Energia no Brasil: veja as cinco tendências para o setor

publicado 26/03/2020 12h52, última modificação 27/03/2020 15h01
Campinas – Em meio a tantos debates sobre o futuro, a discussão sobre o setor elétrico no país é fundamental para a economia
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Brasil tem potencial para ser protagonista na transição energética

A crescente demanda por energia e a agenda global de descarbonização vão moldar as prioridades do setor elétrico nos próximos anos. Embora seja um grande desafio conciliar os tópicos, que a primeira vista se mostram antagônicos, a solução é a transição energética. E o Brasil tem todo o potencial para ser um protagonista neste processo, de acordo com os especialistas.

Durante o Comitê Aberto de Conjuntura de Campinas, os palestrantes Gustavo Naciff, superintendente adjunto de Estudos Energéticos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), João Paulo Rodrigues, head de Relações Institucionais e Governamentais da Neoenergia, e Raphaella Gomes, head de Desenvolvimento de Novos Negócios da Raízen, listaram algumas tendências que impulsionam a transição energética:

 

DESCARBONIZAÇÃO

As atividades humanas são responsáveis pelo aumento de 1ºC por ano na temperatura. A projeção é que entre 2030 e 2050, esse número cresça para 1,5ºC, sendo que o limite é de 2ºC. Reduzir a emissão dos gases estufa, sobretudo do carbono, é imprescindível para a sustentabilidade do planeta.

PARTICIPAÇÃO DE FONTES RENOVÁVEIS

Estamos caminhando para substituir uma economia mundial baseada em combustíveis fósseis por outra a base das renováveis.

DESENVOLVIMENTO DE NOVAS TECNOLOGIAS

Mesmo falando de uma agenda global, cada país vai desenvolver sua própria narrativa de transição. “Vamos ter múltiplas soluções. Cada lugar vai desenvolver algo que faça sentido para sua região”, analisou Raphaella.

GERAÇÃO DISTRIBUÍDA

Novas tecnologias possibilitaram que o consumidor deixasse de ocupar uma posição passiva, de apenas receber a energia, para assumir uma postura ativa: agora é possível gerar e gerenciar sua própria energia. “O processo deixa de ser unilateral e passa a ser multilateral, podendo até inverter a cadeia de produção”, resumiu Naciff.

MEIOS DE TRANSPORTE

Automóveis movidos à energia elétrica farão cada vez mais parte da nossa realidade. “Diversas montadoras já anunciaram que dedicarão mais investimento nesse segmento”, contou Rodrigues.

 

CENÁRIO BRASILEIRO

Com o intuito de proporcionar um ambiente mais competitivo, atrativo e seguro aos investidores, o governo brasileiro já realizou uma série de reformas no setor. “Podemos mencionar o Novo Mercado de Gás Natural; o programa Abastece Brasil; o Grupo de Trabalho de Modernização do Setor Elétrico, promovido pelo Ministério de Minas e Energia (MME); o RenovaBio, e alguns Programas de Parceria de Investimentos (PPI)”, enumerou Naciff.

“Nosso país é líder em renovabilidade da matriz, representando cerca de 45%; a média mundial é de 13%. Só em 2018, 83% da oferta de eletricidade veio de origem renovável. Somos o segundo maior produtor de etanol e biodiesel do mundo”, completou o palestrante.

Segundo ele, existem dois pontos cruciais no debate sobre a transição energética. “A demanda por energia dos países em desenvolvimento é bem maior do que a dos países já desenvolvidos. Isso significaria uma maior emissão de gases de efeito estufa se continuarmos a utilizar as fontes que usamos atualmente. Outro fator é o investimento tecnológico: se nas décadas de 1970 e 1980 os países da IEA (International Energy Agency) estavam focados nas energias nucleares, hoje eles se voltam para as fontes renováveis”, explicou.

 

ATUAÇÃO DO SETOR PRIVADO

João Paulo Rodrigues destacou que a maior premissa do Grupo Neoenergia é a descarbonização. “Temos metas agressivas em relação a essa pauta. A Iberdrola,controladora da Neonergia, tem o compromisso de se tornar neutra em emissões de carbono até 2050. Falando em curto prazo, a expectativa é que nesse ano, as emissões sejam 30% menores do que em 2007”.

Para ele, falar em descarbonização é, sem dúvidas, falar sobre as energias solar e eólica. “Nossa capacidade de crescimento da fonte eólica é enorme e estamos longe de alcançar nosso máximo potencial de energia solar”, esclareceu Rodrigues. “É preciso ter em mente que o equilíbrio é a chave. Nenhuma fonte, renovável ou não, vai suprir sozinha a demanda da população. A complementaridade é que faz o sistema ser sustentável”, apontou Rodrigues.

A companhia possui 17 campos eólicos em operação e outros 27 em fase de construção. Além disso, a Usina Solar de Fernando de Noronha é responsável por 10% do consumo do arquipélago.

 

PRÉ-SAL CAIPIRA

Nas usinas de açúcar e etanol no interior de São Paulo, há uma riqueza quase inexplorada, mas com muito potencial de energia. De acordo com Raphaella Gomes, a co-geração de energia a partir da biomassa já representa 9% da matriz brasileira. Como o país possui um alto potencial na produção, ela se torna uma opção relevante na diversificação da matriz brasileira.

E não para por aí: com a biomassa é possível gerar outros produtos além da própria energia. “Temos o hábito de dizer que ela é o novo petróleo. Dá para fabricar combustível, plástico, substâncias químicas e, até mesmo, pallets para substituir o carvão nas termelétricas, como já acontece na Europa e Ásia”, afirmou Raphaella . “A Raízen está construindo a quarta maior usina de biomassa do mundo. Acreditamos que ela pode ser uma das protagonistas na transição energética”.

Para cada litro de álcool combustível produzido, são gerados 11 litros de vinhaça, um dos subprodutos. “Com ela, é possível fabricar o biogás, que purificado se transforma em biometano. Essa substância tem propriedades semelhantes ao Gás Natural Veicular com ainda mais benefícios: emite 85% menos gases estufa que o próprio GNV”, explicou Raphaella. “Outra possibilidade é produzir etanol celulósico a partir do bagaço da cana-de-açúcar, que emite ainda menos carbono do que o etanol tradicional”, completou.

 

SETOR ELÉTRICO EM TEMPOS DE COVID-19

Uma das discussões geradas pela pandemia do Coronavírus é o pagamento da conta de luz. Enquanto uns defendem que a fatura seja suspensa, outros afirmam que a contribuição não pode deixar de acontecer. Na visão de Rodrigues, essa interrupção só causaria mais problemas na economia do país.

“Nosso setor é essencial para todas as atividades. O primeiro fator é que a fatura tem carga tributária que vai para a União, se houver essa recessão, o Brasil e os estados vão sentir e isso pode impactar o próprio combate ao vírus. O segundo ponto é que o parque gerador e a rede distribuidora dependem do pagamento para continuar suas atividades. E por último, há entidades filantrópicas beneficiadas com a arrecadação deste imposto. A função social do setor elétrico é nítida e não podemos comprometer isso. O caos só seria maior”, finalizou.



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