Empresas brasileiras terão de aumentar a produtividade nos próximos anos

publicado 24/07/2013 17h01, última modificação 24/07/2013 17h01
São Paulo – Setor produtivo precisa de competitividade, já que PIB não deve repetir expansão da última década
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Se os últimos dez anos trouxeram um crescimento econômico a ponto de alçar o Brasil ao posto de sexta economia do mundo, os próximos dez anos não devem repetir o desempenho. Para enfrentar as vacas magras e se tornar competitivo, o setor produtivo tem de aumentar sua produtividade. A afirmação é do diretor do BCG (Boston Consulting Group), Julio Bezerra, durante o Seminário de Produtividade, na Amcham-São Paulo, na quarta-feira (24/07).

Além dele, participaram Laércio Cosentino, presidente da Totvs; Artur Coutinho, vice-presidente Executivo de Operações da Embraer; Dilson Tadeu da Costa Ribeiro, vice-presidente Executivo de Produtos e Negócios da Cielo; Marcelo Bisordi, vice-presidente de Relações Institucionais da Camargo Corrêa; e Afrânio Haag, diretor de Suprimentos do grupo Fleury. Eles comentaram o que seus grupos têm feito para garantir a produtividade.

A recomendação de Bezerra tem origem em um estudo sobre a expansão da economia do Brasil entre 2001 e 2011. A partir de dados públicos, o BCG constatou que a ampliação do consumo, no país, foi responsável por 76% do PIB médio de 3,7% no período, enquanto a produtividade respondeu por 24%.

O percentual é menor do que os verificados em países como a China, em que 93% do crescimento do PIB (que foi de 10,6%, em média), se basearam em produtividade. Na Índia, o crescimento médio de 7,8%, na década, teve 82% de participação. Na Coréia do Sul, com PIB médio de 4,2%, foi de 72%. A produtividade também teve destaque maior nos PIBs do México (60%, em um crescimento de 2,3%), Rússia (40%, em um crescimento de 4,6%) e Chile (30%, em um crescimento de 4,1).

Fatores contra

O problema é que o Brasil não deve ter o mesmo cenário de consumo em alta impulsionando o PIB, nos anos vindouros. “Não vai mais ser daí que o PIB vai crescer. As empresas terão de alavancar a produtividade como meio de promover o crescimento da economia”, determina Bezerra.

Quatro fatores foram fundamentais para a estagnação da produtividade brasileira, segundo o estudo: escassez de mão-de-obra qualificada, limitações de infraestrutura, baixo investimento e um ambiente institucional subdesenvolvido.

O primeiro passa pelo crônico problema da educação básica no país e pelo custo de mão-de-obra, que aumentou, ao mesmo tempo em que caiu o desemprego. “A oferta de ensino superior dobrou, mas com baixa qualidade. Educação é um problema de longo prazo”, observa.

Pesam ainda os custos e a baixa eficiência provocados por problemas nas redes de logística e de telecomunicações disponíveis, além do baixo investimento, que cobre apenas a depreciação dos equipamentos do setor produtivo. Apesar de os investimentos terem passado de 11% para 19% do PIB, na década estudada, o percentual é bem menor do que investiram China (47%), Índia (30%) e Coréia do Sul (27%), no mesmo período.

Somado a isso, entram o custo e a complexidade dos negócios no Brasil, em função de legislação complexa, morosidade judiciária e processos regulatórios ineficientes.

O que fazer

Para crescer a mais de 4% ao ano, é necessário reverter o cenário, aponta o BCG. “O desafio é que as empresas reconheçam esse contexto e se adaptem. As que saírem à frente terão vantagem competitiva”, diz Bezerra. “Para isso, há dois pontos: [saber] onde jogar e melhorar a produtividade”, define.

A tarefa compreende reavaliar o portfólio, diversificar negócios, mercados e segmentos – mesmo que, para isso, a empresa se volte a um novo país.

Já o segundo ponto requer quatro pilares fundamentais para a criação de valor: gestão de talentos; linhas de automação mais eficientes, enxutas e com alta tecnologia; gestão do valor do produto e eficiência da cadeia de valor.

“É preciso olhar para dentro, atrair e reter talentos, desenvolvendo-os dentro da organização e criando engajamento”, pontua, sobre o primeiro pilar.

Segundo o estudo, a automação é uma ferramenta pouco utilizada pelas companhias brasileiras, o que poderia favorecer contra os altos custos da força de trabalho. Buscar segmentos premium por meio de inovação de produtos e posicionamento de marca é outra lição para aumentar a criação de valor, além de reduzir custos em produtos voltados para a classe média. Outra forma é avaliar a produção terceirizada ou em outros locais.

“Iniciamos esse estudo sobre a década de crescimento da economia para fazer propaganda do Brasil para nossos clientes no exterior. À medida que o fazíamos, vimos questões estruturais que iriam mudar o contexto e saímos da euforia. A gente precisa, então, entender esse contexto e tomar atitudes que criem valor”, declara.