Modernização da infraestrutura de telecomunicações deve atingir cidades sede da Copa, destaca sócio da PwC

por andre_inohara — publicado 28/03/2013 12h33, última modificação 28/03/2013 12h33
São Paulo – Consultor saudou a intenção de investimento em tecnologias verdes, evidenciada na pesquisa Amcham.
ramires_195.jpg

As cidades sedes da Copa do Mundo em 2014 devem ser beneficiadas com modernização dos serviços de telefonia conduzidos pela iniciativa privada, mas é preciso lembrar que o legado de melhorias tem que se estender por todo o Brasil, destaca Anderson Ramires, sócio e especialista em Telecomunicações da consultoria PwC.

“A percepção de qualidade do usuário vai melhorar, e isso vai deixar um legado importante, embora eu acredite que a melhoria não atingirá os 100% da população. É o público dos grandes centros que vai perceber isso porque os investimentos estarão voltados para as cidades sedes e subsedes”, comenta Anderson Ramires, sócio e especialista em Telecomunicações da consultoria PwC.

O executivo mediou debate entre a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e presidentes e diretores de grandes empresas no seminário  Competitividade Setorial – Telecomunicações, realizado pela da Amcham-São Paulo na última quarta-feira (27/03).

Leia mais: Setor de telecomunicações enfrenta desafios em custos, regulação, mão de obra e carga tributária

Ramires disse que as empresas estão se empenhando para manter bom ritmo de investimentos rumo à Copa, apesar de barreiras burocráticas e estruturais. “Vejo os esforços das operadoras para atender os investimentos, bem como sua insistência junto aos entes governamentais para viabilizar os projetos. Refiro-me a direito de passagem, licenças ambientais e uma série de burocracias regionais que precisam ser vencidas”, afirma ele.

No entanto, é preciso ter em mente que o Brasil possui território continental e que a modernização de estrutura deve contemplar o País inteiro, frisa o consultor. Ele também comentou os resultados da pesquisa da Amcham divulgada no seminário, e se disse favoravelmente surpreendido com a revelação de que boa parte das empresas pretende investir em tecnologias verdes.

“É extremamente interessante, pois é a primeira pesquisa que aponta a tendência para tecnologias verdes. Outro dado surpreendente é o grau de investimento que elas vão destinar, que é de 2% a 6% do faturamento, enquanto 12% vão investir mais que isso.” Leia abaixo a entrevista de Ramires ao site da Amcham, após o evento:

Veja aqui quais são as vantagens de ser sócio da Amcham

Amcham: O empresariado apontou no seminário desafios enfrentados para melhorar o serviço de telecomunicações. Como o sr. avalia as discussões?

Anderson Ramires: O debate sempre é positivo. Em um setor em que os números e volumes são grandes, não seria diferente com os problemas e desafios. A carga tributária é um obstáculo, mas não o único. Há o problema de formação [de mão de obra] no setor, uma grande lacuna que vai se alastrar nos próximos anos. Isso pode trazer impacto direto à cadeia, tanto do ponto de vista dos produtores de equipamentos, como dos geradores de conteúdo e das próprias operadoras. Outro ponto importante é a reorganização da agência reguladora (Anatel).

Amcham: A Anatel abordou essa questão da reestruturação no seminário. Como isso vai ajudar na melhoria do setor?

Anderson Ramires: A velocidade [de mudança] que o setor privado precisa não está sendo impressa. Ela teria que ser maior, ao lado da agilidade de implementação de infraestrutura. Iniciativas de desregulamentação são um avanço, mas ainda são insuficientes. A decisão de investimento ainda depende disso. Em minha opinião, poderia haver diminuição de carga regulatória onde a competição já existe e normatizar onde ela é necessária, ou em locais qm eu não chega e o Estado tem interesse em desenvolver o serviço. É fácil falar de competição em mercados altamente rentáveis como Rio de Janeiro e São Paulo, mas é difícil falar disso no interior do Amazonas ou do Acre. É lá que o Estado tem que atuar, fazendo regulação para levar infraestrutura a quem está precisando.

Amcham: A Amcham apresentou uma pesquisa sobre desafios e oportunidades no setor. Algum aspecto chamou sua atenção?

Anderson Ramires: A pesquisa conseguiu trazer um raio-X preciso de quais são os grandes gargalos e desafios do setor, com as áreas onde o governo e iniciativa privada precisam atuar. Um ponto que me chamou bastante a atenção, de forma positiva, é o dado sobre a aplicação de tecnologias verdes [46% dos representantes empresariais disseram que vão investir nesse tipo de tecnologia]. 

Leia mais: Pesquisa Amcham: questão tributária, qualidade de serviços e formação de pessoal são prioridades em telecom

Isso é extremamente interessante, pois é a primeira pesquisa que aponta a tendência para tecnologias verdes, ou a primeira que faz apuração com empresas para entender seu comportamento quanto ao uso de tecnologias verdes. Outro dado surpreendente é o grau de investimento que elas vão destinar, que é de 2% a 6% do faturamento, enquanto 12% delas vão investir mais do que isso. Já existem empresas pensando nesse tipo de investimento, o que a pesquisa soube capturar muito bem.

Amcham: O representante da Anatel no seminário [o conselheiro Marcelo Bechara] avaliou que o aumento de queixas sobre serviços junto à agência sinaliza que a iniciativa privada não está conseguindo atender a todos adequadamente. Como o sr. recebeu essa opinião?

Anderson Ramires: Em relação às reclamações, os dados do sindicato patronal são um pouco diferentes, até opostos. O ponto é que a percepção do usuário tem que ser tratada como item número um de diferenciação. Embora isso já esteja sendo feito pelas operadoras e pareça óbvio, o foco principal no usuário se refletiria na simplificação de sistemas, rotinas e processos internos. As reclamações por conta da baixa qualidade de serviços fazem parte do dia-a-dia, até pela complexidade de planos que temos hoje. Muitos usuários consideram difícil entender os planos contratados e que estão agregados na conta.

Leia mais: Conselheiro da Anatel diz que agência se reformula e estimula organização política do setor de telecomunicação

Amcham: Qual a saída para diminuir o volume de reclamações?

Anderson Ramires: Simplificar [os serviços] é a saída? Sim, mas educar o usuário também. O segundo ponto importante que Bechara mencionou em relação aos critérios de cobrança [unificação] é um grande avanço. Teríamos hoje não só uma cadeia convergente de serviço, mas de obrigações. Isso tudo unifica, simplifica e faz com que essa educação seja organizada e viabilizada de forma mais rápida.

Amcham: Outro ponto que o conselheiro da Anatel mencionou foi a necessidade de maior aglutinação do setor privado para que as propostas sejam levadas adiante de forma organizada. O sr. concorda?

Anderson Ramires: O setor de telecomunicações representa 5% a 6% do PIB [Produto Interno Bruto]. Temos participação importante e direta na economia, fora a indireta, pela promoção do serviço, beneficiando outros setores que também alimentam a conta final do PIB. Mas o fato de termos alguns players internacionais talvez dificulte um pouco essa articulação, considerando-se que cada um procura muito mais a conquista de mercado do que a unificação de interesses. De qualquer modo, achei a provocação interessante, que vai gerar discussão positiva sobre o setor.

Amcham: Estamos a pouco mais de um ano da Copa do Mundo. Até lá, como estará a oferta de serviços de telecomunicações?

Anderson Ramires: Estou otimista. Vejo os esforços das operadoras para atender os investimentos, bem como a sua insistência junto aos entes governamentais para viabilizar os projetos. Refiro-me a direito de passagem, licenças ambientais e uma série de burocracias regionais que precisam ser vencidas. A percepção de qualidade do usuário vai melhorar, e isso vai deixar um legado importante, embora eu acredite que a melhoria não atingirá os 100% da população. É o público dos grandes centros que vai perceber isso, porque os investimentos estarão voltados para as cidades sedes e subsedes. Minha grande preocupação está voltada à estrutura fora dessas cidades, em áreas ou capitais que não serão beneficiadas. Quando esse acesso vai melhorar? Ao canalizar os investimentos para a Copa, não se pode esquecer das outras cidades e do resto do País.

Amcham: Como o setor privado deve encarar os desafios de curto prazo?

Anderson Ramires: A mensagem é que não se pode esmorecer porque ainda há muito a ser feito. O dialogo é extremamente importante, e o realizado pela Amcham foi saudável ao setor. Foram debatidos temas importantes e repensamos outros assuntos também muito relevantes. Existe uma mudança de corrente filosófica na Anatel. A agência está se reestruturando e se readequando para enfrentar os desafios que o próprio mercado e a tecnologia impõem. Mas isso não quer dizer que o setor privado tenha que esperar os entes públicos.

Amcham: Poderia explicar melhor?

Anderson Ramires: A cadeia privada pode se reorganizar melhor, promovendo autogestão no sentido de gerar as próprias iniciativas, formar a própria mão de obra, utilizar parte do imposto com soluções criativas. Não tenho dúvidas de que tanto os governos estaduais como o federal não se negariam a discutir isso. O uso de parte do imposto poderia ser direcionado para formação de pessoas, investimentos em infraestrutura local, educação e saúde. Existem soluções criativas que podem ser colocadas na mesa, mas isso deve ser feito rápido, de forma inteligente, para aproveitar as oportunidades e consolidar uma parceria com o governo federal.