Brasil investe em infraestrutura um quinto menos que os outros emergentes

publicado 19/07/2013 14h38, última modificação 19/07/2013 14h38
São Paulo – Recursos públicos e privados somam 0,6% do PIB segundo IPEA
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O Brasil investe bem menos do que deveria em logística para suportar o crescimento da economia de forma competitiva frente aos demais países emergentes. A conclusão é do economista Carlos Campos Neto, coordenador de Infraestrutura Econômica do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com base nos recursos que governo e iniciativa privada destinaram ao setor, entre 2002 e 2012.

Ele participou do comitê de Logística da Amcham – São Paulo na sexta-feira (19/07), ao lado de Carlos Gondim, diretor da Booz & Cia.

Os investimentos, que em 2003 somavam R$ 7,9 bilhões, subiram mais nos últimos anos. Ainda assim, os R$ 25 bilhões aplicados em 2012 nos quatro principais modais (rodovia, aeroporto, ferrovias, portos) representam 0,6% do PIB. O percentual é bem menor que a média de outros países emergentes, que aplicam de 3% a 3,5% do PIB em logística. “Apesar de ter melhorado, a situação ainda é grave. Isso mostra o quão longe estamos na competitividade”, comenta.

Segundo Campos, estudos mostram que o investimento anual de governo e empresas, no setor, deveria ser de R$ 100 bilhões, almejando um crescimento econômico do país entre 3% e 4% ao ano. O que se aplica hoje, diz, não suporta nem a depreciação das condições dos modais.

Público

Entre os investimentos públicos, o levantamento do IPEA revela que quase 40% dos recursos liberados deixaram de ser efetivamente aplicados para o desenvolvimento do setor. De R$ 163 bilhões disponíveis, na última década, 61,1% foram gastos. “Não é falta de recurso que está travando os investimentos, mas a execução. No caso da Infraero, por exemplo, 50% do que foi liberado não foi usado”, comenta.

O instituto lista uma série de fatores que dificultam a efetividade das operações logísticas: atraso na lei de licitações; projetos mal feitos; contratos mal elaborados; em conseqüência dos dois últimos, intervenções do TCU (Tribunal de Contas da União); desapropriações altamente judicializadas; e demora nas licenças ambientais (entre 2005 e 2010, o período médio passou de 30 meses). “Nesse último caso, o Ibama está tentando melhorar contratando mais gente e com outras ações”, adverte.

Projeções

De acordo com o coordenador do IPEA, a estimativa de investimentos públicos e privados nos próximos 5 anos é de R$ 440 bilhões. Em R$ 2014, empresas e governo devem gastar R$ 44 bilhões, o que representa 1% do PIB.

Neste ano, porém, a expectativa é de que o país tenha R$ 25,9 bilhões de investimento, praticamente o mesmo que em 2012. “Apesar de tanto correr, vamos ficar no mesmo lugar em relação ao PIB”, pontua.

Desafios na prática

Com a logística longe de oferecer condições de competitividade ao setor produtivo nacional, o impacto na produção e na economia é inevitável, comenta Carlos Gondim, diretor da Booz & Company. “As cadeias de suprimentos têm ficado cada vez mais complexas, mas dentro de uma infraestrutura que tem se deteriorado ao longo do tempo”, diz.

Estudos citados por Gondim indicam que 13% das receitas líquidas das empresas são comprometidos com os custos de logística. Além de pouca malha em modais que poderiam diversificar o transporte, item com maior gasto na logística, as condições da infraestrututra disponível não ajudam.

“Entre as rodovias, que são 58% da matriz logística brasileira, 70% estão em condições de regular para baixo. Só em relação à pavimentação, metade se encontra em condições ruins”, destaca.

Com esse cenário, as empresas têm aumento nos custos de frete, aumento de transit time e comprometimento na regularidade de prazos de entrega, e maior demanda de recursos empregados na administração da cadeia de suprimentos.

Segundo Gondim, as companhias acabam buscando soluções como usar multimodais, estudar a criação de plantas ou centros de distribuição próximos ao consumidor, compartilhar ativos (como plataformas logísticas), terceirização de serviços e a adequação de prazos e custos de serviços ao cliente.

“Cada uma das possibilidades tem impacto e a relação custo/benefício precisa ser analisada no contexto da empresa. Nem sempre diversificar os modais, por exemplo, compensa. Criar uma planta de produção noutro local pode, também, fazer perder escala”, exemplifica.