Brasil necessita investir 25% do PIB para sustentar crescimento superior a 6% ao ano

por daniela publicado 12/08/2011 16h52, última modificação 12/08/2011 16h52
Daniela Rocha
São Paulo - Para Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP), caminho está em controle de gastos do governo e elevação da poupança doméstica.
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O Brasil precisa ampliar sua taxa de investimento do patamar atual de 18,4% do Produto Interno Bruto (PIB) para 25%, com o objetivo de ter uma expansão sustentável da economia entre 6% e 7% ao ano.  os cálculos são de Yoshiaki Nakano, professor e diretor da Escola de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EESP). O caminho, segundo o economista, está no controle de gastos do governo e na elevação da poupança doméstica.

Nakano participou nesta sexta-feira (12/08) do comitê estratégico de Economia da Amcham-São Paulo. Após o encontro, em entrevista ao site da entidade, ele salientou que o Brasil apresenta taxas de investimento e poupança inferiores à média dos países emergentes, sobretudo China e Índia, mas lembrou que são países que têm menor atuação governamental em benefícios sociais.

O professor da FGV comentou ainda os possíveis impactos da crise dos Estados Unidos e de parte da Europa sobre o Brasil e a inflação interna. Acompanhe:

Amcham: Atualmente, quais são as taxas de poupança e de investimento do Brasil?
Yoshiaki Nakano:
No ano passado, a taxa de poupança doméstica foi de cerca de 17% do PIB (Produto Interno Bruto) e a taxa de investimento, de 18,4% do PIB. Neste ano, ainda não temos os dados. Mas, para o Brasil voltar a crescer entre 6% e 7% ao ano de maneira sistemática, sem maiores problemas, precisamos de uma taxa de investimento de 25% do PIB. Esse patamar não é elevado na comparação com países emergentes que, na média, estão acima disso. Em se tratando da China, nem se compara, porque o país asiático apresenta uma taxa de investimento de 40% do PIB, e a Índia, de 30% em relação às riquezas geradas no país. 

Amcham: Mas a China e a Índia também apresentam altos volumes de poupança?
Yoshiaki Nakano:
Esses países têm taxas de poupança elevadas também. A China, dependendo do período, já superou 45% do PIB e, na Índia, é de 30% do PIB. O grosso da poupança é o lucro retido das companhias; então, se o setor empresarial vai bem, a poupança normalmente é elevada. O que "pega" no Brasil é o governo, que na década de 70, por exemplo, poupava, mas hoje tem poupança negativa. Então, o governo brasileiro absorve poupança de outros setores para financiar seu déficit e investe muito pouco. Quase a totalidade da despesa do governo é corrente.

Amcham: O sr. considera que há risco de alguma crise ligada à balança de pagamentos do País?
Yoshiaki Nakano:
Não vejo uma ação mais efetiva, mais firme, na direção de se controlar o gasto corrente e aumentar a poupança pública. Daí, inevitavelmente, o País terá de recorrer cada vez mais à poupança externa e sabemos que não é possível apresentar sistematicamente déficits nas transações correntes por muitos anos, aumentando o passivo externo. 

Amcham: Se o governo não agir no controle de gastos, é possível prever quando poderá eclodir uma crise de balanço de pagamentos?
Yoshiaki Nakano:
Não estou dizendo que isso acontecerá nos próximos anos, mas é possível que ocorra sim, lá na frente. Na minha visão, o que o governo precisa fazer é aumentar a eficiência dos gastos de um lado e, do outro, fazer seus gastos correntes crescerem menos do que o Produto Interno Bruto (PIB). Dessa forma, será aberto um espaço para que o setor público possa investir e se financiar com recursos próprios, e não por endividamento.

Amcham: A ampliação da poupança no País é importante para que haja mais investimentos. No seu entendimento, qual área necessita de maior volume de aportes ?
Yoshiaki Nakano:
O Brasil precisa investir, sobretudo, em logística de transportes para escoar, por exemplo, seu fluxo de produtos agrícolas. As estradas são terríveis e também não temos uma infraestrutura adequada que interligue o interior ao litoral, com exceção do que ocorre no Estado de São Paulo, com uma malha mais adequada de rodovias e ferrovias. No País, a logística está muito concentrada ao longo da costa e, para uma economia aberta, temos que integrar o interior muito rapidamente.

Amcham: Quais tendem a ser os possíveis reflexos da crise dos Estados Unidos e de parte da Europa sobre a economia brasileira?
Yoshiaki Nakano:
Inevitavelmente, essa crise atinge todos os países. É impossível imaginar que o Brasil esteja isolado do resto do mundo. Estávamos recebendo um volume muito grande de recursos financeiros do exterior, que na verdade não estavam indo para investimento direto, mas para consumo. Quando esse fluxo para de repente, o câmbio dispara. Nessa situação, o governo provavelmente elevará os juros. Esse é o problema sistemático, inclusive, que o Brasil tem enfrentado ao longo das últimas décadas.

Amcham: Há grande preocupação no País em relação à inflação. Quando o índice de preços retornará ao centro da meta estabelecida pelo Banco Central, de 4,5% ?
Yoshiaki Nakano:
A tendência é que volte sim ao centro da meta; entretanto, a opção correta do governo é fazer isso ao longo do tempo e não de uma vez para que não enfrentemos recessão, desemprego etc. Espero que no final do próximo ano a inflação no País esteja voltando à meta.