Eficiência do setor agrícola é afetada por infraestrutura antiga e falta de políticas de escoamento de produção

por andre_inohara — publicado 25/11/2011 17h36, última modificação 25/11/2011 17h36
André Inohara
Brasília – Eficiência do setor é afetada por infraestrutura deficiente e falta de políticas de escoamento de produção.
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A tecnologia avançada de plantio e o clima favorável tornam a agricultura brasileira uma das mais competitivas do mundo. No entanto, a eficiência do setor é ofuscada por estradas em más condições e portos sobrecarregados e carentes de modernização, além da falta de políticas claras de produção agrícola.

“A infraestrutura logística é a questão básica e fundamental (para o agronegócio). O Brasil não tem hoje um plano de escoamento de safra. Não existe uma estratégia de governo para isso. Há apenas algumas medidas esparsas”, disse o deputado federal e ex-ministro da Agricultura (2007-2010) Reinhold Stephanes (PSD-PR), em participação em seminário do programa “Competitividade Brasil – Custos de Transação” da Amcham realizado na quinta-feira (24/11) em Brasília.

Com isso, o País se vê sem nenhuma estratégia sobre os melhores caminhos e formas de levar a produção de determinado Estado aos terminais portuários.

A existência de um plano de escoamento de produção ajudaria a corrigir os gargalos de infraestrutura logística, que está obsoleta. Faltam investimentos em ampliação da capacidade dos portos e da malha de transportes, especialmente o ferroviário, para transportar a produção. “É claro que tudo isso recai nos custos de produção e, consequentemente, na renda do produtor.”

De acordo com Stephanes, a renda média de mais da metade dos produtores agrícolas brasileiros é pouco mais do que o salário mínimo (R$ 545). “Mesmo sendo eficientes, os produtores têm uma renda extremamente baixa, porque ela se perde no meio do caminho em função dos custos.”

Custos logísticos

O custo de logística agrícola no Brasil é o dobro do verificado nos Estados Unidos, comaparou Paulo Resende, diretor da Fundação Dom Cabral e mediador do painel. “Enquanto o custo de logística agrícola nos EUA é de 8% sobre o Produto Interno Bruto (PIB) agrícola, no Brasil ele ultrapassa 16%”, revelou.

Se o Brasil investisse cerca de US$ 35 bilhões por ano em corredores logísticos eficientes (portos, ferrovias e outros) ao longo da próxima década, a agricultura responderia em eficiência competitiva. “Isso reduziria os custos em cerca de US$ 420 bilhões. Em relação aos US$ 350 bilhões investidos, seriam US$ 70 bilhões de superávit. Aplicamos menos de US$ 1,5 bilhão, cerca de 5% do necessário.”

O professor salienta que o Brasil vive hoje um descolamento entre o que se verifica na área de infraestrutura e a economia como um todo, o que significa um grande perigo em termos de competitividade.  “O Brasil está posição de exceção entre as dez maiores economias do mundo e é o único que aparece acima da 20ª posição (82ª colocação) em infraestrutura no ranking do Fórum Econômico Mundial”, pontuou.

Fretes mais caros no Brasil

No Brasil, a processadora americana de alimentos Cargill costuma pagar três a quatro vezes a mais pelo frete decorrente do transporte de produção de soja e milho do que nos Estados Unidos.

“Aqui, o preço médio do frete chega a ficar em torno de US$ 100, enquanto que nos Estados Unidos atinge US$ 25. Na Argentina, nosso concorrente direto, esse custo é de cerca de US$ 35”, disse Paulo Humberto Souza, diretor de unidade de negócios da Cargill.

O custo do frete da safra de fevereiro está sendo negociado a valores ainda maiores. “Sem incluir despesas de portos, o frete entre ferrovia e caminhão para movimentar soja produzida em Sorriso (MT) fica em torno de R$ 260. Em dólares, equivale a US$ 130 ou US$ 140”, revelou Souza.

“Isso é renda que sai do bolso do produtor e que deixa de estar no comércio brasileiro para promover a educação. Em resumo, é ineficiência.”