Brasil tem que definir estratégia comercial antes de fazer acordos, diz Marcos Troyjo

publicado 11/05/2016 10h34, última modificação 11/05/2016 10h34
São Paulo – Professor da Columbia University (EUA) menciona China como potência que cresceu sem integrar blocos comerciais
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Delinear uma estratégia de comércio exterior é mais importante do que fazer tratados globais, argumenta o professor Marcos Troyjo, co-diretor do BRICLab da Columbia University (EUA). “No limite, diria que é melhor ter uma estratégia de inserção global sem acordos do comércio e investimento, do que ter um (tratado) sem estratégia, como é o nosso caso agora”, opina, durante a cerimônia de lançamento do estudo Amcham – Fundação Getúlio Vargas (FGV) ‘Impactos para o Brasil de acordos de livre comércio com EUA e União Europeia’ na segunda-feira (9/5), na Amcham – São Paulo.

Para comparar, Troyjo cita a trajetória de países que se tornaram potências comerciais sem participar de acordos globais de comércio. “Em 2009, a China superou a Alemanha e se tornou a maior exportadora do mundo sem participar de regimes internacionais importantes. E a Coreia do Sul, através da Samsung, começou exportando perucas nos anos 1950 e começo de 1960 para ganhar o hard currency (moeda forte) que facilitaria seu processo de promoção industrial.”

O especialista considera o setor privado “muito ensimesmado” nas discussões sobre comércio exterior, e defende maior envolvimento das empresas e associações empresariais. Para ele, a economia mundial será cada vez mais globalizada e o país não pode evitar sua participação no novo cenário.

“Esses acordos plurilaterais, as novas geografias de comércio, investimento e tantas outras coisas, como padrões de respeito trabalhista, meio ambiente e propriedade intelectual, seguramente vão estar na tela do radar.” Na ausência de tratados globais, ações de promoção comercial são bastante eficazes para conquistar mercados, defende o especialista. “Temos que nos promover comercialmente e atrair investimentos do mundo, seja com acordos ou não.”

Brasil está negociando

Paula Aguiar Barboza, assessora do Departamento de Negociações Internacionais do Ministério das Relações Exteriores (MRE), afirma que o Brasil negocia na quarta-feira (11/5) mais uma rodada do acordo de livre comércio com a União Europeia no âmbito do Mercosul. “Apresentamos uma lista de acesso em bens de 90% do volume de comércio”, detalha.

Em relação a outros blocos internacionais de comércio, Paula comenta que o governo analisa os termos dos acordos do TPP (Parceria Transpacífico, formado por 12 países banhados pelo Oceano Pacífico) e TTIP (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, entre União Europeia e Estados Unidos) para avaliar uma eventual participação brasileira. “Vai ser fundamental estudar a fundo até que ponto os países estão aceitando a flexibilidade dos termos.”

A assessora destaca que estudos como os da Amcham – FGV são importantes para o governo formular políticas de negociação. “Precisamos de estudos sobre que cadeias produtivas priorizar e onde vão gerar mais renda. O estudo setorial é determinante para o negociador, porque é onde ele vai olhar e saber onde deve ser mais ou menos agressivo na negociação. E são vocês, do setor privado, que vão nos dizer.”

Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores e ex-secretário de Comércio Exterior (2007-2011), comenta que o governo precisa se aproximar mais do setor privado. “O Brasil pouco discute qual o impacto do comércio para o seu desenvolvimento atual e futuro. E há uma desconfiança em relação à politica comercial por parte do empresariado, pelo fato de o Brasil ser um país com histórico de ser fechado comercialmente.”

Outro fator de desestímulo é que o governo não tem demonstrado iniciativas de facilitação de comércio. “As empresas querem exportar, mas veem poucos avanços com relação às demandas setoriais, seja em negociações internacionais ou eliminação de barreiras burocráticas ao comércio exterior”, detalha Barral.