Brasil precisa rever modelo de estímulo ao consumo e priorizar investimentos produtivos para continuar crescendo, diz economista-chefe do HSBC

por andre_inohara — publicado 05/06/2012 14h41, última modificação 05/06/2012 14h41
São Paulo – Ele defende que a desoneração de impostos e encargos trabalhistas tem que ser estendida a todos o setor produtivo.
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Nos últimos anos, o Brasil cresceu em grande parte baseado na expansão do consumo, a partir de transferência de renda para a população menos favorecida e aumento do crédito para a classe média. Esse modelo, porém, se esgotou.

Para continuar crescendo de forma acelerada, está na hora de o governo redirecionar a forma de estimular a economia, desonerando o setor produtivo como um todo para alavancar investimentos, defende o economista-chefe do banco HSBC, André Loes.  

“Em médio prazo, esperamos que o governo apresente estímulos mais adequados, sobretudo um projeto de desoneração generalizada da produção, com redução de impostos e carga tributária trabalhista”, disse Loes, em entrevista depois de participar do comitê de CEOs & Chairpersons da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (05/06).

“Avaliamos que o modelo focado em consumo deu muito certo durante alguns anos, e que está esgotado porque o custo da mão de obra está alto e o endividamento das famílias cresceu”, argumenta o economista.

Infraestrutura e incentivos setoriais

Além da desoneração de impostos e encargos trabalhistas, a realização de melhorias em transporte e logística também ajudaria a fomentar os investimentos privados e o crescimento do País. “A falta de obras de infraestrutura acaba gerando custos muito grandes para o setor privado, o que torna sua decisão de investir mais difícil”, acrescenta Loes.

Ele considera que a morosidade do governo em entregar obras de infraestrutura logística e a concessão de incentivos fiscais que favorecem apenas alguns setores da economia acabam por desestimular o empresariado.

“O setor privado está preocupado com a perda de dinamismo (da economia) e não vê como positivo esse momento de intervenção setorial”, observa o economista.

Crescimento contido

Com limitações estruturais, a perspectiva de crescimento brasileiro não será forte para os próximos anos. Para Loes, o Brasil terá uma expansão “claramente mais baixa do que teve na segunda metade da década passada”.

O cenário econômico para os próximos meses também não é dos melhores, avalia Loes. “Está havendo desaceleração de investimento no curto prazo, somando-se a uma situação em que o consumo consegue ser estimulado, mas não tão fortemente como no passado. Aliado ao investimento enfraquecido, isso vai gerar crescimento mais baixo.”

Parte do pessimismo vem dos mercados internacionais. "Pode haver uma piora a qualquer momento na Europa, e isso em geral significa menos investimentos externos e mais pressão sobre o câmbio”, explica Loes.

"Se essa piora ocorre de maneira rápida, acaba gerando desorganização, um aumento da depreciação (do câmbio) que não é bom nem mesmo para os setores exportadores”, assinala o economista.