Energia pode virar moeda mundial, defende professor da USP

por marcel_gugoni — publicado 21/05/2012 12h37, última modificação 21/05/2012 12h37
Marcel Gugoni
São Paulo – Especialista aponta possibilidade de interligação de todos os consumidores do planeta numa grande câmara de compensação.
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A energia pode se tornar uma nova moeda mundial, com uma via de acesso interligando todos os consumidores do planeta, que poderiam depositar ou retirar energia conforme sua disponibilidade ou necessidade, numa grande câmara de compensação repleta de oportunidades de negócios.

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A avaliação é do engenheiro José Sidnei Colombo Martini, chefe do departamento de Engenharia da Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Ele conversou com a reportagem do site após participar do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo realizado na última quarta-feira (16/05).

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“Isso poderá atender regiões que por problemas climáticos ou outros eventos perderam a capacidade de gerar energia sem que precisem fazer novos investimentos no curto prazo de geração. É um compartilhamento internacional de eletricidade”, explica o professor.

Segundo ele, o Brasil já está bem avançado nesse tipo de interligação e pode servir de referência para um modelo que conecte o mundo.  “A ideia é chegar a todos os cantos do mundo como as telecomunicações chegaram. Até poucos anos atrás, era impossível fazer uma ligação telefônica do Brasil para o Extremo Oriente. Hoje, por conta da transmissão via satélite e pela internet, é possível.”

Leia os principais trechos da entrevista com José Sidnei Colombo Martini:

Amcham: Quais os principais gargalos da transmissão de energia no Brasil?

José Sidnei Colombo Martini: A transmissão fundamental é um gargalo no sentido de que há oportunidades além daquilo que já está feito para que a segurança no trânsito de energia possa se estabelecer. Toda vez que há alguma dificuldade com a rede que cause um problema com a transmissão isso ganha manchetes e a sociedade percebe a importância. O outro gargalo está na expansão da transmissão, isto é, a construção de novas linhas. Há dificuldades naturais porque a geração está cada vez mais distante e é preciso passar sobre áreas de preservação ambiental, e dificuldades sociais, já que essas linhas passam por várias regiões que às vezes nem têm energia elétrica disponível. Imagine o efeito de uma comunidade isolada sobre a qual passa uma linha de energia quando ela mesma não tem acesso à eletricidade. É claro que programas sociais de distribuição de energia mitigam esses impactos, mas estes eles ainda são sentidos em outras áreas.

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Amcham: E na geração, quais são os entraves?

José Sidnei Colombo Martini: Na questão da geração, o pesado da nossa matriz, o ponto central é de aproveitamento hidráulico. Perto dos grandes centros de consumo, o aproveitamento hidráulico já foi explorado. Resta explorar os pontos mais distantes. Neste aspecto, há todo tipo de gargalo, desde a mão de obra para a construção da usina até a operação desses complexos industriais, que ficam muito distantes dos consumidores.

Amcham: Por que a bidirecionalidade é importante para o setor energético?

José Sidnei Colombo Martini: Há uma mudança de conceito quando se coloca o consumidor no papel também de gerador de energia. Antes, ele só recebia. Hoje, ele também pode oferecer, desde indústrias até o próprio consumidor em sua residência com geradores que pode comprar, colocar dentro de casa e ligar ao encanamento de gás, produzindo calor, frio ou energia elétrica. Ao ligar esse gerador na rede interna, é possível produzir um volume de energia superior ao consumido. Logo, há um excedente que pode ir para a rede. Mas, para que essa nova função de bidirecionalidade seja possível, o medidor de energia, que é feito só para contabilizar a chegada de energia, precisa ser modificado.

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Amcham: A automatização e os medidores inteligentes também podem trazer vantagens aos consumidores?

José Sidnei Colombo Martini: A automatização funciona da seguinte maneira: imagine um consumidor faz uma festa na casa dele no sábado à noite. Este é um horário em que as indústrias não estão funcionando, então há uma disponibilidade maior de energia no mercado. Com isso, a distribuidora resolve fazer um preço de oportunidade e baixa o custo da energia na madrugada do sábado. Para você poder se beneficiar disso, é preciso que seu medidor não contabilize somente o gasto da energia, mas seja capaz de acrescentar a função tempo e determinar quanto foi gasto e em qual horário, isto é, mostre que houve consumo exatamente na madrugada do sábado, quando a distribuidora havia feito um preço mais baixo para a energia. Isso abre possibilidade a políticas tarifárias novas para benefício do consumidor. A automatização e os novos medidores podem melhorar esse cenário.

Amcham: De que forma?

José Sidnei Colombo Martini: Manter e oferecer energia elétrica de alta qualidade, isto é, com uma forma de onda elétrica perfeita, requer equipamentos e processos que garantam a qualidade desse produto. Como hoje a eletricidade caminha por um único canal, os fios que chegam até a nossa casa, não há diferenças entre energia de alta qualidade e de menor qualidade. Da forma como é feito, o fornecimento só pode ser atendido com a mesma qualidade em todos os seus usos. Quem quiser alta qualidade tem que reformar a energia por meio de retificadores e inversores.

Amcham: Por que o sr. diz que a energia caminha para se tornar uma nova moeda mundial?

José Sidnei Colombo Martini: A energia pode ser uma moeda e a transmissão um novo canal porque, no fundo, todo o conforto que existe hoje se obtém por meio de energia elétrica. A partir do instante em que há uma via de acesso que ligue todos os consumidores do planeta, quem tiver energia e se conectar a essa rede poderá depositar nela o seu excedente, enquanto quem precisar poderá retirar energia dela. No momento em que um puder ofertar mais do que retirar, terá oportunidades de negócios e rendimento sobre a entrega deste excedente. O que ocorre é que essa rede de comunicação elétrica e transmissão poderá se transformar em uma câmara de compensação. Isso poderá atender regiões que por problemas climáticos ou outros eventos perderam a capacidade de gerar energia sem que precisem fazer novos investimentos no curto prazo de geração. É um compartilhamento internacional de eletricidade.

Amcham: Essa interligação pode ocorrer nos mesmos moldes que as telecomunicações fazem com a internet?

José Sidnei Colombo Martini: Exatamente. O Brasil já opera no sistema interligado um modelo parecido. O mundo precisa se basear no Brasil [exemplo de rede interligada] para expandir essas redes. Há uma série de associações que discutem com frequência uma série de projetos para a América Latina. Mas este é só o primeiro passo. Depois há a integração continental de toda a América, cujos cabos poderiam ser integrados com os da Ásia pelo Alasca (Estados Unidos). A ideia é chegar a todos os cantos do mundo como as telecomunicações chegaram. Até poucos anos atrás, era impossível fazer uma ligação telefônica do Brasil para o Extremo Oriente. Hoje, por conta da transmissão via satélite e pela internet, é possível.