Brasil não é um país “óbvio” para investimentos, diz gestor de fundo

publicado 12/05/2017 09h00, última modificação 22/05/2017 16h02
São Paulo – Gonzalo Fernandez (Partners Group) destaca que é preciso ter regras claras e estabilidade para atrair fundos
Gonzalo Fernandez

Gonzalo Fernandez (Partners Group): Os escritórios locais dos fundos têm dificuldades de justificar porque o Brasil é um país com tanto potencial econômico, porém imprevisível no aspecto jurídico

De todos os países emergentes, os investidores estrangeiros reconhecem que o Brasil tem o mercado financeiro mais desenvolvido e muitos projetos de infraestrutura logística com alto potencial de retorno. E se o grau de previsibilidade econômica e jurídica fosse maior, haveria muito mais recursos internacionais ajudando a viabilizar negócios. “O Brasil não é um país óbvio para investidores globais”, disse Gonzalo Fernandez, diretor geral do fundo de investimentos suíço Partners Group, no seminário ‘O Brasil sob a Perspectiva de Wall Street’, organizado pela Amcham e Americas Society/ Council of the Americas (ASCOA), na sexta-feira (12/5).

“Às vezes, é difícil explicar para os nossos controladores o que acontece aqui, porque não é fácil prognosticar o que vai acontecer. E um alocador de capitais trabalha com previsibilidade de cenários”, detalha. Gonzalo compartilhou sua visão em um painel formado por gestores de fundos internacionais. Entre eles, José Berenguer, presidente do J.P. Morgan Brasil (EUA), e os diretores gerais Matheus Villares, da Temasek Holdings (Cingapura), e Rodolfo Spielmann, do CPP Investment Board (Canadá). Francisco Cestero, sócio do escritório de advocacia Cleary Gottlieb Steen & Hamilton, moderou as discussões.

“Enquanto temos uma estrutura de mercado financeiro bastante desenvolvida, as outras condições da economia deixam muito a desejar”, observa Berenguer. Ele cita números que ouviu em uma apresentação do BNDES, para ilustrar a grande defasagem do país em logística e clima para negócios. “Em facilidade de abrir negócio, estamos na 123º posição. Ocupamos a 81ª posição em facilidade de obter crédito e somos o 63º país em desempenho logístico. São números que ilustram o grande desafio que a economia brasileira tem”, descreve.

Dados do Fórum Econômico Mundial de 2015 também confirmam a má situação estrutural do país, continua o executivo. “Nossas rodovias, portos e transporte aéreo estão entre os piores.” E, segundo a McKinsey, os gastos de infraestrutura em relação ao PIB entre 2008 e 2013 foram de 2,5%. “Só a China gastou 8,8%, e a África do Sul, 4,7%”, compara. É justamente a necessidade de modernização que torna o Brasil um país interessante para investimentos, acrescenta Berenguer. “É estratégico ter presença aqui no horizonte de médio e longo prazos.”

Como exemplo, cita as mudanças de governo do país. “Há vários cenários que podem acontecer, que vão do otimismo na economia até a incerteza que pode vir com a eleição de algum candidato presidencial desconhecido.”

Além da previsibilidade maior, o Brasil carece de regras estáveis, acrescenta Spielmann. Para o executivo, a possibilidade de aprovação de reformas estruturais, como a limitação de gastos públicos e previdência, é motivo para otimismo. “Quanto mais estável for o ambiente regulatório e a gestão pública, melhor”, disse.

Villares, da Temasek, disse que a aprovação das reformas previdenciária e trabalhista está “precificada” nas análises de curto prazo do fundo para o Brasil. Se elas não forem aprovadas, o executivo disse que seria um “desastre”, uma vez que as projeções teriam que ser refeitas e o interesse pelo Brasil diminuiria ainda mais.

Mesmo com todas as incertezas, o Brasil vai continuar sendo monitorado pelos investidores. “Somos ricos em recursos, temos uma classe média consumidora relevante e as instituições democráticas estão funcionando. Assim que o Brasil se recuperar, vai se tornar ainda mais relevantes para os investidores”, afirma Villares.

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