Novos rumos para os gigantes: veja como Natura, GM, C&A e Deutsche Bank estão planejando o futuro

publicado 18/02/2020 13h43, última modificação 23/03/2020 15h09
São Paulo – Inovação, formas de trabalho e sustentabilidade foram alguns dos tópicos abordados pelas lideranças
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Na foto: Paulo Correa, Presidente da C&A Brasil; Maite Leite, Presidente do Deutsche Bank; Deborah Vieitas, CEO da Amcham Brasil; Carlos Zarlenga, Presidente da General Motors; e João Paulo Ferreira, CEO Latam do grupo Natura & Co.

Um carro sem volante e sem pedais. Esse é o teste que a GM está fazendo de um novo produto em São Francisco, segundo Carlos Zarenga, presidente da General Motors América do Sul. O executivo compartilhou a novidade durante o Plano de Voo, evento de perspectivas realizado no dia 14/02 em São Paulo. A inovação em produtos é uma das estratégias da montadora para se adaptar às novas mudanças de mercado – tanto na tendência da diminuição de carros nas ruas quanto à pressão por diminuir o uso de combustíveis fósseis. “Por um lado, você tem que trabalhar o core, é o que dá dinheiro para fazer o investimento, mas não pode esquecer o que está acontecendo no mundo”, relatou Zarenga.

Isso se reflete até em setores muito tradicionais da economia, como o financeiro. Maite Leite, Presidente do Deutsche Bank, compartilhou que espera a reinvenção do sistema financeiro através de parcerias com empresas de tecnologia. Outra mudança importante é nos fundos de investimento que estão focados em sustentabilidade – em sintonia com discussões como as de Davos.

 

SUSTENTABILIDADE: DE DAVOS PARA BRASIL

O tema da sustentabilidade dominou as discussões em Davos em janeiro. A pressão por uma produção mais responsável com o ambiente e pessoas vem crescendo e impactando os negócios – e seus CEOs. Para Paulo Correa, CEO da C&A, são três elementos principais que precisam ser observados nessa equação: matéria-prima, cadeia de fornecimento e inclusão. Inovação e pesquisa de materiais foram essenciais para conquistar dois marcos importantes para a empresa: uma camiseta que se decompõe completamente e, depois, a primeira calça jeans com a mesma propriedade. A busca é por produtos de impacto zero. No entanto, o CEO alerta para outro problema: produtos sustentáveis são mais caros. “Nosso problema é de renda. Se perguntamos para o consumidor se ele quer um produto sustentável, ele dirá que sim. Mas sobre pagar mais 20%, aí é outro problema. No final do dia, a escala traz eficiência, que traz competitividade. E a sustentabilidade tem a ver com criar essa escala também”, analisa.

João Paulo, CEO na Natura & Co, afirmou que há excelentes práticas de sustentabilidade e desenvolvimento econômico em todos os setores da economia. No entanto, é preciso mais do que iniciativas pontuais: “Esses temas não se movem de maneira individual: é preciso da iniciativa privada, de diversas esferas do governo, do terceiro setor e de comunidades envolvidas. Essa é a grande oportunidade, temos que colocar esse papel de ponte para facilitar o diálogo”, analisa.

 

NOVAS FORMAS DE TRABALHO

Como as empresas estão se preparando para lidar com as novas formas de trabalho? Para Zarenga, a parte mais difícil são os encargos trabalhistas e entraves na lei. Antes de organizar esse novo trabalho, é preciso fazer novas leis que abracem essas mudanças. “A CLT foi toda pensada em modalidades de trabalho que deixaram de existir. No final, quem tem que resolver são os que foram eleitos para isso”, provocou.

A análise de Correa também foi crítica nesse sentido – apesar dos avanços que a reforma Trabalhista trouxe, ainda faltam outras mudanças estruturais para evitar o que ele chamou de “fábrica de causas” trabalhistas. “Isso é uma distração forte de produtividade e evolução da sociedade. Mas temos que lembrar isso [aparato e leis trabalhistas] foi construído a partir de uma realidade em que tinham vários empresários e políticos que eram abusivos, foi construído um caminho para fechar as portas para que abusos não aconteçam. Agora temos que pensar em como equilibrar essas duas coisas”. Na C&A, uma das apostas tem sido o trabalho através de squads – equipes multidisciplinares que trabalham com um projeto ou produto específico. Para o CEO, essa mudança traz um sentido de trabalho maior, mais flexível e com mais autonomia.

Para o CEO da Natura & Co, as lideranças enfrentam um grande desafio de requalificação de mão de obra. Com postos de trabalho de reduzindo com a automatização de processos, é preciso refletir sobre como realocar essa massa. O especialista deu o exemplo do trabalho do Instituto Natura com a educação pública em diversos estados brasileiros e em parceria com outras organizações. “Existem agentes hoje na sociedade que conseguem canalizar recursos e fazer pontes com o Estado. E a iniciativa privada pode ajudar esses atores e tocar temas como o da educação”, afirmou.

 

CORONAVÍRUS E ECONOMIA 

Uma das principais incertezas econômicas para o começo deste ano é o coronavírus e seus possíveis impactos na economia. Para Correa, o índice de fatalidade é menor do que de outras epidemias, o que é um sinal mais positivo. Por outro lado, o impacto da China na economia é muito grande. “Sabemos pelos nossos escritórios lá na China que as paralisações do trabalho não estão acontecendo só na província de Hubei [epicentro da epidemia], toda a China vive essa situação. A principal questão é quanto tempo vai demorar e o que mais vai acontecer. Se isso durar, pode ter impactos maiores”, analisou.

 

MACROECONOMIA E NEGÓCIOS EM 2020

Zarenga vê a dificuldade da aprovação da Reforma Tributária. “A Reforma da Previdência tinha apoio da sociedade, dos políticos e dos empresários. As que vêm agora são diferentes, não tem o mesmo nível de apoio”, analisou o executivo. Para ele, uma reforma tributária que trabalhe apenas com a simplificação de tributos decepcionaria as expectativas das empresas: “A simplificação tem a problemática de como é distribuída essa renda arrecadada. Ao mesmo tempo, o governo tem que fazer uma redução de despesas, sendo que quase 90% dos gastos são fixos. Isso será uma grande dificuldade”.

O executivo deu também outra perspectiva sobre câmbio alto e juros baixos, que tantos encaram como oportunidade de exportação. Para isso, deu como exemplo a planta da GM em Gravataí (SP), a mais eficiente do mundo: “O real a R$4,30 não abre novos mercados, precisamos trabalhar com produtividade. Os custos de logística, com encargos trabalhistas e impostos são o problema. Não tem exportação sem eficiência”.

Leite também seguiu com a opinião de Zarenga sobre a consistência da agenda: tem expectativas positivas com a economia, mas ainda tem dúvidas sobre a consistência das reformas. “As continuidade das reformas precisa vir, é uma pauta do governo que precisa seguir de maneira progressiva”, afirmou.

Para Ferreira, não haverá um “crescimento explosivo do mercado”. Isso não é uma exclusividade brasileira: a convulsão social no Chile, a estagnação da economia no México, o Brexit no Reino Unido e o coronavírus na China são todos fatores que mostram lentidão no crescimento da economia global e, consequentemente, da brasileira. “Isso tem levado a Natura a buscar diferenciais e condições para competir em escala global. Precisamos de inovação, diferenciação e ousadia - é um bom momento para isso”, relatou.

 

O QUE É O PLANO DE VOO?

O Plano de Voo é um encontro de executivos que existe há três anos na nossa agenda. O objetivo do evento é traçar perspectivas econômicas, políticas e de negócios para o ano que inicia e faz parte do nosso portfólio de fóruns e seminários.

PARA QUEM É?

Lideranças empresariais, autoridades, especialistas e imprensa. Todos interessados em acessar uma curadoria de tendências, perspectivas e analises mercadológicas.

COMO FUNCIONA?

São convidados especialistas de economia, política e negócios para palestrarem e debaterem em painéis de discussão.