Efetividade do Compliance passa por transformar ética em valor e cultura de negócio, diz executivo da GM

publicado 22/08/2017 11h14, última modificação 22/08/2017 13h16
São Paulo – Para Ricardo Cabral, diretor de compliance, mudança de conduta depende de treinamento e exemplos
Ricardo Cabral

Ricardo Cabral, da GM: um programa eficiente de compliance tem que ser constantemente monitorado e ajustado para cumprir a função de conscientizar e assegurar a transparência da empresa

“Quando o colaborador passa a enxergar o comportamento ético como valor, temos uma grande demonstração de que o programa de compliance está sendo eficiente.” A afirmação de Ricardo Cabral, diretor de compliance da General Motors (GM) para o Mercosul, demonstra que o sucesso de um programa de respeito às regras e gestão de riscos vai além do treinamento: ele conscientiza as pessoas.

Cabral foi um dos painelistas do 4º Fórum de Compliance da Amcham – São Paulo na segunda-feira (14/8), junto com Denis Cuenca, diretor de riscos, compliance e auditoria do Grupo Ultra, Odair Oregoshi, diretor de gerenciamento de riscos, controles e compliance da Movida, e Ana Cristina Freire, diretora de compliance da construtora Queiroz Galvão. Antonio Gesteira, sócio de tecnologia forense da KPMG, moderou as discussões.

A GM, Ultra e Movida revelaram que o investimento em conscientização é prioridade quando se trata de compliance, enquanto a Queiroz Galvão abordou a importância da melhoria dos processos de gestão de risco.

Para atestar a eficiência dos programas de compliance, a GM acompanha os dados extraídos de indicadores de desempenho e pesquisas organizacionais. O trabalho é feito em parceria com outras áreas, como RH e auditoria.

Alguns cruzamentos de dados são decorrentes de pesquisas de percepção do ambiente de trabalho com resultados do canal de denúncia. Até entrevistas demissionais são analisadas para averiguar se a saída do colaborador foi influenciada por algum aspecto fora do compliance. “Temos que construir análises para criar modelos de enfrentamento de situações de risco”, argumenta Cabral.

No Grupo Ultra, o programa de compliance é baseado nos pilares instrumental e comportamental. Enquanto a primeira é ligada a controles, processos e registros, a segunda diz respeito a treinamento e conduta pessoal dos colaboradores.

“A parte instrumental é mais fácil de medir, mas quando se trata de influenciar comportamentos, muitas vezes é preciso quebrar resistências. E a liderança também precisa mostrar com ações que está comprometida com a causa de compliance”, detalha Cuenca.

Influenciar o comportamento ético nos negócios também envolve os parceiros, de acordo com o executivo. Com fornecedores, a diretriz da Ultra é atuar dentro dos procedimentos comuns de compliance da cadeia. “Não dá para auditar o compliance da Petrobras [fornecedora de gás e outros insumos]. Mas procuramos estabelecer formas de atuar dentro do comportamento ético”, exemplifica.

A relação com os donos de postos de combustíveis da marca Ipiranga também exige cuidados. “Se aquele parceiro produzir alguma fraude, a empresa acaba sendo envolvida”, ressalta Cuenca. A forma encontrada foi investir

pesado em comunicação e treinamento. “Temos limites estabelecidos em contrato, mas o desafio é espalhar a cultura de compliance para toda a cadeia.”

Para a Movida, o treinamento é a forma de educar e conscientizar os sete mil funcionários da companhia. “Temos uma cobrança rigorosa sobre treinamento e acompanhamento do canal de denúncias. Isso é parte do nosso compromisso em dar o exemplo e mostrar aos colaboradores que estão em um ambiente ético é saudável”, detalha Oregoshi.

Um dos focos da Construtora Queiroz Galvão em melhorar o compliance é reforçar os procedimentos de controle e gestão de riscos. Neste ano, a construtora recebeu as certificações internacionais ISO 37001 (para sistemas de gestão antisuborno) e ISO 19600 (compliance) na empresa. Além disso, Freire destaca que o mapeamento de riscos tem que ser muito rigoroso. “Temos diretrizes específicas para relacionamento e procedimentos com agentes públicos”, destaca Freire.