relações Comerciais do Brasil frente à nova configuração dos blocos econômicos mundiais”, realizado pela Amcham-São Paulo nesta terça-feira (24/04).

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Miguel Jorge cita como exemplo o caso do agrobusiness brasileiro, que recebia pesados incentivos do governo até meados dos anos 1970, e o setor ainda assim deixava a desejar no quesito competitividade. “Os subsídios geravam escândalos atrás de escândalos de dívidas. Quando o Brasil parou de subsidiar essa indústria, tornou-se uma das mais competitivas do mundo.”

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O exemplo da Coreia do Sul é emblemático para o ex-ministro. “Durante a crise do país em 2007, o governo permitiu que grandes empresas quebrassem ou se juntassem”, lembra. “São coisas que no Brasil não estamos acostumados a ver. Aqui, tenta-se salvar toda e qualquer empresa por mais ineficiente e improdutiva que ela seja. Não conseguiremos competir se não mudarmos o nosso mindset com relação a investimentos em inovação.”

Confira aqui vídeo com a entrevista do consultor à Amcham.

Leia os principais trechos da entrevista com Miguel Jorge:

Amcham: Quais os principais desafios do Brasil?

Miguel Jorge: Temos que discutir caminhos para o País em mundo de grandes transformações, especialmente após a crise financeira que impactou todas as economias. Países em desenvolvimento têm realizado significativas inclusões de sua população, promovendo mudanças técnicas a partir dos gastos com pesquisa e desenvolvimento, mas também aumentando a pressão sobre o meio ambiente. Nota-se um movimento pendular em direção a mais ativismo estatal. A crise global de 2008 deixou os países mais ricos menos entusiasmados com a globalização. Para nós, a obrigação é trabalhar muito com a competitividade, com a produtividade e sermos inovadores. Nossas oportunidades serão menores se não formos mais eficientes, mais competitivos e mais inovadores. Há um problema difícil no Brasil em relação à competitividade e à eficiência das empresas brasileiras. Não conseguiremos competir se não mudarmos o nosso mindset com relação a investimentos em inovação, ciência e tecnologia. E não estou fazendo diferença entre capital brasileiro e capital de multinacionais. Isso deve permear as empresas de modo geral no Brasil. Esse é um paradigma que devemos enfrentar, com muita rapidez e muito esforço.

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Amcham: O Brasil tem exemplos de produtividade e competitividade?

Miguel Jorge: Na área de agrobusiness, temos muita produtividade e eficiência. Tanto que esse setor é sucesso no mundo inteiro. Somos um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, tanto animais como vegetais. Há 30 ou 40 anos, os subsídios eram escandalosos. Geravam escândalos atrás de escândalos de dívidas. Quando o Brasil parou de subsidiar, há 30 anos, essa indústria se tornou uma das mais competitivas do mundo. Nosso desafio é perceber quais são os setores em que podemos ser competitivos. Não podemos cometer o erro que cometemos no passado de que podemos fazer tudo no País.

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Amcham: Quais outras áreas o sr. destacaria?

Miguel Jorge: Esse é um trabalho que demanda estudo, um trabalho grande. Precisamos ter coragem de não escolher as empresas que deveriam sobreviver. O mercado é que deveria fazer esse trabalho. Claro que essa é uma discussão interminável se somarmos a isso a questão cambial, se [a desvalorização do] dólar prejudica ou não. Mas um fato é que a inovação e o desenvolvimento da ciência e tecnologia nas empresas ainda são muito baixos no Brasil.

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Amcham: Qual o papel da inovação nessa questão?

Miguel Jorge: É um papel fundamental. Veja o caso da Finlândia. Por conta da inovação, o País tem uma das maiores fábricas do mundo de telefones celulares, feitos com a maior competência. Embora o país seja pequeno se comparado com o Brasil, gastou muito dinheiro em pesquisa, desenvolvimento e inovação. É o mesmo caminho da Coreia do Sul. Durante a crise do país em 2007, o governo permitiu que grandes empresas quebrassem ou se juntassem. O caso emblemático foi [o da união] da Kia com a Hyundai, que criou uma grande empresa automobilística com atuação mundial. São coisas que no Brasil não estamos acostumados a ver. Aqui, tenta-se salvar toda e qualquer empresa por mais ineficiente e improdutiva que seja. Precisamos fazer uma autocrítica em relação a isso. A comparação com a Coreia é emblemática: de 1970 a 2006, a Coreia passou de US$ 5 mil para US$ 50 mil dólares em participação de valor agregado de manufaturas. No mesmo período, a América Latina passou de US$ 8 mil – mais do que a Coreia – para pouco mais de US$ 20 mil.

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