Educação financeira da população é grande gargalo da economia do país, aponta Gustavo Cerbasi

publicado 11/09/2014 15h37, última modificação 11/09/2014 15h37
Campinas- Consultor e autor “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos foi o convidado especial do Amcham Business Day
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Convidado especial do 12º Amcham Business Day Campinas, no dia 4/9, o consultor Gustavo Cerbasi, economista e escritor de “Casais Inteligentes Enriquecem Juntos” apresentou uma análise do atual cenário econômico do país.

Para Cerbasi, a desaceleração e ameaça de crise financeira no Brasil, é resultado de uma falta de educação da sociedade em geral. Na visão dele, se o brasileiro fosse educado a consumir de forma correta, muitos dos problemas que enfrentamos hoje no cenário econômico, poderiam ser minimizados e até mesmo evitados.

Em entrevista para a Amcham Campinas, Gustavo Cerbasi aponta quais os melhores caminhos para melhorar a economia, desde a pessoal até a profissional, quais são os principais gargalos da economia brasileira, e diz ainda que enriquecer é uma questão de disciplina.

Amcham: As pessoas veem o lucro como algo ruim, como se ele fosse uma “maldade capitalista”, a que se deve esta visão?

Gustavo Cerbasi: A condenação do lucro é resultado da falta de educação financeira e empreendedora na sociedade moderna no Brasil e em muitos outros países. É fundamental entender que qualquer empreendimento, seja ele com fins lucrativos ou não, é uma reunião de capital e de esforços e que a obtenção de excedentes financeiros é essencial para que sua causa possa se expandir, na forma de investimentos contínuos. Sem lucros (ou sem superávit, quando tratamos de instituições filantrópicas ou do Estado), a capacidade de uma organização alcançar seus objetivos mantém-se limitada. O que eu considero maldade mesmo é a visão socialista que condena a meritocracia e desestimula a criatividade e a evolução da sociedade.

Amcham: Porque os brasileiros tem este “vício” de compras à prazo ? E como isso prejudica o cenário econômico geral?

Gustavo Cerbasi: O vício é, na verdade, um hábito que se enraizou nos tempos de inflação elevada, quando os preços mudavam rapidamente e a regra de sobrevivência era comprar tudo que fosse possível, o quanto antes. Nessa época, maus hábitos como a compra em quantidade nas promoções, a compra parcelada para garantir preços e a urgência em comprar sem pesquisar foram adquiridos pela população e se consolidaram durante duas décadas de instabilidade econômica. Hoje, mesmo aqueles que eram jovens nos tempos de hiperinflação mantêm os hábitos aprendidos com seus familiares simplesmente porque não questionam se há outras escolhas mais produtivas. O prejuízo para a economia é grande, por orçamentos engessados dificultam a administração de imprevistos e levam as famílias às dívidas. Outros se endividam simplesmente porque não percebem que boa parte do dinheiro que falta na conta está parado na despensa da cozinha, no tanque de combustível do carro e em outras incontáveis compras feitas em quantidade que ainda não proporcionaram aproveitamento. Seria bem mais saudável para a economia e para as famílias comprar com mais frequência e em quantidades menores.

AMCHAM: No atual cenário de incertezas políticas e econômicas, qual o tipo de investimento mais seguro para quem deseja fazê-lo?

Gustavo Cerbasi: Sob neblina, devemos usar luz baixa. Em cenário de incertezas, não somente especialistas devem fazer novos investimentos com foco no longo prazo. O ideal é investir em produtos de renda fixa, que trazem boa rentabilidade com os atuais juros elevados, mas optar por aqueles com boa liquidez, pois a turbulência traz também oportunidades, tanto de investimento quanto de bons negócios nas compras à vista.

AMCHAM : Você disse durante a palestra que “para enriquecer as pessoas devem gastar”, mas como deve ser aplicado este gasto?

Gustavo Cerbasi: A questão não é gastar, mas sim gastar com mais qualidade. O processo de enriquecimento exige disciplina, e não existe disciplina quando não há motivação. Aqueles que cortam dezenas de pequenos gastos com cuidados pessoais e hábitos de lazer para conseguir poupar não conseguirão manter a disciplina por muito tempo. Já aqueles que gastam mais com qualidade de vida e lazer, mesmo que optando por uma moradia ou por um carro mais simples, encontrarão maior sentimento de realização em suas escolhas, fortalecendo a disciplina da poupança. Além disso, lazer e cuidados pessoais tendem a ser gastos pontuais, poucas vezes parcelados, o que diminui o engessamento dos orçamentos e permite que as famílias lidem melhor com gastos imprevistos, sem ter que atacar as reservas financeiras.

AMCHAM: Porque a poupança não é o  melhor investimento para quem deseja enriquecer?

Gustavo Cerbasi:  Porque diversos outros tipos de investimento oferecem rentabilidade superior com praticamente o mesmo nível de risco, destacando-se fundos de renda fixa e títulos públicos e, para maiores valores, CDBs, LCAs e LCIs.

AMCHAM: Como uma pessoa mais leiga nas finanças pode desenvolver o olhar analista? Existem ferramentas básicas?

GUSTAVO CERBASI: O aprendizado é o caminho. A primeira iniciativa que recomendo é conversar mais sobre dinheiro com pessoas próximas, para que se tenha com quem debater dúvidas, reflexões e oportunidades. Além disso, a leitura de livros (recomendo os meus em www.maisdinheiro.com.br/livros), a inscrição em cursos e a participação em eventos de educação financeira aceleram bastante o entendimento das armadilhas e ajudam a melhorar a qualidade das escolhas em todos os tipos de decisões financeiras.