Brasil precisa se abrir a benefícios do livre comércio, diz cônsul geral do México em São Paulo

por marcel_gugoni — publicado 18/10/2012 15h16, última modificação 18/10/2012 15h16
Marcel Gugoni
São Paulo - José Gerardo Traslosheros Hernández conta como o México venceu o receio de concorrer nos mercados internacionais, elegeu onde ser competitivo e aceitou que não pode produzir tudo internamente.
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O Brasil precisa vencer o receio de se globalizar. Essa é a regra número um que o País deve seguir para melhorar sua produtividade e sua expansão global, na avaliação do cônsul geral do México em São Paulo, José Gerardo Traslosheros Hernández. “O México é um país que é mais aberto, que perdeu o medo de concorrer nos mercados internacionais e que aceitou que não pode produzir tudo internamente”, compara.

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O diplomata participou nesta quinta-feira (18/10) do comitê Business Affairs Latin America na Amcham-São Paulo e, em entrevista após o encontro, afirmou que os dois países têm características sociais, históricas e econômicas parecidas, o que reforça a importância da integração bilateral. “O que podemos mostrar é que o Brasil também não tem que ter medo. O Brasil tem tudo para se desenvolver muito bem entre os mercados globais.” 

O México figura entre os grandes exportadores e importadores mundiais ao abrir seu mercado ao exterior e oferecer bens e serviços a grandes importadores, como os Estados Unidos. Em 2011, a balança comercial mexicana registrou importações de US$ 351 bilhões, enquanto as exportações foram de US$ 350 bilhões. Apesar de bater recordes nas negociações no comércio exterior, o Brasil tem desempenho abaixo do mexicano, com exportações de US$ 256 bilhões e importações de US$ 226,2 bilhões.

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O caminho, na avaliação de Hernández, é o Brasil avançar em tratados de livre comércio e reduzir as políticas de conteúdo nacional – que freiam a entrada de itens importados. “O País não pode desejar ter conteúdos nacional em níveis altos em um mundo globalizado. É preferível ser eficiente e abrir a economia para se inserir nas cadeias globais de valor”, diz. 

“Se o mundo está se globalizando, temos que participar de mais mercados”, defende ele, ressaltando que o México é um dos mais integrados países do mundo, com 12 tratados de livre comércio (TLC) assinados com 44 países, 28 acordos de promoção e proteção recíproca de inversões (APPRI) e nove acordos por meio da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi).

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No México, “a tendência é de que os setores ligados ao comércio exterior tenham maior produtividade e isso eleve os salários”, explica. “A especialização leva a uma maior produtividade e uma melhora nas condições de vida da população. Talvez os resultados não pareçam fáceis durante o processo, mas é preciso ter um objetivo. Brasil e México precisam analisar essa questão visando a uma maior integração para melhorar a produtividade das suas economias.” 

Além do acordo automotivo entre os dois países, que facilita as trocas comerciais de veículos e autopeças com alíquotas de importação zeradas, o diplomata diz que há grande potencial em áreas como biocombustíveis, exploração de petróleo e geração de energia hidrelétrica. 

Os programas sociais de transferência de renda do Brasil foram elogiados por Hernández. “O Brasil tem implementado de maneira muito bem sucedida programas de cunho social, que o México olha com muito interesse”, afirmou. 

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Para o cônsul, a grande missão dos líderes dos dois países (o presidente eleito do México, Enrique Peña Nieto, assume em dezembro e já visitou o Brasil em setembro passado) é dialogar. “Precisamos desmistificar certos conceitos que temos um sobre o outro: o México não vai acabar com a indústria brasileira assim como o Brasil não vai acabar com a agricultura do México.”

Leia os principais trechos da entrevista com o diplomata José Gerardo Traslosheros Hernández:

Amcham: O México vem apresentando um importante crescimento econômico, mesmo com a crise dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos. A que o sr. atribui esse desempenho?

José Gerardo Traslosheros Hernández: As exportações têm sido um motor muito importante do crescimento mexicano, e o consumo interno tem aumentado graças ao crescimento da classe média. Esse fenômeno de aumento das classes médias é algo que tem acontecido na América Latina, mais marcadamente no Brasil e no México, e tem ajudado a estimular o crescimento. 

Amcham: Quais segmentos das exportações se destacam?

José Gerardo Traslosheros Hernández: O México tem vários setores que são importantes para a economia, como o de produtos eletro-eletrônicos e o automotivo e de autopeças. Estamos ampliando nossa participação na indústria de tecnologia da informação, tanto de hardware como de software. Também vemos um crescimento da nossa produção agropecuária. Em geral, diria que o México tem procurado se inserir nas cadeias globais de valor, mas ainda tem que melhorar. Nosso crescimento médio tem ficado na casa de 4% [evolução do PIB desde 2005], mas o crescimento potencial ainda está muito acima disso. Nesse sentido, nosso desafio é parecido com o do Brasil. Tanto um como o outro têm que aumentar suas taxas de investimento como proporção do PIB e trabalhar intensamente sua competitividade, melhorando a infraestrutura física e a formação de capital humano para atingir crescimento maior das suas economias.

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Amcham: Quais os principais pontos de integração entre os dois países?

José Gerardo Traslosheros Hernández: Toda integração significa maior especialização. Respeitando os devidos prazos para um abrir a economia ao outro, consegue-se ajustar o tipo de produto mais adequado para vender e comprar. Em todos os setores, os dois países podem se complementar. No setor automotivo, o Brasil produz carros menores enquanto o México produz carros maiores. É visível que as tecnologias mais avançadas passem para os carros pequenos porque o problema das grandes cidades é a circulação de automóveis. Veja o caso da Europa e do Japão, que têm carros pequenos. É por isso que acho que o Brasil não deveria limitar suas exportações para o México. É melhor deixar isso aberto e trabalhar nas variáveis de competitividade – ampliar a formação de engenheiros, a logística e outros aspectos do Custo Brasil – e continuar vendendo carros para o México e outros países. É fato que não se pode produzir tudo no mundo, então é preciso escolher onde ser competitivo. Acho, respeitosamente, que o País não pode desejar ter conteúdo nacional em níveis altos em um mundo globalizado. É preferível ser eficiente e abrir a economia para se inserir nas cadeias globais de valor. Se o mundo está se globalizando, temos que participar de mais mercados. 

Amcham: Isso significa que o País deve ampliar seus acordos de livre comércio? Esse é o melhor caminho para o Brasil e para o México?

José Gerardo Traslosheros Hernández: Com o livre comércio, é possível ampliar a produtividade dos setores mais exportadores. No México, a tendência é que os setores ligados ao comércio exterior tenham maior produtividade e isso eleve os salários. A especialização leva a uma maior produtividade e uma melhora nas condições de vida da população. Talvez os resultados não pareçam fáceis durante o processo, mas é preciso ter um objetivo. Brasil e México precisam analisar essa questão visando a uma maior integração para melhorar a produtividade das suas economias. A partir dessa integração, o segundo passo é ajudar a América Latina a se integrar mais.

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Amcham: Como o novo governo do presidente eleito do México, Enrique Peña Nieto, tende a olhar para o Brasil?

José Gerardo Traslosheros Hernández: O presidente eleito já visitou o Brasil nas últimas semanas e parece muito interessado em fortalecer o relacionamento. As propostas que serão adotadas ainda não sabemos. Isso dependerá muito do que nossos setores privados estejam interessados em fazer. É preciso também desmistificar certos conceitos que temos um sobre o outro. O México não vai acabar com a indústria brasileira assim como o Brasil não vai acabar com a agricultura do México. Superar isso demanda vontade política e criatividade para buscar acordos que possam integrar mais os dois países, minimizando os efeitos negativos que possa haver sobre os diferentes setores da economia. Agora, se essas negociações vão virar tratados, acordos ou facilitação de comércio, essa é uma questão sobre a qual os governos precisam dialogar. 

Amcham: Em termos políticos, econômicos ou sociais, o que o México tem a aprender com o Brasil?

José Gerardo Traslosheros Hernández: Somos países muito parecidos. O Brasil tem implementado de maneira muito bem sucedida programas de cunho social, que o México olha com muito interesse. Estamos olhando também para a experiência da Petrobras, que é uma empresa que mesmo ainda nas mãos do setor público admite investimento privado. Esse é um passo muito importante para a Pemex (Petróleos Mexicanos) conseguir ser uma empresa mais eficiente e produtiva a fim de gerar mais riquezas para o país inteiro. Não vamos privatizar a Pemex, mas a ideia é que ela se guie a partir de princípios empresariais e aceite mais investimentos privados. Olhando para o Brasil, o México tem que aproveitar tecnologias brasileiras que se têm desenvolvido nas áreas de biocombustíveis, como a produção de etanol a partir da cana de açúcar, e queremos ver muito mais investimento brasileiro nessa área. O setor químico, principalmente a química verde, tem tido um desenvolvimento muito grande no Brasil. O Brasil tem ótimas tecnologias de aproveitamento dos recursos hidráulicos e que podemos negociar. 

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Amcham: E o que o Brasil deve aprender com o México?

José Gerardo Traslosheros Hernández: O Brasil tem que perder o medo de se globalizar. O México é um país que é mais aberto, que perdeu o medo de concorrer nos mercados internacionais e aceitou que não pode produzir tudo internamente. É válido querer produzir bens de forma mais eficiente, mas num ambiente de abertura. O que podemos mostrar é que o Brasil também não tem que ter medo. O Brasil tem tudo para se desenvolver muito bem entre os mercados globais.