Especialistas não acreditam em impeachment, mas preveem instabilidade até o final do governo

publicado 24/06/2020 11h33, última modificação 24/06/2020 11h33
Brasil – Eurásia acredita em 25% de chance de impedimento em Bolsonaro e Tendências Consultoria em 40%, embora ambas calculem turbulência ininterrupta até 2022
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Especialistas avaliam que o impacto mais forte da pandemia ainda está por vir

Embora o presidente Jair Bolsonaro já conte com 48 pedidos de impeachment, segundo a Câmara dos Deputados, especialistas acreditam que as chances de interrompimento do mandato são pequenas. Sílvio Cascione, Diretor Brasil da Eurasia Group, prevê 25% de probabilidade e Rafael Cortez, Sócio e Cientista político da Tendências Consultoria, enxerga 40% – embora maior, também considerado um risco pequeno pelo executivo.

Isso porque as pesquisas de popularidade não mostram derretimento suficiente para uma perda da base aliada. “Apesar das pesquisas, ele de certa forma conseguiu manter um canal de comunicação com a maior parte do eleitorado que construiu desde as eleições - uma parte desse eleitorado bastante alinhado ideologicamente dele”, afirma Sílvio, que participou, junto com Rafael, do nosso webinar ‘O que esperar da política brasileira para o restante de 2020’, no dia 18/06.

Além disso, a resposta econômica do governo nesse momento da pandemia foi muito forte se comparado com outros países emergentes. O executivo da Eurasia avalia que o grau de estímulo fiscal que o Brasil colocou é bastante elevado, o que ajuda a amortecer a perda e o impacto da queda de popularidade de Bolsonaro. “Ainda é muito cedo para dizer que ele conseguirá administrar o choque e que a base de eleitores dele é leal a ponto de nada convence-los de que ele está errado, mas isso tudo tem dado certo até agora”, adianta.

Ainda assim, o impacto mais forte da pandemia ainda está por vir: regiões interioranas e muitas áreas que até agora foram poupadas verão o crescimento da doença. Haverá também um impacto econômico quando os estímulos forem retirados. Assim, na avaliação dos especialistas, é possível que a onda de insatisfação aumente ainda mais, rebaixando a popularidade do presidente a um número próximo de 20%, mantendo apenas a base eleitoral ideológica.

“No segundo semestre, o desemprego ainda vai aumentar, porque as empresas que estão segurando as pessoas por conta das medidas de estímulo vão ajustar sua folha de pagamento à nova realidade”, aponta Sílvio. “É preciso discutir qual o tempo de duração do esforço emergencial contra o coronavírus - tempo esse que já está sendo alongada por conta da coordenação ruim da resposta inicial, que, se estivesse sido boa. a pandemia estaria em uma situação de mais controle”, expressa Rafael.

 

DESASSOSSEGO

Os casos policiais e as investigações também apresentam riscos para o presidente: ambos minam a capacidade de resposta de Bolsonaro e o atrapalham, porque ele tem que se preocupar em ficar na defensiva e se explicar. Com isso tudo, os executivos afirmam que o presidente está, de fato, vendo uma ameaça real de cair, por isso busca apoio no centrão e faz alianças com os militares. “O cenário mais provável é de um equilíbrio muito instável e uma travessia turbulenta até 2022”, aposta Sílvio.

Outro objeto de preocupação do ponto de vista do funcionamento democrático no governo Bolsonaro, segundo Rafael, é o tensionamento institucional. “Em nenhum país democrático, as forças armadas são instrumento de barganha política ou tem esse papel de definir qual legislação é aplicável ou não e o que é passível de cumprimento ou não”, expõe, lembrando que os cenários econômicos difíceis combinados com essa apreensão institucional têm como resultado um desassossego para o país.

O cientista político acredita também que nesse mesmo debate de prorrogar as medidas iniciais contra a pandemia, que já é difícil, haverá um debate sobre o que fazer com o orçamento do ano que vem no segundo semestre – antes mesmo de falar sobre reformas e modernização do Estado. “Esse tema para o investidor é muito relevante, porque a dívida pública do Brasil está crescendo a um nível muito perigoso que só é sustentável nesse nível com um juro muito baixo. Mas, se houver algum aumento de juro, que pode vir com uma percepção de risco maior, passa a ser insustentável”, finaliza.

 

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