Mudanças na tributação de empréstimos no exterior causam incerteza para investidores, diz economista

por andre_inohara — publicado 15/06/2012 15h48, última modificação 15/06/2012 15h48
André Inohara
São Paulo – Para economista-chefe da Telefonica do Brasil e diretor presidente do Sobeet, recente medida que suspende o IOF para recursos com prazo acima de dois anos tem como impacto reduzir previsibilidade do retorno para o investidor.
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Diante da crise internacional, captar dinheiro no exterior ficou mais difícil. Para garantir investimentos de longo prazo, o governo brasileiro adotou medidas de facilitação de crédito externo, como a isenção de IOF para financiamentos acima de dois anos. No entanto, tais decisões podem, na contra-mão, causar incerteza para o investidor.

“O investidor aplica seu capital com base em um horizonte de cinco anos, e seis meses depois o governo muda a regra?”, indaga Luis Afonso Fernandes Lima, economista-chefe da Telefonica do Brasil e diretor presidente do Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica).

Recentemente, o governo anunciou que os empréstimos feitos no exterior com prazo acima de dois anos não serão mais obrigados a pagar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 6%. A decisão ocorre pouco mais de três meses após a imposição da tributação. Na ocasião, a medida tinha como alvo conter o excesso de fluxo de dólares na economia brasileira.

Confira abaixo a entrevista de Lima concedida ao site da Amcham após ele participar do  CFO Fórum promovido pela Amcham-São Paulo na quinta-feira (14/06):

Veja aqui: Gestores financeiros mostram otimismo com cenário doméstico e revelam acreditar que crise internacional terá efeito reduzido no Brasil

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Amcham: Recentemente, o governo retirou o IOF dos empréstimos internacionais acima de 720 dias como forma de estimular a entrada de capital. Qual o efeito dessa medida para os investimentos?

Luis Afonso Lima: Quando o governo usa instrumentos para gerir o câmbio, tira a visibilidade do investidor, que não sabe mais o que o governo vai fazer. Ficar mudando regras atrapalha quem investe, pois tira a previsibilidade do retorno. O investidor aplica seu capital com base em um horizonte de cinco anos, e seis meses depois o governo muda a regra?

Amcham: Apesar do cenário internacional complexo, pesquisa da Amcham realizada durante o seminário revela que os executivos financeiros acham que as vendas vão crescer neste ano. O que explica esse otimismo?

Luis Afonso Lima: Os dados da pesquisa foram muito positivos, mas, pela experiência de crises passadas, creio que o otimismo vai esmorecer à medida que a crise se prolongar em médio e longo prazos. O nível de atividade industrial no Brasil, bem como a confiança do consumidor e do empresariado, está menor, e isso é um aspecto negativo.

Amcham: A sondagem da Amcham também mostrou que as companhias tendem a manter o nível de investimentos, mesmo com a queda dos juros. Como o sr. analisa esse resultado?

Luis Afonso Lima: Na minha avaliação, é possível que a taxa de investimento caia. Os bancos estão mais receosos aqui dentro e as matrizes no exterior estão optando pelo repatriamento de capital. As empresas que, mesmo assim, querem investir estão encontrando mais dificuldades para captar dinheiro no setor bancário. Uma alternativa que está sendo bastante utilizada pelas grandes empresas agora é o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social], que tem sido um parceiro para investimentos de longo prazo. Quanto às médias e pequenas empresas, vejo que elas recorrem mais aos bancos públicos, que têm sido mais agressivos que os comerciais. É uma saída que, de qualquer forma, é importante para que as empresas diversifiquem suas fontes de recursos.

Amcham: Em sua apresentação, o sr. disse que as empresas brasileiras precisam se internacionalizar. O que espera nesse sentido para os próximos meses?

Luis Afonso Lima: Nos próximos meses, haverá redução do processo de internacionalização. Tanto o investimento que chega das empresas estrangeiras como o que sai, das brasileiras, está reduzido. Estamos em um momento de instabilidade e incerteza, mas em 2013 vai ficar claro que as economias emergentes têm que ser o destino de investimentos diretos estrangeiros.

Amcham: Por quê?

Luis Afonso Lima: Cada vez mais, as empresas estrangeiras vão ver o Brasil como destino de investimento direto porque aqui existem oportunidades que não encontram mais nas economias centrais. Quanto às empresas brasileiras, elas devem voltar a investir no exterior a partir de 2013 porque é uma questão de competitividade. Não se pode mais contar apenas com o mercado doméstico. Se elas não se internacionalizarem, no longo prazo ficarão impossibilitadas de competir no Brasil. Precisam buscar novos mercados e se expor para ganhar competitividade.