Especialistas divergem sobre expansão do uso de energia nuclear no País

por giovanna publicado 28/04/2011 16h31, última modificação 28/04/2011 16h31
Recife – Demanda energética crescente e debate sobre questões de segurança são parâmetros da discussão.

Diante de debates sobre questões de segurança suscitados pelos recentes acontecimentos no Japão e a lembrança dos 25 anos do acidente em Chernobyl, e confrontados com a necessidade de expansão da geração de energia, especialistas divergem sobre o maior uso da fonte nuclear no Brasil. A Amcham-Recife realizou um debate sobre o tema na última quarta-feira (27/04), em seu comitê de Energia.

Carlos Mariz, representante no Nordeste da Eletronuclear, subsidiária de Eletrobras focada em construir e operar usinas termonucleares no País, é favorável à instalação de novas plantas nucleares. Ele vai além. Diz que a projeção de alta demanda futura, conjugada ao longo prazo requerido para construção e entrada em operação dessas usinas, obriga que essa decisão seja tomada agora.

“O País precisará contar com outro meio para auxiliar a geração de grandes volumes de energia, e as principais opções serão as usinas nucleares ou termoelétricas”, disse Mariz.

Para ele, não há porque repensar o modelo de exploração da energia nuclear que o Brasil vem utilizando e sua ampliação já que, mesmo em situações extremas, sistemas nucleares são preparados para atuar com 100% de segurança. 

“No Japão, as 14 usinas da região aguentaram o terremoto sem problemas na segurança. Apenas quatro delas foram afetadas, mas pelo tsunami, que danificou os geradores a diesel responsáveis por resfriar as usinas no caso de falta de eletricidade no entorno. As outras estruturas energéticas, como termoelétricas, não aguentaram”, argumentou Mariz.

Contraponto

Heitor Scalambrini, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor em Energética, por outro lado, demonstrou no comitê uma posição mais cautelosa. Na visão dele, as estimativas de aumento do consumo de energia elétrica são exageradas e não devem ser consideradas como determinantes a para adoção de política mais agressiva de exploração nuclear.

“O setor elétrico tem feito previsões irreais do consumo energético. Por exemplo, em 1999, o consumo projetado para 2005 foi 14% maior que o ocorrido de fato”, ilustrou Scalambrini. Ele avalia que o mesmo tipo de extrapolação ocorre com projeções de longo prazo, como se deu as previsões de consumo para 2005, feitas em 1987, e que se revelaram 54% acima da realidade.

Scalambrini considera que os altos custos de implantação das usinas nucleares são outro aspecto que precisa ser ponderado antes de qualquer decisão de expansão. Ele revela que em países como Finlândia e Estados Unidos, os valores das obras se mostraram 50% a 200% mais elevados que os cálculos iniciais.

O professor destacou ainda que, em seu ponto de vista, o Brasil não está preparado para lidar com ampliação da estrutura de exploração de energia nuclear. “Um grave problema é a duplicidade de funções da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que atua ao mesmo tempo como operadora, prestadora de serviços, licenciadora e fiscalizadora de si própria”, comentou.