Carência de profissionais técnicos é agravada por concorrência entre setores e regiões, diz gerente da Magneti Marelli

por andre_inohara — publicado 25/07/2011 11h07, última modificação 25/07/2011 11h07
Campinas – Crescente opção dos jovens pelo empreendedorismo também acirra disputa por mão de obra.
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As empresas do setor metal-mecânico da região de Campinas estão sentindo a falta não só de engenheiros, mas de profissionais de nível técnico, como soldadores. O problema é agravado pela grande disputa por profissionais também por parte de empresas de outras regiões, pelo interesse despertado por segmentos concorrentes e pelo crescimento da opção pelo empreendedorismo entre os recém-formados, explica Waldyr Faustini, gerente de Recursos Humanos da Magneti Marelli.

Para ele, que participou do seminário Competitividade Regional em Campinas nesta terça-feira (26/07), as iniciativas para atrair e formar engenheiros ainda são insuficientes, e é preciso novas ações para enfrentar essa realidade, envolvendo empresas, academia e setor público.

Acompanhe os principais trechos da entrevista que Faustini concedeu ao site da Amcham:

Amcham: Em que setores ou funções a falta de mão de obra qualificada é mais crítica para o setor na região?
Waldyr Faustini:
De um modo geral, as empresas do setor metal-mecânico têm dificuldades na atração de mão de obra técnica especializada, como engenheiros, tecnólogos e técnicos. Na Magneti Marelli, também há uma necessidade grande de soldadores.  Além disso, precisamos de gente de manutenção técnica. Essas são as classes de profissionais em que enfrentamos maior nível de dificuldade de atração e preparação. O interesse dos jovens foi reduzido pela competição de outras áreas de trabalho com bom ingresso profissional. Em início de carreira, um chef de cozinha pode ganhar tanto quanto um engenheiro.

Amcham: Como suprir essa carência?
Waldyr Faustini:
Na primeira quinzena de julho, houve uma reunião da Região Metropolitana de Campinas para discutir uma iniciativa pública de abrir 33 cursos profissionalizantes. Uma Parceria Público-Privada (PPP) de mão de obra é uma das respostas que se pode dar ao problema.

Amcham: E no caso específico dos engenheiros?
Waldyr Faustini:
No caso de engenheiros, sua preparação leva anos nos bancos da faculdade, e depois eles têm de se adaptar dentro de cada empresa. É muita especificidade de treinamento. Se as universidades fizessem mais parcerias com empresas e vice-versa, poderíamos direcionar mais os cursos e esses profissionais poderiam responder mais rapidamente ao que as empresas esperam. Empresas e governo estão caminhando juntos, o que força um pouco a aproximação, e estamos melhores do que há alguns anos. Mas as iniciativas ainda não são o suficiente. Se a economia continuar com um ritmo de crescimento de 4% a 5% ao ano e não tomarmos as devidas ações agora, esse problema aumentará.

Amcham: Que exemplos de parceria entre empresas e instituições poderiam ser seguidos?
Waldyr Faustini:
Ainda há grande burocracia e resistência. A maioria das universidades públicas não trabalha com donativos e dinheiro da indústria privada. Em alguns casos, as universidades parecem considerar pecado receber dinheiro da iniciativa privada para montar laboratórios ou outra estrutura. Mas estamos tendo um primeiro lampejo de parceria na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Cerca de 25% de seu orçamento virão da iniciativa privada, porém isso é algo muito embrionário ainda.

Amcham: Em curto prazo, o que as empresas estão fazendo para suprir suas necessidades de mão de obra especializada?
Waldyr Faustini:
No caso de um soldador, um bom profissional leva cerca de um mês para dominar as técnicas, e mais seis para desenvolver experiência.  Estamos formando soldadores em parceria com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem da Indústria). Internamente, tentamos tornar essa atividade mais atrativa para as pessoas com um trabalho de remuneração e compensação, porque não dá para fugir disso. Por outro lado, existem as profissões concorrentes. Aqui na região de Campinas, tanto os operadores de produção como de máquinas conseguem ter salário próximo ao de um soldador, com a vantagem de que eles não têm o desconforto de usar um EPI (Equipamento de Proteção Individual), pois a temperatura a que estão submetidos não é tão alta.

Amcham: Como estão lidando com essa concorrência?
Waldyr Faustini:
Trouxemos uma unidade móvel do Senai há seis meses para preparar novos soldadores e aperfeiçoar os que já temos. Com isso, devemos atingir, em mais algumas semanas de curso, um número acima do que precisamos. No médio e longo prazos, a indústria de autopeças precisa trabalhar em conjunto. Todos os concorrentes deveriam praticar uma disputa saudável e formar uma aliança junto às instituições de ensino para uma preparação profissional direcionada ao nosso ramo de atividade.

Amcham: Mesmo Campinas sendo um polo acadêmico e tecnológico, há falta de mão de obra qualificada?
Waldyr Faustini:
É preciso considerar que a economia não está mais concentrada no eixo Rio-São Paulo. O engenheiro que se forma aqui em Campinas é disputado não só pela região, mas também na Grande São Paulo, no polo de Camaçari (Bahia) e em Curitiba. E existe um fator interessante e saudável, que é o de as instituições estarem ensinando empreendedorismo. Os jovens universitários estão montando as próprias empresas, e isso também é uma disputa de vagas. Aqui, tivemos o caso de um engenheiro que saiu para montar a própria empresa. Precisávamos de seus serviços, mas agora a vaga dele está em aberto.