Matriz energética tem que ter flexibilidade na oferta, diz diretor da EPE

publicado 01/09/2017 14h11, última modificação 01/09/2017 15h56
São Paulo – Para Amílcar Guerreiro, fontes combinadas de energia dão mais estabilidade de abastecimento
Amílcar Guerreiro

Amílcar Guerreiro, da EPE: setor elétrico vai passar por transformações e será preciso criar uma regulação adequada. Foto: EPE

O Brasil precisa criar regras para tornar a matriz energética mais “flexível”, afirma Amílcar Guerreiro, diretor de estudos de energia elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). “Dois conceitos chave para entender o futuro são a flexibilidade na oferta de energia produzida e o armazenamento dessa carga. Então temos um cenário onde é necessário antecipar o ajuste regulatório e desenvolver novos procedimentos de planejamento e operação nesse sentido”, disse, no comitê de Energia da Amcham – São Paulo em 22/8.

A expansão das fontes renováveis e termelétricas é uma das prioridades do Plano Decenal de Expansão de Energia 2026 (PDE 2026), atualizado em julho. Não há previsão para construir grandes usinas hidrelétricas, que são a principal fonte e contribuem com 65% da matriz. Com menos expansão hidrelétrica e mais fontes renováveis e termelétricas, Guerreiro afirma que será preciso investir em tecnologias de armazenagem de energia para assegurar potência complementar e a flexibilidade de produção.

A flexibilidade mencionada pelo dirigente diz respeito à criação de novas formas combinadas de geração, como o uso de usinas hidrelétricas reversíveis dando suporte a fontes renováveis (eólica, solar e biomassa). As hidrelétricas reversíveis reagem rapidamente a variações na rede em menor tempo, produzindo energia ou consumindo o excedente.

Elas podem atuar quando as usinas renováveis pararem em função de variações naturais (falta de vento e sol, entressafra). “Com as hidrelétricas reversíveis, tenho uma carga adicional no sistema e consigo fazer uma gestão melhor da oferta”, diz o dirigente.

Além disso, à medida que aumentar a oferta de energia das fontes renováveis, será preciso usar baterias capazes de armazenar a carga excedente. Para os próximos anos, a EPE estima que será preciso gerar uma potência complementar entre 12 GW (gigawatts) a 18 GW. Para comparar, a usina de Itaipu tem capacidade de produzir 14 GW por ano.

“É uma potência que tem que estar disponível a qualquer momento. Porque pode parar de ventar a qualquer hora ou cair a geração solar a qualquer momento”, explica. De acordo com o especialista, o mercado de baterias deve receber investimentos em torno de 600 bilhões de dólares no mundo nos próximos 20 anos. A capacidade de armazenamento é estimada em 300 GW.

Em relação a questionamentos sobre a expansão de usinas termelétricas, mais poluentes que as demais, Guerreiro ressalta que as principais emissões de gases estufa no Brasil vêm do desmatamento, e não das termelétricas. Mas admite que no futuro a pressão para limitar a geração termelétrica “será inevitável”.

Geração distribuída

Guerreiro também destaca a popularização da geração distribuída (produção independente) nos próximos anos, obrigando o governo a regulamentar a prática. “Há serviços de energia que outrora não eram demandados explicitamente, mas que exigirão formatação adequada inédita no Brasil.”

A busca por eficiência energética e chegada dos carros elétricos são os principais fatores de crescimento dessa forma de geração. Esses fatores tendem a pressionar os fornecedores tradicionais de energia, estima Guerreiro. “As distribuidoras que não entenderem o novo cenário podem estar condenadas a acabar”, disse.

registrado em: ,