Com piora do cenário externo, BC tende a ser mais cauteloso para subir taxa de juros

por andre_inohara — publicado 19/07/2011 17h32, última modificação 19/07/2011 17h32
André Inohara
São Paulo – Octavio de Barros, diretor de Pesquisa Macroeconômica do Bradesco, acredita que indefinição da situação fiscal dos EUA e da Europa pode adiar alta da Selic. Ele também considera que calote americano é improvável.
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Além de monitorar a inflação, o Banco Central terá de avaliar também os desdobramentos da situação fiscal nos Estados Unidos e na Europa para decidir o futuro da política monetária.

Para Octavio de Barros, diretor de Pesquisa Macroeconômica do Bradesco, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve elevar a taxa básica em 0,25 ponto percentual na reunião da próxima quarta-feira (20/07) e decidir se continua subindo a taxa em agosto ou outubro, levando em consideração a evolução do cenário internacional.

Veja a seguir a entrevista que Barros concedeu ao site da Amcham nesta terça-feira (19/07), quando participou do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo:

Amcham: Como a situação fiscal nos Estados Unidos (que discutem o novo teto de endividamento público) e na Europa afeta a economia do Brasil?

Octavio de Barros: Impacta na medida em que o cenário é de muita incerteza em relação ao crescimento americano e europeu. Com isso, a liquidez internacional se manterá bastante elevada, e as taxas de juros dificilmente voltarão à normalidade no horizonte de curto a médio prazo. Essa abundância de recursos implicará em uma moeda brasileira valorizada, o que trará efeitos na expansão do crédito no Brasil. É como se a política monetária fosse indiretamente afetada pela liquidez internacional, que no fundo é decorrente da crise mundial.

Amcham: Falando na situação fiscal americana, o que deve acontecer?

Octavio de Barros: Há dois componentes para se analisar essa situação. Um é político e o outro, econômico. A situação fiscal americana se deteriorou muito com a necessidade do país de superar a crise no seu momento mais agudo (2009), e isso acabou tendo implicações. A economia americana terá de fazer um importante ajuste nos próximos cinco ou dez anos, afetando a perspectiva de crescimento.

Amcham: E ainda há que se considerar o componente da eleições...

Octavio de Barros: Ocorre que, com as eleições de 2012, os republicanos (partido de oposição) acabam esticando um pouco a corda, quando exigem que alguns programas sociais importantes para o presidente Barack Obama (como a saúde pública, além da intenção de taxação maior dos ricos) sejam cortados. Essas são algumas implicações políticas, mas tenho a impressão de acabará prevalecendo o bom senso em relação ao aumento do teto da dívida, até porque o cenário de calote americano é uma coisa próxima do improvável. Nem o mais radical dos republicanos advogaria isso, e o foco de tensão é nos cortes de gastos que se concentram exatamente nas bandeiras eleitorais do presidente Obama.

Amcham: No Brasil, o que podemos esperar em termos de política monetária?
Octavio de Barros:
Qualquer especulação será em relação a agosto, porque na reunião de julho do Copom está praticamente decidido que a taxa de juro será aumentada em 0,25 ponto percentual. O desafio é se teremos um novo aumento em agosto ou outubro, porque tudo dependerá do comunicado do BC na quarta-feira e a Ata do Copom da semana posterior. Nossa visão é que o agravamento do cenário internacional pode fazer com que aumente a possibilidade de que esse ciclo de alta possa ser interrompido.

Amcham: Diante da incerteza do cenário internacional, o BC tende a ser mais cauteloso?

Octavio de Barros: O episódio da crise de 2008 foi muito didático. Não estou sugerindo que a crise atual tenha a amplitude e gravidade daquela época, mas a impressão que tenho é que a tese de cautela prevaleça, com o BC observando melhor o cenário externo, em vez de necessariamente aumentar os juros em agosto. Mas o BC provavelmente está numa encruzilhada. Ou ele leva em consideração o tema externo ou se concentra apenas na inflação.