Economia e política em 2019: quais são as previsões dos especialistas que estiveram na Amcham

publicado 07/03/2019 11h09, última modificação 07/03/2019 14h32
Brasil – Analistas avaliaram Reforma da Previdência e Tributária, cenário econômico externo e composição de forças no governo Bolsonaro
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Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, em encontro Amcham Brasil em São Paulo

Em 2018, o PIB do Brasil cresceu 1,1% - o mesmo tanto de 2017, segundo a estatística oficial do IBGE. Esse resultado, apesar de estar longe do verdadeiro potencial da economia brasileira, mostra que o país parou de retroceder. O ano de 2018 também foi importante na política: elegemos um novo presidente, Senado e Congresso, que terão o grande desafio de, nos próximos quatro anos, colocar o país de volta na rota do crescimento.

É difícil prever o que acontecerá nos próximos quatro anos – mas, para o empresariado, é importante entender quais são as complexidades do cenário interno e externo que podem afetar a economia e os negócios do país.

Durante o mês de fevereiro, a Amcham recebeu diversos especialistas que compartilharam suas perspectivas para 2019. Veja abaixo o que os grandes especialistas que passaram por aqui estão pensando para os próximos meses:

 

Cenário Internacional

Durante o Comitê Estratégico de Diretores Comerciais em São Paulo (13/02), Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências Consultoria, lembra que o cenário econômico internacional é muito desafiador e que a economia mundial sofre uma desaceleração. Um dos principais motivos para isso é a guerra comercial entre Estados Unidos e China, além da desaceleração do crescimento chinês. Mesmo assim, ela cita que um maior cuidado com o endividamento por parte dos governos e a queda na liquidez internacional são pontos positivos.

“Apesar dos riscos e desafios, podemos ter, no final das contas, algo que nos beneficia. O mundo que cresce menos de um lado, mas com condições financeiras um pouco mais folgadas do que antes”, comenta Ribeiro.

 

Governabilidade moderada

Para a especialista, a governabilidade de Bolsonaro ainda é um ponto sensível, já que foge dos modelos de coalizão que eram construídos por outros presidentes. Mesmo assim, ela acredita que será o suficiente para encaminhar a agenda fiscal, prioridade do governo.

Outro ponto que deve facilitar a aprovação da agenda é a reeleição de Rodrigo Maia para presidente da Câmara – alguém bem articulado dentro do Congresso e que ajudou a aprovar medidas importantes no governo Temer. A eleição de Davi Alcolumbre para o Senado também foi algo positivo na perspectiva de Ribeiro – tanto Maia quanto Alcolumbre são do mesmo partido (DEM), o que deve facilitar a articulação entre as Casas.

O consultor Thiago Vidal, gerente de análise política da Prospectiva, avalia que o governo Bolsonaro é formado por quatro grupos: dos economistas, militares, políticos e conservadores. “É uma visão sistêmica que ajuda a entender como o governo funciona”, argumenta, no comitê estratégico de Líderes Empresariais, em 21/2.

Os economistas e os militares são os principais pilares, avalia. “O grupo de Guedes é mais coeso que o de Temer”, disse. Já o dos políticos é formado por parlamentares que serviram a outros governos. “Há políticos do DEM e MDB. Lorenzoni, Chefe da Casa Civil, é de partido tradicional”, exemplifica. “Chama a atenção, porque não há uma negação da estrutura política que ele havia prometido na campanha. E não é uma crítica, porque mostra o que se pode esperar em termos de agenda”, disse.

O quarto grupo é formado por especialistas que defendem uma agenda mais conservadora. Como exemplo, cita o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares  Alves. É um grupo com menos influência junto a Bolsonaro, segundo Vidal.

“A agenda conservadora de costumes não vai prevalecer no início, porque pode ofuscar agenda econômica. E o que ancora as expectativas do governo é a agenda econômica.”

 

Abertura comercial e privatizações

Para Vidal, da Prospectiva, o governo deu indicações de que pretende trabalhar em um amplo acordo de abertura comercial com os Estados Unidos. “Bolsonaro e Guedes (Ministro da Fazenda) indicaram que não querem fazer uma abertura tão rápida quanto prometeram e o Custo Brasil é o principal componente dessa decisão. Mas vai haver preparação de uma abertura comercial sem precedentes. O que, na minha avaliação pessoal, é positivo”, disse.

Em relação às privatizações, Vidal não se mostra tão confiante. Vai haver muito debate no Congresso sobre quais estatais podem ser vendidas sem projeto de lei. “Isso vai retardar um pouco o processo. A Eletrobrás, por exemplo, é um dos casos onde se vai discutir a necessidade de um projeto de lei. Mas as suas distribuidoras devem ser vendidas sem maiores polêmicas”, afirma.

Além disso, vender ativos do estado não vai garantir muito caixa, acredita. “Muitas empresas públicas são deficitárias. O que vai dar dinheiro é o esvaziamento do BNDES, com a venda do BNDESPar. É na venda da participações do banco que estão as melhores oportunidades de fazer dinheiro.” Algumas das empresas que a BNDESPar tem participação acionária são a Fibria, Petrobras, Eletropaulo, Embraer, Vale e Eletrobrás.

 

E a Reforma Tributária?

Em pesquisa feita na Amcham em fevereiro com mais de 550 executivos, quase metade (48%) das pessoas colocou a simplificação e redução da carga tributária como a medida mais importante para aumentar a competitividade da economia brasileira. O item ficou à frente de opções como atração de investimentos e desburocratização, por exemplo. O levantamento mostrou a urgência do tema, também abordado durante o Comitê de Tributação em São Paulo (27/02).

Durante o encontro, Evany Oliveira, Diretora de Tax na PwC, afirmou que, pelo menos neste ano, não haverá uma ampla reforma tributária no país. No entanto, ela percebe que há uma vontade dos governos Estaduais e do Federal em reformar o ICMS.

“Sinto a possibilidade de alguma mudança acontecer em função de reuniões em que participei com representantes das Secretarias das Fazendas dos Estados, para falar da simplificação tributária. Eles colocaram que o ICMS está velho, não está eficaz do ponto de vista de arrecadação e que é complexo do ponto de vista do contribuinte. Pelo menos desses representantes, senti o desejo de mudança”, relatou. A especialista também colocou que a recente reforma nos tributos corporativos nos EUA pode inspirar medidas similares aqui no Brasil.

Para Edison Fernandes, sócio do FF Law e colunista do Valor Econômico, o foco do governo agora é no controle da despesa pública – ou seja, todas as atenções estão voltadas para a Reforma da Previdência. “Antes da Reforma da Previdência, não vejo nenhuma discussão tributária no horizonte, até porque ainda não existe um projeto do governo. O que vem em termos de reforma tributária? Por enquanto, nada. A partir da previdência, discutiremos outras coisas”, analisa.

O colunista enxerga que algumas medidas menores, que não dependem tanto do governo Federal, devem sair, como a unificação do PIS e Cofins, e a tributação de dividendos. Sobre a alíquota de dividendos, ele faz um alerta: “Hoje, se eu faço transação na bolsa, meu imposto é 15%. Se colocar imposto sobre dividendos, Pessoa Jurídica ou investimento acima desse valor, eu, que tenho dinheiro, vou abrir um negócio ou especular na bolsa? Vou especular na bolsa. Isso tem que ser considerado para formular a alíquota”, indica.