Fazer o ajuste fiscal é como “desviar o transatlântico do iceberg”, compara economista

publicado 28/10/2019 10h46, última modificação 29/10/2019 14h21
São Paulo – Corte de gastos é mais urgente que reforma tributária, afirma Vladimir Caramaschi do Vale (CA Indosuez Wealth)
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Vladimir do Vale, do CA Indosuez Wealth

Se o governo não parar de gastar mais do que arrecada, vai colocar a recuperação econômica em risco. Esse ajuste fiscal, explica Vladimir Caramaschi do Vale, economista-chefe do Crédit Agricole Indosuez Wealth, é tão importante que precisa ser feito antes da reforma tributária.

“Vejo muitas pessoas empolgadas com a reforma tributária. Mas antes de colocar as fichas e o capital político na sua aprovação, temos essa agenda (ajuste fiscal) que precede. Que ainda é de fazer o transatlântico desviar do iceberg. Essa é a minha principal preocupação doméstica para 2020”, disse, no nosso Seminário ‘Brasil 2020 – Aceleração ou Inércia? Quais são as expectativas para o país?’, que realizamos em São Paulo (25/10).

O governo tem sinalizado o controle de gastos. As despesas com aposentadoria vão diminuir graças à aprovação da reforma da Previdência em outubro, o que vai gerar uma economia de 800 bilhões nos próximos dez anos.

Ainda na pauta do governo, estão medidas de redução da folha de pagamento dos servidores, contemplada na reforma administrativa, privatizações e desindexação do Orçamento – minimizar as despesas que crescem com base na inflação passada.

Mesmo necessário, o economista acredita que a tarefa não vai ser fácil. A contenção de gastos discricionários (obrigatórios e de investimento) é complexo e bastante impalatável do ponto de vista político. “Porque é uma agenda que trata, grosso modo, da folha de pagamento do setor público. E que vamos ter que fazer essa discussão em ano eleitoral (2020). Então não vai ser fácil”, opina.

O “fantasma da instabilidade”

Assim que os gastos públicos forem equilibrados e reformas importantes forem feitas, o Brasil vai afastar o “fantasma da instabilidade”. “Temos que tirar de vez esse fantasma da instabilidade macroeconômica e poder focar essencialmente na agenda legislativa, nas reformas de segunda geração”, disse o economista.

As reformas a que do Vale se refere são as que vão aumentar a eficiência da economia brasileira. “Elas vão fazer com que a economia brasileira supere o patamar francamente pífio do PIB potencial que temos. Hoje, o Brasil não tem capacidade de crescer mais que 2%”, lamenta.

Do Vale destacou o momento positivo da economia e cita a inflação e juro baixos e a predisposição do Legislativo em tornar a economia mais eficiente. “Temos medidas de eficiência que independem do Congresso. Mas destacaria como surpresa positiva a predisposição do Congresso na reorganização da economia”, observa.

Cenário político

O cientista político Leonardo Barreto, sócio da consultoria Capital Político, disse que o novo governo está fazendo uma “perestroika (abertura, em russo)” brasileira. O Estado, segundo Barreto, consome quase todo o crédito financeiro do país. Isso faz com que os bancos não sejam estimulados a emprestar para empresas e cidadãos.

“A ideia é tirar o Estado (do mercado de crédito) para promover o reencontro entre agentes financeiros e produtivos. Ou seja, retirar o Estado do centro da economia e refundar mecanismos de mercado”, comenta.