Brasil necessita se expor mais à competição e focar em vantagens comparativas, diz embaixador da Coreia do Sul

por andre_inohara — publicado 25/04/2012 16h11, última modificação 25/04/2012 16h11
André Inohara
São Paulo – Para o diplomata, políticas públicas de incentivo não trazem competitividade no longo prazo, e governo precisa investir na melhoria da qualidade educacional.
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O grande potencial econômico do Brasil será mais aproveitado em setores onde o País é naturalmente competitivo, a exemplo do agrobusiness. Essa é uma forma de criar desenvolvimento econômico para, depois, focar em outros segmentos, defende o embaixador da República da Coreia do Sul no Brasil, Kyonglim Choi.

Segundo ele, para maximizar esse desenvolvimento, é preciso que as empresas se exponham mais à competição. O papel do governo não é proteger setores industriais, mas melhorar a qualificação da mão de obra, modernizando o sistema educacional e apoiando professores e pesquisadores para que trabalhem junto com a indústria e produzam inovação.

Veja a entrevista do embaixador ao site da Amcham, realizada em São Paulo na terça-feira (24/04) após sua participação no ‘Seminário Seminário Oportunidades nas Relações Comerciais do Brasil frente à nova configuração dos blocos econômicos mundiais’.

Confira aqui vídeo com a entrevista do embaixador à Amcham.

Amcham: A situação econômica e social da Coreia nos anos 1970 era semelhante à do Brasil nessa época. O que fez a Coreia superar o Brasil e se tornar um país com produção tecnológica de alto nível?

Kyonglim Choi: Creio que se trata de uma questão de competição. A diferença entre o Brasil e a Coreia do Sul é que nosso país tem um mercado doméstico muito pequeno, ao contrário do Brasil. Nossas companhias não sobreviveriam se atuassem apenas na Coreia, então tiveram que sair, diversificar e competir no mercado externo. Elas tiveram que ser competitivas e inovadoras. O mercado doméstico brasileiro tem certa proteção, e não é preciso ser um competidor de classe mundial para sobreviver nesse ambiente. O Brasil tem um mercado doméstico enorme e economia de escala, então há pouco incentivo para as empresas brasileiras inovarem e criarem tecnologia. É preciso estimular o ambiente de competição para forçar as companhias a inovar.

Amcham: Quais são os desafios que o Brasil precisa superar para se tornar mais competitivo?

Kyonglim Choi: A palavra-chave é competição. As políticas atuais buscam estimular as companhias brasileiras, mas no longo prazo creio que medidas desse tipo não vão ajudar muito as companhias brasileiras a se tornarem competitivas. É preciso haver políticas de longo prazo que reduzam gradualmente o protecionismo e exponham o Brasil a mais competição, não apenas no mercado doméstico, mas também no internacional.

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Amcham: Como os governos podem criar um ambiente mais favorável às indústrias?

Kyonglim Choi: Políticas públicas são muito importantes para definir recursos financeiros e diretrizes de longo prazo. Porque, se não se criar um ambiente competitivo, as empresas não se sentirão motivadas nem mesmo por meio de apoio financeiro. Isso é o que acho que está acontecendo, basicamente, no Brasil, com as novas políticas que pretendem ajudar a indústria doméstica. O governo anunciou que reduziu impostos para que as companhias invistam mais em tecnologia e inovação. Mas, se não houver motivos comerciais para inovar (demanda aquecida e público consumidor), não acho que as companhias se esforçarão o suficiente.

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Amcham: Durante sua apresentação, o sr. mencionou a importância de tratados de livre comércio. Como acordos dessa natureza podem impulsionar o fluxo comercial brasileiro?

Kyonglim Choi: (A forma como são feitos os acordos) Realmente não importa. Se pudéssemos fazer um acordo bilateral apenas com o Brasil, ficaríamos satisfeitos. Mas, no momento, o Brasil não pode fechar tratados de comércio individualmente, tem que fazer junto com os demais membros do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai). Esperamos que o bloco decida fazer tratados de livre comércio ou outra forma de acordo com a Coreia.

Amcham: Que tipo de oportunidades econômicas podem ser mais bem exploradas por Brasil e Coreia?

Kyonglim Choi: As oportunidades são amplas. Mesmo a Coreia sendo um país pequeno no aspecto territorial, ela é grande do ponto de vista econômico. Nosso país é a 15ª maior economia do mundo, temos uma população de quase 50 milhões de habitantes e importamos muitos produtos. Há espaço para as companhias brasileiras atuarem no mercado coreano.

Amcham: Em um cenário mundial de enfraquecimento dos países ricos e ascensão dos emergentes, como o Brasil pode se posicionar?

Kyonglim Choi: Há duas tendências distintas hoje no mundo, que se combinam. A primeira é a divisão global do trabalho (especialização produtiva), e a segunda é uma maior abertura e liberalização do mercado. Os países podem focar em áreas em que têm vantagem comparativa, então vemos algumas nações focadas em certas indústrias que suprem produtos para indústrias estrangeiras. Essa divisão global do trabalho está aumentando a eficiência da produção em todos os países. Acho que é importante para o Brasil participar dessa divisão, de forma a incrementar a eficiência da sua indústria.

Amcham: Que lições o Brasil pode aprender da Coreia sobre educação e inovação?

Kyonglim Choi: O governo coreano estabeleceu um planejamento e fez investimentos suficientes para implementá-lo. Muitos recursos financeiros foram usados na modernização do sistema de educação e melhora da qualificação dos professores. Também investimos muito no apoio a cientistas e pesquisadores, então eles puderam trabalhar junto com a indústria para desenvolver tecnologias importantes.