Nem céu de brigadeiro, nem turbulências: especialistas veem 2019 com “otimismo moderado”

publicado 08/02/2019 09h59, última modificação 11/02/2019 10h09
São Paulo – Zeina Latif e Bolívar Lamounier fizeram análises de como o país pode decolar nos próximos anos
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A expectativa em torno da economia tem melhorado. Vemos alguns reflexos disso no início de 2019. O mais recente deles foi uma pesquisa feita na Amcham com 500 executivos: 99% deles apontaram que esperam o crescimento do PIB neste ano. Para Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, e Bolívar Lamounier, diretor da Augurium Consultoria, há motivos para comemorar. No entanto, ambos lembraram, durante o Plano de Voo, realizado dia 07/02 em São Paulo, que os desafios do Brasil são grandes e vão além da macroeconomia.

 

Sinais de uma decolagem tranquila

Os pontos mais positivos de 2019 foram as sinalizações feitas pelo governo a respeito de reformas estruturais. Latif lembra que a política econômica do governo Bolsonaro mantém e aprofunda a agenda liberal iniciada no governo Temer – algo positivo para a economia. “A reforma da previdência é a espinha dorsal para estabilizar e reduzir a dívida pública. Sem resolver questão fiscal, não dá para falar de crescimento econômico. É um passo muito importante”, apontou a economista.

Outro indicador que dá sinais de melhora é a taxa de juro. Respondendo a uma pergunta da plateia, Latif relatou que acredita que caminharemos para níveis mais baixos da taxa básica de juros Selic. “A tendência é que queda, mas podemos discutir a velocidade dessa queda”, relatou, alertando que esse processo pode demorar. Ela também adiantou que a bolsa deve passar por volatilidade ao longo desse ano, principalmente com a desaceleração do comércio global.

Lamounier apontou como positivo, além do ajuste fiscal, a mudança e renovação de nomes no Congresso: “Do ponto de vista político, tivemos uma renovação, com uma boa mudança de perfis. Acho razoável dizer que o Congresso melhorou. Figuras que precisavam sair saíram, isso é positivo. A eleição para Presidência do Senado foi muito significativa: o candidato que normalmente venceria não venceu. Agora vamos ver como se arranjam, como esse novo congresso lida com o governo”.

A decolagem pode estar tranquila, mas o caminho deve ser longo, como aponta o cientista político. “Estamos passando por uma arrumação gradativa da casa, não dá para imaginar que vamos chegar ao paraíso dentro de poucas semanas. Estou moderadamente otimista. Espero que, se não for um céu de brigadeiro, que não seja uma turbulência tão forte que me impeça de dormir”, brincou.

 

Cuidado com a turbulência

Latif lembra que a Reforma da Previdência sozinha não garante o crescimento da economia. “Como vocês sabem, o ambiente de negócios é difícil no país. A questão tributária é central, como mostra a pesquisa realizada aqui. Temos um problema sério com capital humano, com indicadores educacionais estagnados. O mundo discute a Revolução 4.0 e nossos jovens não sabem matemática. Para voltar a crescer junto com ao crescimento mundial, como no passado, precisamos ter outras agendas”, ressaltou. Enfrentar privilégios e grupos beneficiados por incentivos do governo é parte importante do ajuste fiscal, como lembra a economista. Por isso, o governo federal precisa ter capital político e dialogar bem com Congresso e Senado.

Respondendo a uma pergunta da plateia, a economista ressaltou ainda que a taxa de desemprego não deve abaixar tanto nos próximos anos, justamente pela falta de mão-de-obra qualificada. A notícia boa é que a educação pode ser a chave: apesar de ser um investimento a longo prazo, os resultados já são visíveis em lugares que apostaram em novos modelos, como Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, cujas notas de avaliação estão subindo. “É preciso correr com essa agenda”, lembra.

Outro fator é a economia mundial, segundo a economista. A retração do crescimento chinês nos últimos anos, por exemplo, teve um impacto forte no investimento direto que o país realizava no Brasil.

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