Logística, transferência de tecnologia e valor agregado são demandas em cadeias de agronegócio

publicado 14/08/2014 15h31, última modificação 14/08/2014 15h31
São Paulo – Executivos de segmentos do agronegócio discutiram gargalos e desafios em seminário da Amcham
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Soluções contra gargalos logísticos, transferência de tecnologia a pequenos produtores e produtos com maior valor agregado são avanços que devem ocorrer em distintos segmentos do agronegócio, defendem executivos que participaram do Seminário Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro: Segurança Alimentar, Política Agrícola e Inovação.

O evento da Amcham – São Paulo, na terça-feira (12/08), foi mediado pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, e teve dois painéis de debates, com a participação de Adrian Isman, presidente da Louis Dreyfus Commodities Brasil; Marcos Jank, diretor global de Assuntos Corporativos da Brasil Foods; Jerry O’Callanghan, diretor de Relações Institucionais da JBS; Alexandre Borges, presidente da Mãe Terra, e João Carlos Hopp, diretor Comercial da Fazenda Bela Vista.

Mário Tenerelli, vice-presidente da área de proteção de cultivos da DuPont do Brasil; Marisa Regitano d’Arce, vice-diretora da ESALQ/USP; Elísio Contini, pesquisador da Embrapa; e Clodys Menacho, diretor Comercial da Alltech, também participaram de painel.

Ricardo Vellutini, presidente da DuPont no Brasil, abriu o encontro com a apresentação do relatório anual da companhia sobre segurança alimentar, realizado pela The Economist Intelligence Unit (leia os detalhes clicando aqui).

Logística

Presidente da Louis Dreyfus Commodities do Brasil, Adrian Isman defende a criação de uma legislação que favoreça investimentos logísticos, como a aceleração de licenças ambientais. Para tanto, governos estaduais e federal devem agir conjuntamente, diz. “No ano passado houve um apagão na logística (escoamento para o porto de Santos) e esse ano vai ter de novo”, adverte.

Há um plano de reestruturação da logística nacional, feito pela EPL (Empresa de Planejamento e Logística), cuja direção prevê que até 2020 o programa esteja concluído, ressalta o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. “É um programa fantástico, mas acho que será concluído dentro de 15 anos, o que é uma limitação para quem precisa crescer 40% em 20 anos, acompanhando o crescimento da demanda mundial por alimentos”, avalia, citando previsão do levantamento Foresight Report on Food and Farming Futures, encomendado pelo governo do Reino Unido.

Transferência de tecnologia

Para executivos e pesquisadores convidados, a transferência de tecnologia é essencial para que o país possa responder à demanda mundial por alimentos e ao consumo interno. “Se a economia do mundo crescer a um ritmo de 3% ao ano, 2,4 milhões de hectares terão de ser adicionados na produção mundial, e pelo menos 1,5 milhão terão de vir do Brasil, não há outro local disponível”, considera Mário Tenerelli, vice-presidente da área de proteção de cultivos da DuPont no Brasil.

Na cafeicultura, o encarecimento de mão-de-obra exige reestruturação e um dos caminhos é ampliar instrumentos de financiamento e de transferência tecnológica para produtores, diz João Carlos Hopp, diretor Comercial da Fazenda Bela Vista.

Esse movimento é relevante também entre os orgânicos para alavancar a profissionalização dos produtores, destaca Alexandre Borges, presidente da Mãe Terra. Ele relata que há atraso de muitos fornecedores. “Temos prazos de entrega dos grandes compradores e levamos multa, se não cumprirmos. Deixamos de comprar de alguns produtores por isso”, comenta.

Inovação

Elísio Contini, chefe da Secretaria de Inteligência e Macroestratégia da Embrapa, ressalta que a Embrapa já vem transferindo tecnologia em diversos segmentos, como ocorreu no cerrado. “A conquista do cerrado é espetacular, podemos oferecer inclusive à África”, realça.

A empesa de pesquisa vem investindo em laboratórios no exterior, em parcerias que ampliam o acesso dos brasileiros ao conhecimento internacional, e mantém contratos com a iniciativa privada para projetos, além das 46 unidades no país. “O orçamento é de US$ 1 bilhão, que não é pouco para a sociedade brasileira, mas suficiente para o prioritário. Gostaríamos que o investimento fosse maior, principalmente do setor privado. Hoje, 70% do que é investido vêm do setor público”, expõe.

Recém-criada, a secretaria que Contini chefia tem a responsabilidade de indicar tendências futuras de demandas domésticas e internacionais para direcionar o agronegócio brasileiro de forma competitiva.

Maisa Regitano d’Arce, vice-diretora da ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), também ressalta parcerias com instituições privadas e do exterior. Internamente, ela avalia que uma das tendências é que criadores de gado também utilizem a pecuária de precisão, a exemplo da agricultura. “É uma questão de evolução”, comenta.

A Alltech, empresa de biotecnologia em nutrição animal, é uma das que investem em parcerias com universidades. O diretor comercial da unidade no Brasil, Clodys Menacho, informa que a companhia mantém ações junto a estudantes em 58 universidades, além de centros de pesquisas com instituições. “A ideia é compartilhar com estudantes as tendências do mercado, para onde caminha a tecnologia da biologia aplicada”, exemplifica.

Segundo Ricardo Vellutini, presidente da DuPont no Brasil, o investimento em P&D no Brasil é um dos responsáveis pelo Brasil figurar entre os países com boa segurança alimentar. “O país tem 2% do PIB agrícola investidos em P&D. Isso faz a diferença, além dos programas sociais”, observa (leia mais sobre levantamento da DuPont sobre segurança alimentar clicando aqui).

Valor agregado

Representantes de segmentos como cafeicultura e pecuária também destacam a necessidade de agregar mais valor às cadeias. Marcos Jank, diretor global de assuntos corporativos da Brasil Foods, comenta que o país passou por uma revolução rural nos últimos 30 anos, mas que é hora de inserir mais valor na etapa em que a produção chega ao consumidor.

“Não é vender mais soja e milho, mas produtos diferenciados. Temos de evoluir não só na quantidade, mas na qualidade do que é entregue ao consumidor”, explica. “A china passa por transformações imensas que nos obriga a pesar o que o Brasil pode fazer”, acrescenta.

João Carlos Hopp, diretor comercial da Fazenda Bela Vista, reafirma o desafio de o país aproveitar a oportunidade de manufaturar café. Ele lembra que o Brasil é o maior produtor de café, mas Alemanha e Itália são os maiores exportadores do produto industrializado.

“Temos muitas torrefações querendo entrar no Brasil, mas não podem vir por problemas de liberdade para produzir”, declara. “O país tem de entender como normal a importação de café de outros lugares do mundo para trazer essas torrefações (e industrializar o processo). O investimento em torrefação é muito alto para pouco café”, complementa.

Já a cadeia de orgânicos busca a democratização dos produtos, para que mais consumidores tenham acesso. “O desafio é acabar com a história de que orgânico é para rico: a aposta é ganhar escala, aumentar volume, para baratear. Esse é o ponto, porque a briga é econômica”, diz Alexandre Borges, presidente da Mãe Terra.

Jerry O’Callaghan, diretor de relações institucionais da JBS, comenta que atualmente a carne suína ainda não é tão consumida no país como as de frango e de boi. “Ela é ais consumida na forma industrializada”, cita. Mas a tendência é de que os produtos apareçam mais nas gôndolas. “Acho que é o setor que mais vai crescer na próxima década”, indica.