Facilitar crédito de longo prazo passa por diversificar produtos e torna-los mais atrativos

publicado 28/06/2017 11h00, última modificação 28/06/2017 13h54
São Paulo – Anbima, Warburg Pincus, Bradesco e JP Morgan compartilharam visões sobre crédito
Robert van Dijk, Piero Minardi, Patrícia Moraes, Denise Pavarina e Gilberto Souza

Da dir. para a esq.: Robert van Dijk (Anbima), Piero Minardi (Warburg Pincus), Patrícia Moraes (JP Morgan), Denise Pavarina (Bradesco) e Gilberto Souza (Deloitte)

Para incentivar o crédito de longo prazo em projetos de infraestrutura, é preciso flexibilizar regras e viabilizar a oferta de novos produtos, de acordo com Robert van Dijk, presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), e Piero Minardi, sócio-diretor da gestora de private equity Warburg Pincus.

“Temos discutido com o governo a questão do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) deixar de ser o único provedor de recursos e passar também a exercer a avaliação de projetos e assumir riscos de completion (seguro-garantia da conclusão do projeto), dividindo e compartilhando garantias com os demais financiadores da iniciativa privada”, segundo Dijk, no seminário ‘A Retomada do Crescimento: Alternativas de Crédito e Capital’ da Amcham – São Paulo na sexta-feira (23/6).

Além de Dijk e Minardi, o painel foi composto por Denise Pavarina, diretora–executiva do Bradesco, Patrícia Moraes, diretora de Corporate e Investment Banking do JP Morgan, e moderado por Gilberto Souza, sócio da Deloitte.

No Brasil, as opções de crédito para projetos de longo prazo são reduzidos e caros. “Aqui, só temos debênture de cinco anos, com carência de dois. Não é um financiamento de longo prazo”, segundo Minardi. “Lá fora, o sujeito tem instrumentos de 10 anos e carência de três, sem falar em outras coisas”, compara.

O gestor reconhece que o mercado brasileiro é pouco favorável a financiamentos longos em função da conjuntura econômica ruim, o que explica a dificuldade de se criar produtos nesse segmento. É por isso que ele defende a divulgação dos fundos de private equity – que compram participações em empresas não listadas na bolsa com alto potencial de crescimento e rentabilidade – como alternativa de capital.

Fundos são profissionais o suficiente para ajudar as empresas em momento de expansão e podem ser uma opção de capital de longo prazo, argumenta. Apesar da resistência dos empresários em recorrer aos fundos por causa da necessidade de compartilhar as decisões, Minardi assegura que as vantagens são compensadoras. “É chato ter sócio? Possivelmente sim, mas se você escolher o sócio certo, vai subir para o próximo estágio de crescimento. Fundos de private equity sabem fazer isso.”

Para Minardi, a indústria de private equity e venture capital no Brasil poderia movimentar o dobro dos atuais 150 bilhões de reais. “Tem um monte de empreendedor no Brasil que quer captar recurso fora da bolsa”, observa.

Bradesco e JP Morgan

De acordo com Pavarina, do Bradesco, os bancos de varejo têm disposição e recursos para financiar projetos de longo prazo. Assim que a situação econômica melhorar, a demanda por crédito longo vai aumentar, assegura a executiva.

“Os bancos estão com dificuldade de alocar crédito em função da situação que vivemos. Temos, para emissão no mercado local, um pipeline contratado de cinco bilhões de reais nos próximos dois meses. Mas acredito que teremos uma atividade melhor de crédito no segundo semestre.”

O motivo é a queda da taxa Selic, que deve baixar dos atuais 10,25% para 8% em dezembro, estima Pavarina. Nesse cenário, tomar crédito será mais vantajoso. “O empresário é rápido na resposta. Quando há um horizonte minimamente previsível, e a taxa de juro é fundamental nisso, o empresário se move rápido”, afirma.

A executiva cita que o mercado tem produtos específicos para todos os portes de empresas. “Além de crédito para grandes, temos instrumentos como CRI (certificados de recebíveis imobiliários) e fundos para médias empresas. Para as pequenas, tem que ser crédito mesmo”, destaca.

A tendência de queda do juro já está encorajando as empresas a captar recursos. Inclusive em mercados internacionais, segundo Moraes, do JP Morgan. Prova disso é que nos primeiros cinco meses do ano, a emissão de bonds internacionais no Brasil atingiu 15 bilhões de dólares. “No ano passado inteiro, foram 17 bilhões de dólares;. A janela de captação no mercado internacional está se abrindo de novo”, compara.

Apesar da turbulência política e a recuperação econômica não consolidada, a executiva destaca que os investidores estrangeiros avaliam com interesse os ativos brasileiros. “É claro que o barulho político pode afetar, mas as empresas são resilientes e estão tentando se dissociar disso. Elas estão dando prosseguimento aos seus planos operacionais”, segundo Moraes.

Ainda conforme a executiva, a janela de captação do mercado internacional “se abre e fecha rapidamente”, por isso é preciso que as empresas estejam preparadas. “A taxa de juro em queda cria um círculo virtuoso, porque melhora a estrutura de capital [financiamento próprio ou de terceiros] das empresas. Isso afeta o valor e a visibilidade da empresa na bolsa. O que, por sua vez, atrai possibilidades de se fazer emissões de equities [ações, debêntures e outros títulos mobiliários]”, explica.