Falta de integração internacional e leis trabalhistas complexas afetam produtividade, dizem CEOs

publicado 20/09/2016 09h35, última modificação 20/09/2016 09h35
São Paulo – André Duarte, do Insper, divulgou dados de estudo sobre produtividade
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Para os CEOs da Cummins, Ioschpe-Maxion e General Electric (GE), o foco no mercado doméstico e as complexas leis trabalhistas são fatores estruturais que causam a falta produtividade das empresas brasileiras. "No Brasil, não temos cultura de produtividade. As indústrias se acostumaram a focar no cenário doméstico, mas agora elas precisam ser mais eficientes para avançar”, disse Luis Pasquotto, presidente da Cummins, no 3o Seminário de Produtividade da Amcham - São Paulo, na sexta-feira (16/9). Pasquotto debateu o tema da produtividade com Dan Ioschpe, presidente do conselho de administração da Ioschpe-Maxion e presidente do Sindipeças, e Rafael Santana, presidente e CEO da GE para a América Latina.

Em outro painel, Francisco Soares, vice-presidente de suprimentos e manufatura da Embraer, Marcelo Pimenta, diretor de supply chain da Diageo, e Rosilane Purceti, diretora de RH da Sanofi, compartilharam experiências sobre produtividade. André Luís de Castro Moura Duarte, professor do Insper, apresentou um estudo sobre produtividade das empresas.

Segundo Ioschpe, a falta de integração da economia brasileira com o resto do mundo fez as empresas locais se acostumarem a atuar em um mercado de pouca concorrência e que desestimula as inovações. Menos eficientes por conta disso, as empresas brasileiras começam a perder mercados tradicionais para concorrentes mais ágeis. “Hoje, não estamos competindo contra nós mesmos, mas contra todos os outros países. E a fuga dessa ideia de competitividade tem nos atrapalhado muito. Isso acaba entrado nas quatro paredes de qualquer uma das nossas empresas.”

O executivo defende mais acordos de integração comercial com outros países, de forma a integrar mais as cadeias produtivas e compartilhar conhecimento e tecnologias para aumento de produtividade. “O México tem 60 acordos comerciais internacionais no setor automotivo e nós só temos dois. Se não estivermos em mercados com acordos preferenciais, não teremos acesso à tributação mais favorável”, compara Ioschpe.

Segundo Pasquotto, a rigidez das leis trabalhistas é outro empecilho à produtividade. “É importante que a lei permita jornadas de trabalho mais flexíveis, que permitam horários móveis e negociações trabalhistas. Até hoje, os trabalhadores tem que cumprir horário de trabalho via sistema de ponto. Como é possível ser produtivo, se o funcionário tem hora para encerrar os trabalhos?”, indaga.

Para ganhar produtividade, a GE e a Embraer tem atuado junto com os fornecedores. “Não somos apenas fornecedores de equipamentos. Mudamos a relação e começamos a fazer parcerias com clientes, reduzindo riscos e integrando soluções”, afirma Santana.

Na Embraer, os projetos também são desenvolvidos em parceria com os parceiros. “A produtividade tem que ser pensada desde o primeiro dia. Criamos projetos de forma integrada, desde a cadeia de abastecimento, manutenção e fim do ciclo de vida, pensando em como extrair o máximo de eficiência do processo”, disse Soares.

 

A fabricante de bebidas Diageo também investiu em tecnologia e parcerias. “Com isso, temos conseguido manter o nosso custo constante ou um pouco menor ao ano anterior e demos uma significativa contribuição para a produtividade da companhia”, disse Pimenta.

A Sanofi, por sua vez, tem investido em capacitação de pessoal. “Engajamos as lideranças e orientamos as equipes a focar na eficiência de projetos. Priorizando a especialização, a Sanofi trouxe uma dinâmica de gestão bastante distinta”, disse Rosilane.

Capacidade de gestão pode aumentar produtividade em até 25%,

Bons gestores podem aumentar a produtividade das empresas em até 25%, de acordo com André Luís de Castro Moura Duarte, professor do Insper. “Analisando a variação de produtividade entre países, vimos um aumento de 25% que pode ser explicado por práticas de gestão bem utilizadas. Isso é evidente quando se olha para países emergentes.”

Duarte apresentou dados de uma pesquisa de produtividade empresarial do World Management Survey, que mostra que a capacidade de gerenciar pessoas e processos é um fator qualitativo essencial ao aumento de produtividade, especialmente em países emergentes. “Alguns estudos têm falado que um dos grandes problemas dos países em desenvolvimento é o capital gerencial. Ou seja, que a nossa capacidade de gestão não é tão boa quanto a de outros países.”

Estados Unidos, Japão e Alemanha são os países que lideram as estatísticas de melhores práticas de gestão. O Brasil está nas posições intermediárias, atrás de México, Chile e Argentina, conforme dados do estudo. A pesquisa avaliou a eficácia de 18 práticas recorrentes de gestão em mais de 15 mil empresas no mundo. “Empresas que usam melhor as práticas de gestão são mais produtivas, lucrativas e crescem mais. Elas também exportam mais, desenvolvem mais produtos e têm mais patentes”, acrescenta o acadêmico.

Outro dado da pesquisa é que, quanto mais profissional a gestão, maior a produtividade. “As mais eficientes são as controladas por acionistas, depois as de private equity e empresas familiares com gestão profissional”, lista. As menos eficientes são as empresas governamentais e as comandadas pela família do fundador ou o próprio.