Brasil precisa melhorar qualidade e quantidade dos ensinos médio e superior, aponta coordenador da Unicamp

por andre_inohara — publicado 28/07/2011 11h55, última modificação 28/07/2011 11h55
André Inohara
Campinas – Professor afirma que perfil educacional brasileiro evoluirá para ser parecido com Europa e Estados Unidos, mas é possível extrair lições também da Coreia do Sul.
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Os principais gargalos da formação de mão de obra especializada estão no ensino médio e na qualificação das instituições de ensino superior, avalia Renato Pedrosa, o professor e coordenador associado do Centro de Estudos Avançados (CEAv) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ele participou do seminário Competitividade Regional em Campinas na terça-feira (26/07), e defendeu em especial o aprimoramento da qualidade de ensino das universidades privadas, que abrigam a maioria dos alunos de nível superior. 

Veja os principais trechos da entrevista ao site da Amcham:

Amcham: Como está a situação da formação de mão de obra qualificada no Brasil?
Renato Pedrosa:
Se compararmos com os países com que competimos, estamos atrasados em relação à formação de pessoas na área de tecnologia. Há mais de dez anos, a Coreia do Sul, que tem um terço da população do Brasil, possui o dobro de matrículas nos cursos de engenharia. Só em 2010, o Brasil está chegando perto de 60% a 70% das matrículas da Coreia. Mas, proporcionalmente, a Coreia forma seis vezes mais engenheiros que o Brasil. Em outros países recentemente desenvolvidos como a Espanha, as populações são menores que a do Brasil e há frações maiores estudando engenharia.

Amcham: O que é preciso fazer para aumentar a oferta de trabalhadores especializados?
Renato Pedrosa:
Em termos gerais, precisamos investir fortemente na formação de áreas técnicas e de exatas, não só do ponto de vista quantitativo como qualitativo. No aspecto qualitativo, a maior parte dos nossos cursos não é muito bem avaliada pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura). Pelo contrário, deixa bastante a desejar. E ainda há os cursos de tecnólogos. A formação dura três anos. Esses cursos se expandiram rapidamente nos últimos anos e devem continuar assim no futuro na região metropolitana de Campinas. Apesar disso, temos poucas faculdades de tecnologia (as Fatec) no Estado.

Amcham: Que lições são possíveis de se extrair do modelo educacional sul-coreano?
Renato Pedrosa:
Uma das principais é a de que eles investiram tanto no ensino médio como nos superior e tecnológico – este último dá formação mais rápida. Mas a comparação para por aí, porque eles têm uma população que pode trabalhar rapidamente em um sistema industrial mais desenvolvido e em áreas de serviço mais sofisticadas. A Coreia universalizou o ensino médio há mais dez anos, e atualmente o Brasil não tem nem 50% dos jovens adultos com ensino médio completo. Apesar do progresso que o Brasil fez nos últimos quinze anos, estamos no estágio em que a Coreia estava há vinte anos. É difícil fazer comparações porque a Coreia é uma sociedade menor e vem de um estágio educacional melhor que o Brasil há mais tempo.

Amcham: Então como deve evoluir a situação educacional no Brasil?
Renato Pedrosa:
Nosso perfil educacional será mais parecido com o de alguns países europeus ou mesmo dos Estados Unidos, que ainda têm uma parcela sem ensino médio completo, porém têm uma fatia maior da população com ensino médio e técnico completo. Não temos uma população como a coreana. Somos relativamente privilegiados na região de Campinas, mas ainda há muitos problemas.

Amcham: Que problemas são esses?
Renato Pedrosa:
O grande gargalo de desenvolvimento do Brasil está no ensino médio. Ainda não conseguimos chegar a ter 80% da população com ensino médio completo com qualidade razoável. Para chegar ao nível coreano, temos de correr muito. Faltam políticas governamentais de incentivo à permanência na escola. O ensino fundamental está relativamente coberto, pois sua qualidade está melhorando. O nível superior está se expandindo, mas a quantidade de jovens habilitados para as carreiras oferecidas já chegou ao limite. E não estamos formando gente suficiente no ensino médio. Mais da metade das escolas de periferia da cidade de Campinas não tinham nenhum aluno matriculado na Unicamp até o fim do ano passado, quando criamos um programa para que pelo menos um aluno dessas instituições estudasse em nossa universidade.

Amcham: Poderia comentar um pouco mais sobre esse programa?
Renato Pedrosa:
Ele consiste em trazer um ou dois alunos, os melhores de cada escola (pública) da cidade, para a Unicamp. Foram 120 estudantes que entraram esse ano e haverá mais 120 em 2012. Eles estudam durante dois anos, recebendo formação geral em ciências exatas, biológicas e humanas. Depois, poderão escolher e seguir os diversos cursos da Unicamp. Temos negociado com a Secretaria Estadual do Desenvolvimento Metropolitano de São Paulo, que cuida das regiões metropolitanas de São Paulo, Baixada Santista e Campinas, uma proposta para ampliar nosso programa na região de Campinas. E seria interessante ter parceiros privados.