Expansão continuada a longo prazo demanda avanço em investimento, indica economista do Santander

por andre_inohara — publicado 22/02/2013 18h28, última modificação 22/02/2013 18h28
São Paulo – Governo começa a oferecer condições atrativas para aportes em concessões públicas de transporte e mobilidade.
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O consumo ainda continua a ser fundamental para alavancar o crescimento econômico brasileiro, mas começa a ficar claro que para garantir uma expansão continuada a longo prazo será preciso avançar em investimento, notadamente em projetos de infraestrutura.

“O governo já percebeu que a estratégia de incentivo ao consumo vai produzir resultados mais fracos [com o tempo]. O modelo não se esgotou, mas a contribuição para o crescimento não será a mesma de anos passados. A aceleração do pacote de concessões é um sinal muito claro de mudança”, afirma Cristiano Souza, economista senior do Banco Santander.

O especialista traçou um panorama econômico do Brasil neste ano no seminário ‘Perspectivas Econômicas e Comerciais 2013’ realizado pela Amcham-São Paulo nesta sexta-feira (22/02). Souza também abordou a economia internacional. Para ele, o Brasil poderia ter um comércio mais dinâmico se tivesse uma estratégia mais bem definida para acordos de comércio. “Parte do declínio de atividade industrial poderia ter sido compensada por acordos comerciais que não vão sair”, lamenta o economista.

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Ele também comentou a situação dos EUA, que estão saindo da crise e negociam um acordo de livre comércio com a União Europeia. Veja abaixo a entrevista de Souza ao site da Amcham:

Amcham: A demanda doméstica continuará aquecida, graças ao aumento de renda. No entanto, a crise nos mercados ricos compromete as exportações. A avaliação é correta neste momento?

Cristiano Souza: Depende do que você chama de demanda doméstica. Parte dela ainda vai bem, devido ao consumo das famílias com renda e emprego. O desemprego está baixo e os salários aumentam além da inflação, o que dá ganho de poder de compra. O crédito se retraiu um pouco [em 2012], mas há sinais de retorno. E o governo também consome. Como a arrecadação bem alta, ele pode gastar sem desestabilizar as contas públicas. Mas um dos grandes problemas do Brasil são, sim, as exportações porque os nossos grandes parceiros que importam bens manufaturados ou mostram atividade ainda fraca, como os EUA, ou têm problemas domésticos e criam barreiras à importação, caso da Argentina. O fluxo de exportação não depende do Brasil, mas do contexto externo. Dentro da demanda doméstica, o que depende de nós é o nível de investimentos, que está fraco. Hoje os investimentos estão menores do que em 2012, quando, por sua vez, já eram menores em comparação a 2011.

Amcham: De que modo a falta de investimentos afeta o crescimento?

Cristiano Souza: Menos investimento sinaliza que o crescimento do PIB [Produto Interno Bruto] não terá força e coloca perigo para o longo prazo. Se não se investir hoje, não haverá oferta de bens e serviços lá na frente, nem será possível imaginar que o PIB será de 4% ou 5% no futuro.

Amcham: As medidas de desoneração fiscal (salários, energia) colocadas em prática pelo governo não cumpriram seu papel de estimular os investimentos?

Cristiano Souza: O governo fez muita concessão fiscal em 2012, mas o pensamento prioritário foi para o consumo. O raciocínio foi de que o consumo ficaria forte e sinalizaria investimentos para o empresário fazer. Na prática, isso não se mostrou verdadeiro. O consumo veio e contribuiu para o crescimento, mas o investimento não veio.

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Amcham: Por que isso ocorreu?

Cristiano Souza: Existem a má qualidade da infraestrutura, a pesada e complexa carga de tributos e a rigidez das leis trabalhistas que impedem que o investimento deslanche. Não adianta só cortar imposto, pois ninguém vai investir em um ambiente de negócios que não é facilmente transitável. São entraves que não se consertam com custo mais baixo, mas com investimento público. O governo só percebeu isso faz dois ou três meses. Estamos no início do processo de melhora estrutural, que pode levar mais investimento à frente. Mas o corte de imposto só levou a mais consumo e um pouco de pressão inflacionária.

Amcham: Ainda assim, o governo parece insistir no crescimento baseado no consumo...

Cristiano Souza: Sim, por falta de uma estratégia alternativa. O modelo não se esgotou, mas a contribuição para o crescimento não será a mesma de anos passados. Essa aceleração do pacote de concessões é um sinal muito claro de mudança [rumo a estímulo a investimentos]. É uma boa sinalização, mas não produz resultados em 2013. Na melhor das hipóteses, produzirá de 2014 para frente, se isso feito corretamente e sem interrupção.

Amcham: Como acelerar a produtividade da economia?

Cristiano Souza: A produtividade é um ponto importante. No período Lula, a produtividade crescia 1,5% ou 2% ao ano. Hoje é 0,2% ao ano, quase neutra. É difícil dizer como fazer a produtividade crescer rapidamente. Primeiro, é preciso começar a fazer investimento em infraestrutura. Transitar com caminhão numa estrada asfaltada e segura obviamente gera mais receita, produção e vendas do que andar numa via esburacada e riscos de assaltos. Só que ainda vai faltar educação. Quanto mais investimento necessitarmos em infraestrutura, mas principalmente em tecnologia, mais precisaremos de gente qualificada. Uma hora todos os investimentos em infraestrutura serão feitos. Quando isso acontecer, o País terá de se tornar uma economia tecnológica, e isso depende de educação.

Amcham: A educação é um investimento que foi negligenciado por décadas. Como formar gente em pouco tempo?

Cristiano Souza: Temos boa quantidade de anos de estudos e gastamos bastante, mas não adianta ‘jogar um caminhão de dinheiro’ no setor se não houver qualidade. Os níveis são muito ruins. Tem que haver planejamento, sequência, análise e monitoramento do que está sendo feito com esse dinheiro. Se comparamos nossa educação com a de outros países, sempre estamos mal. Em leitura e compreensão de texto, uso de conhecimentos científicos e matemática para problemas do dia a dia, nossos estudantes de 15 anos são falhos. Quem não consegue entender ciência não produz tecnologia, quem não sabe fazer conta não será engenheiro nem estatístico. E se não se consegue ler, não há jornal ou livros. É complicado imaginar que há muito que fazer em uma área que demora décadas para dar resultado. Se começarmos com um processo educacional bom, como Taiwan e Coréia do Sul fizeram nos anos 1960, em vinte anos teremos resultado.

Amcham: Os ministros do G-20 discutiram recentemente a questão cambial. Como ela pode afetar a competitividade?

Cristiano Souza: O câmbio gera efeito rápido. Se houver valorização do dólar, [a exportação] ganha competitividade. Mas isso também atrapalha o investimento porque há muitos preços de máquinas em dólar, e, com isso, empresas que importam insumo de produção têm custo mais caro. É complicado defender isso, mas o câmbio tem que flutuar. Se a economia perder competitividade com o câmbio, é preciso ganhar em outros lugares: ter infraestrutura melhor, sistema tributário mais simples e mão de obra qualificada. Essas são variáveis que se podem controlar. O governo também quer crescimento, mas o controle cambial não é instrumento para isso porque gera inflação e pouco investimento.

Amcham: Falando de cenário externo, os EUA são um importante comprador de manufaturas brasileiras, mas se recuperam da crise. Quais as perspectivas para a economia americana neste ano?

Cristiano Souza: O PIB real dos EUA está crescendo a 2%, abaixo do PIB potencial. Isso significa que ainda há largas possibilidades de trabalho e capital [investimento] nos EUA. Quanto ao abismo fiscal, ele já foi superado. Era uma combinação perversa de aumento de impostos com corte de gastos. O aumento de impostos já foi eliminado, e o aperto de receita das famílias não veio. O que veio foram discussões a respeito de cortes de gastos e aumento do teto da dívida – que está alta, mas os EUA não têm problemas para pagar.

Amcham: Recentemente, os EUA anunciaram que estão negociando uma acordo de livre comércio com a União Europeia. Quais os impactos para a economia brasileira?

Cristiano Souza: As tarifas de importação entre EUA e Europa em bens industrializados já são relativamente baixas. Isso significa que, se esse acordo ficar restrito à exportação dessas mercadorias, talvez haja pouco impacto. O problema maior é em serviços, mas não dá para responder hoje sem saber o que vai acontecer. Pessoalmente, acho problemático o que a política externa do Brasil fez nas últimas décadas. A orientação sempre tem sido de não fazer acordo ou fazer com países pequenos. Temos três acordos nos últimos anos, enquanto nossos vizinhos como Colômbia, Peru e Chile fecharam muitos tratados. Outro exemplo é o México, que tem acordo comercial com os EUA. Lá, as empresas são extremamente competitivas em relação às da China quando entram no mercado americano. O salário mexicano é maior do que o chinês, e mesmo assim conseguem competir muito melhor. É verdade que a proximidade geográfica ajuda, mas o fato é que os benefícios tarifários por conta da Nafta deixam os produtos mexicanos mais baratos. No Brasil, parte do declínio de atividade industrial poderia ter sido compensada por acordos comerciais que não vão sair em uma perspectiva de curto prazo. Vamos ter problemas no longo prazo.