Brasil precisa repensar estratégias de inovação, segundo co-presidente do conselho da Natura

por andre_inohara — publicado 17/08/2012 15h29, última modificação 17/08/2012 15h29
São Paulo – Cultura de inovação abre espaço para empreendedores jovens e oportunidades “onde menos se espera”.
inovacao_foto.jpg

Quando a cultura da inovação faz parte da formação educacional básica, abre-se espaço para o surgimento de jovens empreendedores que nem sempre têm graduação ou pós-graduação.

Criar um ambiente amplo à inovação, que vá além das empresas e universidades, é uma reflexão proposta por Pedro Passos, co-presidente do conselho de administração da Natura. “É importante uma reflexão para saber se as nossas estratégias [de desenvolvimento tecnológico] estão corretas, de onde estão nascendo as inovações e que tipo de pessoas estão levando isso adiante”, afirma.

Veja aqui: Integração entre as políticas de desenvolvimento tecnológico e de comércio exterior são via para acelerar inovação no Brasil

Passos debateu os desafios a um melhor ambiente de inovação no País no Seminário de “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado pela Amcham-São Paulo na última quinta-feira (16/08). Leia abaixo a entrevista dele ao site da Amcham:

Amcham: Como o sr. analisa o desenvolvimento da inovação no Brasil?

Pedro Passos: Fico entusiasmado pelo ambiente que se cria sobre um tema tão importante, e de saber que essa agenda se torna interessante a cada dia. Estamos nos concentrando na inovação tecnológica, patentes e produtos. Mas vivemos algumas transições e a inovação tem vindo de onde menos se espera.

Amcham: A que o sr. se refere?

Pedro Passos: É importante uma reflexão para saber se nossas estratégias [de desenvolvimento tecnológico] estão corretas, de onde estão nascendo as inovações e que tipo de pessoas estão levando isso adiante. Hoje, as maiores empresas do mundo foram criadas por garotos que nem sempre têm graduação e pós-graduação. O incentivo, em alguns lugares, é montar a empresa inovadora antes de se formar. Nossa abordagem de incentivo é a mais correta?

Amcham: E como deveria ser uma abordagem correta para a inovação no Brasil?

Pedro Passos: Lidando com o ambiente empresarial, fico com a sensação que há conservadorismo ao tentar manter velhas empresas de setores tradicionais, muitas vezes com protecionismo, câmbio e outras histórias. É claro que não podemos jogar tudo isso fora, mas temos que pensar no novo. Os paradigmas atuais podem ser quebrados, não precisamos nos render à posição de liderança do Primeiro Mundo ou ao tamanho da China. Precisamos criar os nossos espaços, pensar fora da caixa. Vamos inovar.

Amcham: Como fazer isso?

Pedro Passos: No setor de varejo e consumo, os hábitos de compra estão sendo mudados de forma radical. Potências do mundo empresarial estão sendo destruída por novas. Várias redes [tradicionais de varejo] estão sendo derrubadas pelo mundo digital, por uma compra que se faz dentro do metrô. O consumidor vai à sua loja, testa o produto, toma um café e compra do concorrente pela internet. E tudo isso dentro da sua loja. Falo de uma modificação é mais ampla, a alteração radical dos modelos de negócios. Isso permeia o poder e a lógica das empresas e  o tipo de liderança que realmente inova no mundo.

Amcham: No seminário, falou-se da melhoria das estruturas de inovação e apoio à internacionalização das empresas, para que elas tenham contato ou se vejam mais estimuladas a criar novas tecnologias. O que é prioridade?

Pedro Passos: A agenda de inovação é ampla, não há uma única coisa que se possa fazer. Temos que fazer de tudo e em paralelo. Estimular o empreendimento local, mas também incentivar as grandes empresas e as pequenas a se internacionalizarem. É isso que vai estabelecer parâmetros de competitividade ao País.

Amcham: Outro ponto discutido foi a aproximação entre a academia e as empresas. No entanto, há quem defenda que a academia tem como função produzir conhecimento, e não patentes, estando estas a cargo das empresas. O que é possível fazer para integrar mais ambas as partes em curto prazo?

Pedro Passos: A função primeira da academia é formar gente qualificada. Mas ela também gera muito conhecimento, que não pode ficar represado em gavetas ou silos. Essa produção tem que criar impacto positivo na sociedade, e uma forma de fazer isso é transformar pesquisas em produtos e serviços, além de novas abordagens para todos. Acho que é preciso estabelecer um eixo de comunicação e troca de conhecimento entre a sociedade e a academia.

Veja aqui: Tempos de crise são os mais inspiradores para inovar, afirma professor da USP

Amcham: A Natura investe na biodiversidade brasileira. Qual a vocação tecnológica brasileira?

Pedro Passos: Focamos a inovação em biodiversidade. A partir dela pode-se avançar em biotecnologia, um dos campos que o Brasil pode explorar. Mas há campo para explorar energias alternativas, petróleo e derivados. Também é possível fomentar uma indústria sofisticada de petroquímica, alcoolquímica e medicamentos biológicos.