Modelo do Ciência Sem Fronteiras começa a ser copiado por outros países, revela presidente da Capes

por marcel_gugoni — publicado 30/10/2012 16h40, última modificação 30/10/2012 16h40
São Paulo – Para Jorge Guimarães, grande trunfo do programa é viabilizar pesquisas de graduação e pós, assim como permitir contato próximo dos estudantes com as empresas.
jorge_capes_195.jpg

O modelo do Ciência Sem Fronteiras de intercâmbio de conhecimento é tão eficiente que começa a ser replicado em outros países além do Brasil, que buscam expandir sua competitividade e sua capacidade de inovar. É o que afirma Jorge Guimarães, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ao falar sobre o programa.

Leia mais: Formação e estágio via Ciência Sem Fronteiras devem ser vistos pelas empresas como investimento

Para ele, o grande trunfo é conseguir viabilizar pesquisas de graduação e pós-graduação em mestrado e doutorado, além de permitir contato próximo dos estudantes com o setor privado. Guimarães participou nesta segunda-feira (29/10) da força-tarefa Ciência Sem Fronteiras da Amcham-São Paulo para debater como a experiência internacional pode ajudar a enriquecer o conhecimento acadêmico e prático e fomentar a inovação, preparando profissionais mais capacitados para enfrentar os desafios das empresas e do País.

Leia mais: Apoiar pesquisas e formação de recursos humanos é chave para competitividade, diz presidente do CNPq

“Alguns países desenvolvem agências de acreditação, mas elas não funcionam com bolsa ou financiamento”, afirma. “Soube que a Rússia está montando um programa nos moldes do CSF, assim como os Estados Unidos. Se Barack Obama for reeleito, pretende mandar 100 mil americanos para a América Latina, sendo que boa parte vem para o Brasil.”

Veja abaixo os principais trechos da entrevista que o presidente da Capes concedeu ao site, sobre as principais oportunidades do intercâmbio educacional ao País:

Amcham: Desde a fundação da Capes, o que mudou na formação de mão de obra e na qualificação de profissionais, a partir do ponto de vista de um programa como o CSF?

Jorge Guimarães: A Capes foi criada em 1951. Na época, tínhamos números muito baixos de pesquisadores, lembrando sempre que nossas universidades eram poucas. A Capes viria para funcionar como um balcão de ofertas de treinamento no exterior. Não havia tanto o foco de prioridades, tanto que a maior parte dos estudantes foi sempre das ciências humanas e sociais. Isso continua existindo, com estudantes interessados em fazer uma parte de sua formação no exterior, em vários níveis. De nove anos para cá, resolvemos induzir a formação, isso antes mesmo do Ciência Sem Fronteiras, em cursos e áreas que nossa economia demanda. Uma das áreas dessa indução, por exemplo, é a de ciências do mar. O Brasil ganhou mais de 200 mil milhas marítimas, uma área maior do que a Amazônia, tanto que a Marinha chama essa região de Amazônia Azul, e não temos gente ou cursos em grande escala, somente um ou outro em universidades de São Paulo e do Rio Grande do Sul. A saída é buscar no exterior. Por isso, é uma área que precisamos induzir [o intercâmbio]. Engenharias são áreas do conhecimento em que ainda temos um número pequeno de estudantes diante da necessidade do País. Isso, por sua vez, resulta do fato de que a educação básica é muito ruim. A partir disso, é preciso definir prioridades, e isso culminou no Ciência Sem Fronteiras, que estabeleceu que as prioridades seriam as áreas tecnológicas, não somente as engenharias, mas a computação, a saúde, a química, a física, as geociências e outras. Diferentemente do balcão, o CSF faz uma chamada específica. A experiência da Capes foi importante neste sentido. Considerando, inclusive, que não existe Capes no resto do mundo, temos sistemas de agências [de fomento à pesquisa e à inovação] que têm facilitado o trabalho.

Veja aqui quais são as vantagens de ser sócio da Amcham

Amcham: É possível dizer que esse modelo de agências de fomento à pesquisa do Brasil serve de exemplo a outros países no tema da inovação?

Jorge Guimarães: Sim. O Ciência Sem Fronteiras está sendo copiado por outros países, assim como o modelo Capes porque não podemos simplesmente reconhecer o que há de bom ou de ruim na educação superior e na pós, mas financiar as melhores práticas. Alguns países desenvolvem agências de acreditação, mas elas não funcionam com bolsa ou financiamento. A Capes introduziu a avaliação da pós-graduação em 1976, foi a primeira do mundo a fazer algo do tipo. O Reino Unido veio fazer isso quase 20 anos depois. Então, de certa forma, mostramos para o mundo como se faz isso. Outro projeto sui generis no mundo é o portal de periódicos, que permite acessar os artigos [científicos e de pesquisa] completos, com textos e tabelas. Soube que a Rússia está montando um programa nos moldes do CSF, assim como os Estados Unidos. Se Barack Obama for reeleito, pretende mandar 100 mil americanos para a América Latina, sendo que uma boa parte vem para o Brasil.

Amcham: Isso só mostra que os intercâmbios têm grande componente de formador da inovação, não?

Jorge Guimarães: Exatamente. Essas iniciativas já são inovadoras por si mesmas e, mais ainda, o fato de que estamos expondo estudantes a ambientes ricos à inovação, encontrando colegas do mundo inteiro, vivendo no campus universitário, mostrando a importância do acesso a uma segunda língua. Tudo isso é um aprendizado que ganhamos com nossos estudantes indo ao exterior.

Quer participar dos eventos da Amcham? Saiba como se associar aqui

Amcham: Como fazer com que as empresas atraiam mais mestres e doutores, como os qualificados no exterior?

Jorge Guimarães: As empresas que já estão entrando neste sistema são todas aquelas que têm interesse comercial no Brasil. A Alemanha, por exemplo, tem em São Paulo a maior cidade industrial alemã fora do país. Há mais de 2000 empresas alemãs aqui. Por isso, eles têm todo o interesse em que mandemos nossos estudantes para lá, a fim de que convivam com a cultura deles, para que quando eles voltem sejam contratados por essas companhias. A Suécia tem 220 grandes empresas no Brasil.

Amcham: Qual a mensagem que fica para as empresas brasileiras diante de um programa de intercâmbio como esse do CSF?

 Jorge Guimarães: Aproveitem esta oportunidade de poder receber a nata da juventude treinada pelas próprias empresas no exterior.