Economista diz que 2012 é ano de cautela para as empresas

por giovanna publicado 15/02/2012 18h52, última modificação 15/02/2012 18h52
São Paulo – Com crise na Europa e nos EUA, quem está no limite da capacidade produtiva para atender o mercado interno deve investir, afirma Zeina Latif.
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Cautela é a palavra usada pela economista Zeina Latif para falar sobre 2012. O ano não deve ser de retração econômica como ocorrera em 2009, tampouco de forte desaceleração como em boa parte de 2011. Mas tanto as empresas quanto os governos devem priorizar o bom momento da economia brasileira para investir, focando o mercado interno.

Zeina participou nesta quarta-feira (16/02) do comitê estratégico de Marketing na Amcham-São Paulo que debateu as previsões e os cenários econômicos para este ano. Para ela, o “crescimento do Brasil será mais modesto” em 2012, porque o mundo vai crescer menos. “Há mais volatilidade e incerteza”, afirma.

Zeina diz que o atual ciclo de desaceleração da economia mundial “é diferente do anterior”, na medida em que a crise se intensifica na Europa e apresenta alívios nos Estados Unidos. Ela considera que a crise na Europa deve piorar se medidas conjunturais não saírem do plano dos debates. Nos EUA, o cenário é um pouco menos perigoso, muito embora o desemprego ainda preocupe – em janeiro, a taxa diminuiu para 8,3%, a menor desde 2008, após ficar perto dos 10%, no final de 2009.

“E achar que a China vai ser a solução de todos os males é uma visão ingênua”, critica. Por isso as empresas brasileiras têm que planejar e manter seus investimentos buscando melhorar a competitividade no mercado interno. “As empresas têm, sim, que manter seus investimentos, principalmente os setores que estiverem com o uso da capacidade elevada.”

Para 2012, a economista aposta em uma combinação de juros e inflação em queda – a taxa Selic deve fechar o ano entre 9,5% e 9,75%, enquanto o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) tende a ficar perto de 5%. A desaceleração econômica, segundo Zeina, deve fazer o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro crescer “mais próximo de 3%”, enquanto o governo aposta em algo na casa dos 4,5% e os analistas de mercado, em 3,3%, segundo o boletim Focus mais recente divulgado nesta segunda-feira (13) pelo Banco Central.

Veja os principais trechos da entrevista com Zeina Latif:

Amcham: O que a sra. espera para o Brasil e outras grandes economias em 2012?
Zeina Latif:
Temos ainda muitas incertezas no cenário internacional. Certamente este ciclo econômico mundial é de menor crescimento, com mais incertezas e desequilíbrios criados pela crise financeira e pelo alto endividamento dos países. Isso limita o potencial de crescimento do mundo. A China teve um papel central no ciclo econômico anterior e certamente isso deve se repetir. Mas é importante lembrar que o país está em um processo de desaceleração, ainda que suave, e que essa contribuição não terá a mesma intensidade do passado. Achar que a China vai ser a solução de todos os males é uma visão ingênua. Se nos anos passados o crescimento mundial deu suporte ao crescimento brasileiro, esse componente já foi e agora essa contribuição será menor. Teremos ganhos de produtividade, mas serão mais modestos. No caso do Brasil, mesmo que haja setores com grande potencial de investimentos, não teremos grandes reformas se materializando, muito menos pequenas reformas.


Amcham: O que seriam essas reformas? Poderíamos incluir desde mudanças de encargos trabalhistas para desafogar as empresas até desonerações de impostos para os consumidores, por exemplo?
Zeina Latif:
Temos um leque enorme. Pensar em reformas menores é reduzir a burocracia da economia e facilitar investimento público, passando por questões regulatórias. Penso em mudanças mais profundas em termos de uma reforma tributária. É fato que ainda estamos colhendo frutos de reformas passadas e de mudanças institucionais, mas também não temos muito mais a colher daqui para a frente. Não dá para dizer que teremos um cenário ruim. Não é isso. Mas é importante ter cautela. Os investidores precisam entender que esse ciclo é diferente do anterior.


Amcham: Diferente no sentido em que há otimismo do empresariado e do consumidor, mas, ao mesmo tempo, o crédito continua escasso?
Zeina Latif:
Essa questão do crédito é importante: lá fora, o apetite para emprestar diminuiu. Ainda que tenhamos fluxo de capital para o Brasil, não necessariamente ele estará voltado a investimentos. Mesmo internamente, existe limite para o crescimento do crédito. A construção civil é um setor em que o crédito é baixíssimo, com muito espaço para crescer. Ainda que o mundo tenha uma abundância de liquidez, não significa que veremos um aumento de crédito mundo afora ou no Brasil. E tampouco que esse crescimento do crédito será orientado para o investimento. Hoje, o Brasil precisa mais de investimentos e menos de consumo. Há ainda o cenário de Basileia III [que vai intensificar a regulamentação dos bancos, restringindo o capital e aumentando garantias financeiras de fundos dessas instituições], com novas regras para os bancos no Brasil e no exterior. A Europa debate regras mais apertadas para evitar o endividamento dos países. Há indefinições na economia e na política nos Estados Unidos.


Amcham: Do ponto de vista das empresas, como lidar com essa necessidade de mais investimento e de menos consumo?
Zeina Latif:
Cada segmento requer estratégias diferentes conforme a exposição a três variáveis-chave: a dependência das exportações, a importância do mercado doméstico e a concorrência com os importados. O setor de commodities, por exemplo, embora dependa de exportações, continua blindado pelos preços internacionais. Ainda que os preços deixem de subir de forma agressiva, continuam elevados. Por outro lado, o comércio mundial não tem crescido. O indicador de comércio internacional tem andado de lado. Não vejo exportações com uma dinâmica tão favorável, principalmente no setor de manufaturados. Se olharmos para as commodities, a China tem um peso importante para o Brasil, mas para manufaturados, os negócios são bem moderados. O setor que concorre com a China vai continuar amargando com câmbio valorizado. Com esse fluxo de capital que vem para o Brasil, o câmbio, ainda que não teste de novo os patamares de US$ 1 valer R$ 1,60, ficará abaixo do suposto equilíbrio de longo prazo. Em compensação, para as empresas ligadas ao consumo interno, o cenário é positivo. É hora de as empresas manterem seus investimentos, principalmente os setores que tiverem com o uso da capacidade elevada. Quem opera com baixa ociosidade, se postergar investimento, corre o risco de perder market share. E recuperar esse espaço perdido pode ser custoso. E o que temos visto é que não tem havido um aumento generalizado nos indicadores de investimentos. Alguns setores específicos lideram esses processos. Alguns setores vão continuar sentindo o comércio mundial fraco e o impacto do câmbio que acelera as importações e acaba impedindo o crescimento da indústria de forma mais rigorosa.

Amcham: Como devemos olhar para os sinais de recuperação da economia dos EUA?
Zeina Latif:
Ainda com alguma desconfiança. Acho razoável esse descolamento dos EUA da zona do euro. Deixar a área de exposição à dívida europeia dá sustentação a uma recuperação. Os EUA são uma economia jovem com capacidade de ganhos de produtividade e cujos bancos estão em uma situação mais confortável do que os bancos europeus. Apesar disso, há questões estruturais que precisam ser endereçadas e não vejo uma agenda política ambiciosa, ainda mais porque é um ano de eleição. O maior risco é que há limites ao crescimento do emprego. É possível que a economia americana continue crescendo abaixo de seu potencial porque não há tanto espaço para um crescimento acelerado na contratação de mão-de-obra. Aproveitar a mão de obra gera um efeito na economia como um todo, com reflexos no mercado imobiliário, setor que continua muito deprimido. Um lado desse mercado pode se destravar pelo lado do crédito, mas ainda há desconfiança do lado do mercado de trabalho.

Amcham: O presidente Barack Obama anunciou que vai facilitar a concessão do visto para os cidadãos brasileiros que querem ingressar nos EUA. É no sentido de incentivar o consumo que o país tem feito esse esforço para voltar a atrair turistas brasileiros?
Zeina Latig:
Com certeza. Mesmo que haja um mercado de trabalho que vem melhorando em um ritmo lento, a renda e a massa salarial estão praticamente estagnadas. O consumo é um motor importante daquela economia, então, se não cresce no âmbito doméstico, que seja no estrangeiro.


Amcham: Quais suas previsões para o Brasil no que diz respeito a PIB, inflação e juros para este ano?
Zeina Latif:
Para o PIB, devemos ter algo mais próximo de 3%. Há um consenso de mercado que está um pouco acima disso. Mas vejo algo nesse intervalo de, no máximo, 3,5%. Para a inflação, há uma chance de vermos os preços convergindo para a casa de 5% no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Quanto aos juros, estou seguindo o que o Banco Central tem sinalizado, de uma taxa de um dígito, mesmo com o risco de ter que subir de novo mais adiante. Acho que consegue fechar o ano em 9,5% a 9,75%.